Torniquete – Ana Catarina Lugarini é uma cria local, ou seja, de Curitiba. Trabalhou na produtora Grafo que fundou e dirige o Olhar de Cinema, ao lado do agora ex-sócio e realizador Aly Muritiba, com quem também estudou. Na universidade, foi aluna de Fernando Severo, diretor e nome ativo do cinema paranaense. Tem bom pedigree, portanto, para agora fazer sua estreia no longa-metragem. Não bastasse, conquistou para o projeto a atriz Marieta Severo, que se disse encantada com o roteiro e entrou como co-produtora. O resultado se pode apreciar na sessão mais lotada do festival, como esperado, com toda a equipe e a própria Marieta presente. E o que se viu na tela foi um drama com muitos méritos, mas também problemas que podem ser superados nos novos projetos da estreante. Curioso, a trama tem pontos de contato com longas recentes, o ótimo Malu e Câncer com Ascendente em Virgem, este também com Marieta no elenco.
Em comum, três gerações de mulheres em cena, mãe, filha e neta. Mas se naqueles é claro o fator dramático que os move, em Torniquete se incube o espectador de preencher as informações ausentes — e elas são muitas. Marieta interpreta a matriarca que mora numa casa antiga de bairro, onde vende botijões de gás, com a filha e neta. Bem, na verdade elas chegaram ali faz pouco, pelo que se depreende dos diálogos iniciais, momento em que já se nota a rispidez reinante. E esse início se dá numa situação drástica. As três estão presas num quarto, vítimas de um assalto. A violencia do tipo é constante, segundo relata a avó para o policial. Há outro fato significativo que vem dessa tensão, ao menos se supõe, quando a menina surge com um curativo no rosto cobrindo uma ferida profunda. O machucado será recorrente na trama, em especial porque a garota quer mantê-la aberta, inclusive com sugestão diversa para sua origem. Evidente o símbolo das relações duras, sobretudo entre a personagem de Marieta e a filha, e um pouco mais suavizada pela tentativa da neta de se aproximar da avó.
E qual a razão desse mal-estar? Não se diz. Como adiantado, cabe a nós imagina-la. Ora, de antemão se conhece a dificuldade comum de gerações diferentes em se comunicarem, se compreenderem, dinâmica que a diretora confirmou ser seu caso e na sua família. Perfeito. Apenas que um filme deve buscar um diálogo minimamente esclarecedor com a platéia, e longe disso sugerir aqui o conceito de entregar tudo mastigado e digerido. Entre a crítica, denomina-se o estilo de lacunar, ou seja, repleto de lacunas para fazer pensar a quem assiste. No caso, houve um exagero na sua adoção. Tanto mais porque a matriarca decide por um final apoteótico, só razoável se tomada por uma mágoa exponencial. Ou uma doença grave, numa aposta bastante aberta. Não é pouco tirar do espectador a possibilidade de aprofundar melhor um drama que tem sua força, o que poderia mesmo intensifica-lo. Menos mal que o filme tenha qualidades técnicas inegáveis e elenco competente — ainda Renata Grazzini como a mãe, e Sali Cini, no papel da neta — para compensar no que se excedeu. Ou melhor, no que deixou de fora.
Glória & Liberdade — Raro uma animação nacional voltada aos adultos. Ao menos foi nessa categoria que a diretora baiana Letícia Simões o incluiu na apresentação e debate que costumam integrar as sessões da safra brasileira do festival. Não está errado, mas talvez um tanto impreciso, porque há uma conotação didática na pegada documental do projeto, em muito devido a sua origem em um fundo educacional. Parece, em suma, um projeto de caráter escolar, o que não necessariamente o desabona e nem tira méritos. Trata-se de um painel das lutas de independência de menos fama travadas no Brasil, e um tanto esquecidas, movidas por núcleos específicos de trabalhadores, agricultores, oprimidos em geral, e nao por acaso envolvendo negros e indígenas. São fatos que entraram para a história mas não ganharam relevancia nos livros didáticos e currículos escolares, a exemplo da Cabanagem, Sabinada e Balaiada. A animação revisita essas batalhas utilizando arquivos, mapas, perfis dos responsáveis e participantes, tudo, claro, pela técnica de desenho que se nao é tão caprichada, condiz com a proposta palatável. Apenas que faz isso num ritmo feérico, sob fundo musical sem trégua, numa sucessão de cenas sem pausa para reflexão. A horas tantas, o dispositivo nos distancia e mesmo mina o interesse em seguir na trilha, inclusive geográfica, dos acontecimentos.
Um Corpo para Habitar — Neste caso, não se pode reclamar do esmero da pesquisa, da qualidade técnica, enfim, do rigor documental. A questão, contudo, está na temática que envolve a personagem principal, seu universo, digamos, indigesto. É outro, muito distinto, do desafio proposto em comparação aos touros ensangüentados da carnificina mostrada por Albert Serra em Tardes de Solidão. Aqui, estamos no ambiente dos adeptos da prática de perfuração, automutilação do corpo, como projeto artístico, mas sobretudo sentido de vida, inclusive com veios espirituais. Não é o mero piercing que se tornou moda juvenil, ou mesmo de adultos, como símbolo de provocação ou simples adorno. Ainda que piercing seja expressão utilizada, os homens e mulheres que o adotam vão além da conotação de imagem. Para eles, é um ritual para alem do limite físico, a dor como expugnação. O guru dessa turma e protagonista, ao menos nos Estados Unidos, é Fakir Musafar (1930-2018). Suas experiencias iniciadas na São Francisco na virada dos 1940 para 1950, quando ainda adolescente, inclui se mutilar com alfinetes e argolas, e ápice da prática, se pendurar em correntes há metros de altura do solo. O documentário não poupa os detalhes e excentricidades do movimento, que pode atrair eventuais interessados, mas se faz muito pela qualidade da abordagem.