41ªMostraSP/De Ruiz a Callado, mais dicas

Bons filmes, aqueles obrigatórios e outras dicas:

A Telenovela Errante — Viúva do mestre Raoul Ruiz (1941-2011) e parceira em muitas das produções do diretor chileno, Valeria Sarmiento se encarregou de terminar esse longa iniciado por ele em 1990. O pressuposto é tratar a realidade, ou melhor, a ficção como Ruiz entende seu país, a partir do modelo das telenovelas. Ou seja, jogo que permite imediata referência e reconhecimento a nós brasileiros. Os esquetes se sucedem como uma espécie de relatos fantásticos, surreais, para quem acredita que só nestes registros é possível interpretar as proezas amorais e a desfaçatez de uma nação em transe. Sofisticado, cínico, de humor negro exemplar, ainda que por vezes enigmático aos não chilenos, trata-se de retrato no geral aplicável a toda a América Latina. Ruiz, ao lado de Patrício Guzmán e Alejandro Jodorowsky, forma a tríade dos realizadores chilenos exilados que se beneficiaram da distância para um olhar implacável.

Ana, Meu Amor — A princípio, o novo filme do romeno Calin Peter Netzer parece não trazer o mesmo impacto de leitura política e social do ótimo longa anterior Instinto Materno. Mas na relação amorosa tumultuada de Toma e Ana se expõem aqui e ali sintomas atuais de uma sociedade que fez a passagem abrupta do comunismo para o capitalismo sob complexa revisão de valores e com os problemas consequentes, incluso corrupção e falta de ética. Exemplos da complexidade dos valores são as atitudes do jovem casal, de perfil liberal, intelectual em suas discussões de Nietsch, mas que para aplacar a crise conjugal e suas tragédias pessoais buscam simultaneamente a Igreja e o psicanalista. Toma carrega a sombra do suicídio do pai, Ana sofre de forte instabilidade mental e também chora o sumiço da figura paterna quando criança. Vivem seus traumas em meio a um amor também instável, em meio a cenas de sexo (ousadas, com nu frontal e ejaculação) que levariam o MBL a novos surtos coletivos.

Antes do Fim — Antes de tudo, um filme para celebrar dois ícones (de universos distintos) do cinema brasileiro, juntos em cena. O teórico e crítico Jean Claude Bernardet desvinculou-se da figura que  aprofundou nosso entendimento do cinema nacional para dar início, aos 80 anos, a carreira de ator. No passado, dialogou com muitos filmes estrelados por Helena Ignez e a convivência nem sempre foi das mais cordiais, como é contumaz no jeito brasileiro de acertar as contas. Por isso vê-los agora como improvável  casal torna tudo mais estimulante e delicioso nessa proposta de Cristiano Burlan, um dos diretores a reconstruir a persona Bernardet. Um tanto como ensaio, delírio brechtiano (afinal, o predileto de Helena) e irreverência à moda nouvelle vague, os atores representam a si mesmos no desejo de Jean de cometer suicídio e pedir ajuda a Helena,  inconformado com a longevidade prometida pela medicina.

Callado — Essencial sempre, mas na atualidade de um Brasil desfigurado é ainda mais obrigatório recuperar a figura do intelectual múltiplo e dedicado a uma resistência pela pena da escrita. Antônio Callado (1917-1987) escreveu em jornais, publicou romances e peças e se não foi ao front na luta contra a ditadura, nunca se esquivou de combatê-la de modo como podia, com a palavra. Difícil fazer caber tamanha personalidade em um único documentário e Emília Silveira, diretora de um cinema político (Setenta e Galeria F), nem tenta. Fez o seu recorte junto com Miguel Paiva no roteiro e nos dá um homem dividido entre opções ousadas na vida pessoal, tragédias familiares e o ofício amplo que não raro lhe acarretou problemas. A prisão em 1965, no chamado protesto dos Oito do Glória, foi quase acidental, momento inesperado que só enrijeceu suas convicções. Seu legado segue válido, como comprova o grupo de estudiosos, alguns bem jovens, que debatem as ideias de Callado. Contorna-se, ainda, a ingrata representação da literatura no cinema com o uso de expedientes de sobreposição de textos e imagens, ótima pesquisa de arquivo e depoimentos em off.

 

 

 

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41ªMostraSP/ Em The Square, cada um em seu quadrado

O sueco Ruben Ostlund fez leitura contundente das relações contemporâneas, do individualismo e da chamada civilidade em seu grau mais elevado em Força Maior. A princípio se refere a sua sociedade, ao homem escandinavo que representa a quintessência da conquista no mundo capitalista e (na aparência) liberal nos costumes.  Mas sabemos que a representação cabe também além fronteiras. Assisti a The Square, seu novo filme que levou a Palma de Ouro em Cannes, sem lembrar da referência ao longa anterior, também exibido na Mostra e lançado em circuito. Melhor assim. Se lembrasse, The Square me pareceria ainda mais titubeante. Diferente de Força Maior, deixa-se embalar por certa pretensão com conteúdo de crítica social que não convence

Há, como no longa anterior, o fato que dispara a trama. Lá, era o pai de família que foge para se proteger deixando mulher e filhos à mercê de uma avalanche. Agora, o protagonista é roubado quando se envolve num incidente na rua. Levam sua carteira, celular, abotoaduras de estimação… Ele consegue rastrear o ladrão e planeja artimanha para resgatar os pertences. Christian é homem requintado, curador de importante museu da cidade onde ocorrerá a mostra de arte que explica o título. A proposta do projeto sinaliza o que o personagem passa a viver. A realidade lá fora é diferente e ao colocar o plano em marcha toda a civilidade de fachada começa a desmoronar.

O problema que a reflexão de Ostlund ressoa um tanto óbvia, na relação entre uma das obras do museu que desinteressa tanto os visitantes quanto os moradores de rua aos pedestres, na performance do artista que se passa por macaco na noite de jantar da vernissage, ou na ideia de que tudo se desarticula quando diferentes mundos se cruzam. O jogo de aparências desta vez surge menos elaborado e a alternativa pela redenção o torna ainda menos eficaz.

41aMostraSP: Kiarostami, Martel, Peck, Varda…e outros filmes de montão

Não posso dizer que os filmes de Abbas Kiarostami e de Lucrecia Martel tenham me tirado do eixo, naquele sentido de impacto que as grandes obras produzem. Mas como são belos e elaborados em seu conceito formal! 24 Frames é o projeto póstumo do diretor iraniano, morto em julho de 2016. Difícil não crer em possível sintonia entre o homem, o artista doente, e seu testamento. Pode-se ressaltar certa melancolia mas também um humor suave dividido com o espectador nos 24 segmentos que se sucedem na tela. Kiarostami elegeu pinturas e fotografias que o marcaram para a partir daí criar e interferir nessas imagens, sempre em preto-e-branco. Há elementos comuns, a paisagem nevada, corvos e gaivotas, cavalos e animais selvagens como leões e cervos, vistos em exteriores ou através de janelas que lembram retábulos. Rara presença humana, em pessoas fixas numa foto enquanto outras caminham na calçada.

E basta. Sem narrativa, apreciamos as imagens como numa exposição de arte, somados a efeitos digitais imperceptíveis. Uma das poucas referências de pintura notórias é uma tela do flamengo Brueghel, Caçadores na Neve, que abre o filme, com pequenas interferências digitais. Outras, talvez, de Ansel Adams ou Thomas Struth. É um ensaio, que de certa maneira lembra Five, de mesmo expediente, mas sem igual elaboração. A repetição tem seu preço, não nos cativa sempre, mas fica na memória o deslumbramento das imagens. Que herança melhor um mestre como Kiarostami poderia nos legar? Seu filme é pura imagética.

Diversa da narrativa de Zama, que se não carrega uma marca da distinção do cinema da argentina Martel, também deve ser visto pelo apuro visual. Não que o drama de época não tenha sua força, uma resposta para o presente buscada no passado. Mas suspeito que poucos realizadores conseguem imprimir uma marca autoral  quando se voltam a revisões históricas de seus países. Por coincidência, o também argentino Lisandro Alonso se saiu melhor com Jauja, e isso, creio, tem muito a ver com o personagem estrangeiro que leva seu olhar e cultura a uma nova nação e ali se perde numa crise existencial. O protagonista de Martel, Diego de la Zama, é um funcionário da coroa espanhola metido em vilarejo na região do Rio da Prata. Quer retornar a Europa, a uma cidade qualquer ao menos, mais civilizada. A autoridade local maior o enrola, nega constantemente a transferência. Zama sai em busca de um revolucionário que luta contra os dominadores, não sabemos ao certo se real ou um mito, de nome brasileiro ou espanhol, interpretado no filme pelo nosso Matheus Nachtergaele. Martel não se preocupa com a veracidade dos fatos extraídos do livro de Antonio Di Benedetto. Está mais preocupada com a formação da América Latina, e esse é  um painel histórico, acredita, inerente a todos da região. Houve, ou não, um Zama, mas por certo existiram muitos iguais a ele. Se teve liberdade para trabalhar a história, poderia talvez ter inserido mais dramaticidade e conflitos em momento, que também sabemos, foi pleno deles.

É o que se pode refletir igualmente em O Jovem Karl Marx, em especial porque quem dirige é Raoul Peck, o haitiano que apresentou este e Eu Não Sou Seu Negro no Festival de Berlim em fevereiro. Neste documentário, toda a força e inventividade para falar da problemática do negro nos Estados Unidos, centrado no escritor e ativista James Baldwin. Já havia visto em Berlim a comportada biografia ficcional de juventude do autor do Manifesto Comunista. Entre interessado e frustrado, não conseguia entender como poderiam ser filmes do mesmo realizador. No entanto, uma boa aproximação é como Peck, negro, conduz o retrato da formação de Marx como quisesse desmistificar o homem que passou a história e apresentá-lo em seu cotidiano de limites, tanto financeiros como de possível ascensão numa sociedade de castas. Afinal, como é para os operários de fábrica a quem bradava as primeiras chamadas a uma consciência, a um levante. Talvez fosse mesmo inadequado tratar o período de que poucos sabemos, e vimos no cinema, com expedientes originais. Peck conta a história, e bem, enquadrada em elegante encenação. Dá o recado, portanto, de maneira elegante, o que já é muito para os dias atuais.

São conceitos de valoração que parecem perder um tanto do sentido quando se  tem uma diretora prestes a comemorar 90 anos como Agnès Varda, que nos traz, enfim, a originalidade e em formas e narrativas deliciosas. Visages, Villages nos leva a uma viagem com o objetivo que sempre marcou o cinema da franco-belga, coletar fatos, imagens, enfim, memória. Dessa vez, ela é acompanhada de jovem diretor e fotógrafo em projeto que escolhe personagens a esmo pelo interior da França para registrá-los e transformá-los em enormes cartazes em fachadas de locais públicos ou privados. Gente comum, fazendeiros, garçonetes, estivadores… como Varda sempre gostou. Faz com isso um painel da importância dos anônimos, da vida real, batalhada e batalhadora. Humor, cinismo brincalhão, marcam os diálogos entre os dois parceiros. Mas também uma genuína tristeza e decepção, quando Varda decide visitar na Suíça o amigo de nouvelle vague Jean-Luc Godard. O ermitão foi avisado da chegada, mas Varda dá com a cara na porta, e um bilhete escrito no vidro um tanto rude nas lembranças que nela evocam. Varda chora. O amigo foi além do limite, diz. Por que fazer essa crueldade? Tudo faz parte da memória, afinal, as alegrias e os desapontamentos. Grande Varda!

 

41ªMostra SP/ Weiwei, Redgrave e as viagens na terceira classe

A Mostra começou e mais uma vez a rotina se estabelece com a precariedade de sempre para nós, cinéfilos, críticos e quem mais quiser tentar dar conta do enorme cardápio. Todo ele seria impossível (ou talvez não, diriam alguns persistentes), mais certamente para aqueles que precisam parar, “refletir” vá lá, escrever um pouco. É o ofício. São mais de 400 filmes. Se o desafio é descobrir alguma pérola, também há a atração pelo que de certa forma já está estabelecido e por isso mesmo merece atenção. Como não querer assistir ao engajado e perseguido Ai Weiwei, o artista plástico e diretor chinês que como pouco faz jus atualmente ao Prêmio Humanidade que Renata Almeida, a dona da Mostra, lhe oferece? De cara, um imprevisto irônico para aquele que afronta a autoridade de seu país e vai de encontro ao que não deve, não pode, ser visto pelo mundo. Exilado em Berlim, ele foi proibido de embarcar por uma companhia americana, que alegou estar o visto brasileiro vencido. Houve garantias consulares de que não, tudo em ordem, e impasse desfeito, ele embarcou. Perdeu a abertura do evento, quando receberia o prêmio, mas na quinta de manhã, cansado, dava uma coletiva de imprensa como prometido.

Seu novo filme Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há para Onde Ir é um projeto de vida, diz o diretor. Em mais de duas horas, ele roda 23 países para registrar o fluxo de refugiados de fronteiras a outras, entre Europa, Ásia, no Oriente Médio e na América do México e dos Estados Unidos. Como a desses despojados, a sua viagem está longe de ser a da primeira classe de um cruzeiro, como sonha a jovem palestina que diz se sentir enjaulada entre os muros e arames farpados impostos por Israel. A pequena equipe, a câmera portátil permite a Weiwei estabelecer contatos, conversas, imagens mais diretas e íntimas do desespero da gente relegada, esquecida, em trânsito ou em campos improvisados. Sua fama de contestador de um regime é diferente daquela da atriz inglesa Vanessa Redgrave, mas seus objetivos nos respectivos filmes os mesmos. Diz muito dela querer, aos 80 anos, dirigir seu primeiro filme com foco nos expatriados.

Não todos de maneira geral, como faz Weiwei, mas com particular atenção às crianças que mal sobrevivem num  acampamento apelidado de “selva”, em Calais, costa da França. Seu olhar é atual junto com voluntários e representantes de órgão independentes de ajuda, mas ela também mira o passado ao lembrar como e quando se formatou a declaração universal de direitos humanos, apresentada por Eleanor Roosevelt durante assembléia da ONU em 1948. E como se caminhou depois até a garantia às crianças. Em paralelo, a atriz conta sua percepção dos acontecimentos pós-guerra, de menina ao choque de visitar “the jungle”. Como Weiwei, ela quis ver. E nós seguimos juntos nessa viagem da terceira classe.

A comodidade do olhar no CineCeará: um balanço da premiação

Ao ofício de júri nos festivais de cinema cabe proceder da maneira menos injusta possível, pois sob algum ponto de vista o será. É trabalho coletivo, afinal, sujeito a preceitos subjetivos, tanto de cada integrante como aos olhos da preferência de quem também assistiu aos filmes, o público. Estar ou não de acordo com o resultado aqui e ali faz parte do jogo. Mas o colegiado escalado para julgar os seis filmes da competição do 27a CineCeará parece ter incorrido num daqueles equívocos de difícil compreensão e que põe senão tudo, quase tudo a perder. Direto ao ponto: deixou-se, de uma só vez, de ressaltar a qualidade superior dos dois melhores projetos exibidos em função de outros problemáticos ou apenas dignos e de sintonizar esse reconhecimento com um debate muitíssimo atual. Verdade que o segundo aspecto não precisa, ou talvez nem deva, concorrer em páreo com a qualidade. Mas quando ambos se somam parece ser pouco razoável não defendê-los. Foi o que fez o grupo ao desvalorizar o concorrente chileno Uma Mulher Fantástica, relegando-o a categorias técnicas, e conceder o prêmio de fotografia e um outro Troféu Mucuripe pró-forma, ainda que indiscutível, a direção do cubano Fernando Pérez por Últimos Dias em Havana.

Começando por este “maestro” do cinema da ilha de Fidel, contexto que determina seus filmes. Pérez é um veterano e hoje grande nome da cinematografia cubana. Desde sempre traz a marca da análise crítica social e política sobre seu paradoxal país, complexo para entender, e que em verdade pouco entendemos. O realizador se esforça para tanto e vimos no Brasil alguns de seus filmes encantadores, tristes ou simbólicos da alegria irreverente daquele povo, como Suíte Havana e La Vida Es Silbar. Últimos Dias em Havana se encaixa no mesmo conceito crítico e registro de humor, ainda que trate de temas dramáticos como a aids e a determinação de um habanero sombrio e misterioso em querer ir-se, como se diz dos que não aceitam o regime comunista e a penúria na ilha.

Há, primeiramente, a capacidade de opor situações dolorosas de uma geração mais velha ao saber lidar e se virar do povo cubano. São eixos representados por Diego (Jorge Martínez), que padece dos males do HIV entrevado numa cama, e de seu amigo de longa data Miguel (Patrício Wood), dedicado a cuidar do dono da casa enquanto aguarda o visto para partir aos Estados Unidos. A esse núcleo de diferentes personalidades e destinos se contrapõe um terceiro, de intuito atual, moldado a partir dos jovens em torno de Diego, como um garoto de programa e de sua sobrinha, personagens determinados a ficar em Cuba e mudar sua realidade. Ou seja, o sintoma político também se estabelece pelas conotações geracionais e de pontos de vista opostos. Construída a narrativa, Pérez passa a costurar os conflitos ocorridos no interior do grande casarão em que habitam muitas famílias, saindo dele apenas para captar o necessário do que é a rua, microcosmo de um cotidiano tanto quanto rico de significados.

Parece operação simples, dado que o material humano e social do peculiar país está ali disponível em seus costumes tão irreverentes, notadamente mesmo folclóricos, de alegria contagiante, como se sabe. Mas Pérez sabe o quanto é perigoso atravessar a linha para a mera representação novelesca, estereotipada, e caminha nos limites do gênero, da comédia empática a um travo dramático, de que é exemplar a cena do táxi na chuva. Não enxergar essa poética que depende de vários fatores em sintonia, de ótimo elenco a roteiro e detalhes em cena mais expressivas do que os diálogos, é não se dar conta da conformação de um filme em sua totalidade para que resulte excepcional. Últimos dias em Havana é um desses casos e a quem queira comprovar o longa estréia no próximo dia 24.

Assim como revi o filme de Pérez, em projeção melhor que a do Festival de Berlim e comprovadora da bela fotografia de Raul Pérez Ureta, também fiz a revisão de Uma Mulher Fantástica. Já comentei em post anterior o quanto gosto do filme de Sebastián Lélio, o mesmo do ótimo Glória. Se na Berlinale fiquei desapontado que Daniela Vega, alma do filme, não levou o prêmio de melhor atriz, em Fortaleza a derrota parece ainda menos justificável. Diga-se da mostra alemã que o nível dos competidores tinha equilíbrio de qualidade e se pode compreender melhor as decisões do júri. Mas o que teria feito os jurados do CineCeará preterir a ”a atriz fantástica” a apenas correta Lola Amores, do também cubano Santa y Andrés?

São ambos primeiros trabalhos, mas a potência de Vega se sobressai muito além do apelo de ser ela mesma transexual que no filme enfrenta resistência e desrespeito da família do companheiro morto. Pode-se imaginar um dilema real no cotidiano da também cantora lírica e talvez a percepção de ser este um papel único, uma incógnita a princípio, tenha pesado na preferência. Bastidores após a premiação, no entanto, davam conta da resistência de alguns integrantes quanto a dificuldade de conceituar o talento de Vega nos parâmetros de gênero. Seria ela um ator ou uma atriz em cena? Ora, não é justamente esse o tema atualíssimo com que a sociedade, digamos, tradicional se embate?

O que Lélio nos oferece é a personalidade pronta e acabada na definição de gênero que Marina, a personagem, almeja ser, uma mulher. Em contraponto curioso, a Santa de Lola Amores se confirma titubeante na esfera da opção política, uma revolucionária que se deixa convencer depressa demais pelos argumentos do dissidente inimigo. O que no mínimo já serve para questionar o roteiro do diretor Carlos Lechuga, eleito pelo júri, em narrativa dedutível, sem sobressaltos ou camadas mais aprofundadas.

Houve quem entre críticos e público enxergasse em Ninguém Está Olhando propósitos além de um drama interessante, bem contado, com ambição a análise social e geracional. Independente do filme de Julia Solomonoff confirmar ou não tais predicados, em muito amenizados por uma acepção de telenovela, a escolha do júri parece se dever a uma habitual saída de consenso. Diante de dois fortes concorrentes suscetíveis a controvérsias, um de esfera política e outro quanto a sexualidade, preferiu-se uma terceira via mais cômoda. Mas júris, espera-se, não existem para acomodar o que já está em conformidade, aceito. Sobretudo os de crítica, de quem se espera um tom acima do olhar de convenção. Se tanto, uma escolha justa, embora dependente da valorização em outras categorias dos melhores filmes em competição, se refere a atuação do argentino Guillermo Pfening. Mas é pouco, muito pouco, para um colegiado que deixou a pulsão de seu tempo passar ao largo.

“Ninguém Está Olhando” vence CineCeará

Longa argentino, co-produção com Brasil e outros países, também rendeu Troféu Mucuripe de melhor ator a Guillermo Pfening, além de prêmio da crítica/Abraccine. Veja os premiados abaixo:

Troféu Mucuripe
Melhor Longa-metragem – Ninguém está olhando, de Julia Solomonoff
Melhor Direção – Últimos dias em Havana – Fernando Pérez
Melhor Fotografia – Últimos dias em Havana – Raúl Pérez Ureta
Melhor Montagem – Ninguém está olhando – Andrés Tamborino, Karen Sztanjberg e Pablo Barbieri.
Melhor Roteiro – Santa e Andrés – Carlos Lechuga
Melhor Som – Uma mulher fantástica – Isaac Moreno
Melhor Trilha Sonora – Uma mulher fantástica – Matthew Herbert
Melhor Direção de Arte – Malasartes e o Duelo com a Morte – Tulé Peake
Melhor Ator – Ninguém está olhando – Guillermo Pfening
Melhor Atriz – Santa e Andrés – Lola Amores
Prêmio da Crítica (Abraccine) – Ninguém está olhando, de Julia Solomonoff

Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem:
Troféu Mucuripe
Melhor Curta-metragem – Festejo Muito Pessoal, de Carlos Adriano
Melhor Direção – Valentina – Estevão Meneguzzo e André Félix.
Melhor Roteiro – Memórias do subsolo ou o homem que cavou até encontrar uma redoma, de Felipe Camilo.
Melhor Produção Cearense – Caleidoscópio, de Natal Portela
Prêmio da crítica (Abraccine) – Filó a fadinha Lésbica, de Sávio Leite

CineCeará: a competição segue com os “deslocados”

Há um sentido diverso mas complementar na sensação de deslocamento que une as personagens de três dos filmes da competição vistos até agora. A mulher fantástica de Sebastián Lélio é o transexual tratado como aberração pela família dita convencional de seu companheiro, que morre subitamente. Ali é um pária e só se encontra quando retorna ao meio mais liberal da noite. São outros os deslocamentos, sociais e políticos de maneira geral,  dos protagonistas de Ninguém Está Olhando e Santa e Andrés.

O primeiro é uma co-produção Brasil e Argentina, dirigida pela cineasta argentina Julia Solomonoff. Sua proposta é a de um drama de eventuais toques de humor simpático. O suficiente para não carregar demais nas tintas da vida de Nico (Guillermo Pfening), ator de sucesso nas telenovelas portenhas que migra para Nova York em função de uma crise amorosa com o parceiro, produtor de seu projeto atual. Mas Nico busca também a sorte no cinema americano e mesmo internacional, o que sua estampa mais européia do que latina se mostra apenas um dos obstáculos. Entre um teste e outro, ou um projeto cancelado, ele é obrigado a trabalhar de baby sitter para uma amiga argentina, de garçon e mesmo viver de expedientes menos legais.

A essa altura pode-se imaginar um contexto de algum estereótipo, do melodrama que afinal está presente no pano de fundo da trama, e a diretora não o nega. Pelo contrário, opta assumidamente pelo recurso de folhetim de TV, para em contraponto desconstruí-lo pelo próprio ambiente em que Nico sobrevive. Assim, a conversa com as babás latinas na praça que frequenta com o bebê tem seu reverso na mãe americana que o aborda pedindo que cuide de seu filho pequeno, criado apenas entre mulheres. Ou ainda quando uma poderosa produtora local pede que abandone seu tipo loiro e pinte os cabelos de preto. Bem verdade que nem sempre esse entorno de  clichês naturais a experiência de um imigrante, e fiquemos nos latinos aqui, que aspira a conquista no dito primeiro mundo é plenamente justificado.

Mas a diretora assume e defende seu ponto de vista ao esclarecer que gosta do melodrama e isso justamente integra o universo dos que partem a uma nação nem sempre solidária e generosa aos estrangeiros. Melhor que o dilema e as angústias de Nico são bem trabalhadas no plano dramático pessoal, adicionando contrastes entre o medo do fracasso, o limite para a submissão a um projeto de vida e por fim o desejo de retornar ao que já conhece. É deslocamento social, geográfico e sobretudo afetivo e de raízes, fardo nada fácil.

Se Nico de alguma maneira escolheu o desterro como saída a novos desafios, é de outra ordem o deslocamento forçado de Andrés (Eduardo Martínez) no filme do cubano Carlos Lechuga, Santa e Andrés. Escritor homossexual preso e perseguido pela revolução de Fidel, ele vive penosamente num casebre em povoado no centro do país. Traidor, dissidente portanto aos olhos dos apoiadores do comandante en jefe nos anos 80, momento de grande radicalismo. Precisa ser vigiado porque não querem que escreva e, principalmente, fale contra o regime, como já fez. Nos dias em que ocorre um fórum mundial, a encarregada do ofício é Santa (Lola Amores), que leva sua cadeira diariamente para a porta de Andrés e o vigia. Conhece seus hábitos, inclusive os favores sexuais de um jovem local, e passa a mudar a percepção a ponto de questionar sua crença. Esta é a narrativa no geral, e talvez um dos aspectos pouco estimulantes é que o drama não ousa além das expectativas logo confirmadas. Um ou outro recurso simbólico quebra o registro realista, como o ser fantasiado que surge em certo momento, retirado das lendas locais, e representante da esperança. Ou ainda a conotação de estabilidade dada pela cadeira de Santa e com reflexo em outras, significativo de um fardo que se carrega.

Há uma sensação de constância que não desorienta mas também não beneficia o filme, que por vezes se detém demais ou se entrega rápido a mudanças, como no questionamento de Santa de seu credo. Ainda sim, o filme provocou celeuma. Foi censurado e não poderá ser visto pelos cubanos. Como aqui, faz carreira em festivais e ganhou o prêmio principal em Guadalajara.

Por certo um sintoma nessa edição do CineCeará não passou despercebido. A temática gay predomina e já há piadas de um Mix Ceará e a necessidade de cotas para heterossexuais. Brincadeiras à parte, o evento se mostra vitrine diversificada e sintonizado com seu tempo.

 

As velhas artes (agora digitais) de Pedro Malasartes

Fiquei de desenvolver um pouco mais a discussão sobre o filme de Paulo Morelli a que me referi brevemente no post anterior. O filme é Malasartes  e o Duelo com a Morte. A personagem de tradição da cultura caipira brasileira anda fora de moda mas quem tiver mais de 40 anos por certo tem referências de ouvir falar, ou de ouvir contar, já que no interior do Brasil era figura presente nos causos e histórias passadas de pai para filho. Todos sabem que Malasartes vive de expedientes e  de sua esperteza em enganar os outros, nem sempre conseguindo manter os benefícios para si. Conquista, mas em seguida perde o ganho, num ciclo interminável. Dito assim, poderia se pensar em um retrato hoje ingênuo demais para ser trabalhado pelo cinema.

Em parte é verdade. Morelli, talvez consciente disso em um projeto sobre o qual se debruçou por mais de uma década, fez da passagem do tempo e por outros projetos um aliado e investiu num atrativo que é quase recurso obrigatório em filmes que reinventam personagens e temas do passado. Buscou nos efeitos digitais um instrumento a mais de linguagem para atrair novos públicos. E aqui chegamos as duas vertentes que quero discutir no filme e que parece sintonizar com os colegas presentes no debate matinal no CineCeará. Se os recursos digitais, e eles claro são notáveis por se tratar de produção da O2, acrescentam diferenciais significativos ao contexto e podem interessar a novas gerações, e quem seria esse público atual? Ou se talvez tornam-se um espetáculo em si, de demonstração pura de tecnologia, sem fundamentar mais a trama, colaborar com ela.

Morelli garante que não tem fetiche pelos recursos da computação gráfica e pensou sempre que a trama antes deve se servir dela e não o contrário. Um equilíbrio complexo, talvez, delicado, que me pareceu resumido a grosso modo entre as duas angulações da história. No ambiente real da trama, ou seja o rural, quase nada de efeito. Uma ou outra aparição da morte, encarnada por Julio Andrade. Ali se vale do velho ofício dos atores, todos em sintonia, como Isis Valverde,  Augusto Madeira e Milhem Cortaz, para fazer valer o tom de fantasia romäntica e ingênua. Em outro, digamos, submundo,  a representação se dá  graficamente em vale sombrio permeado de velas separando o dono das mortes das parcas, ou moiras, as três entidades femininas tecelãs que determinam os destinos humanos pelos fios que tecem. Aqui a tecnologia corre solta, possibilitando um fundo de fantasia para os atores e atrizes (Vera Holtz entre elas) trabalharem.

Pelo contraste entre ambos os cenários, a ambientação em digital me pareceu excessiva, um tanto carregada, o que acaba por contaminar o filme como um todo. Saudosismo talvez de certa tendência de recuperação pelo cinema de um mundo ingênuo do Brasil que se esboça modesta, mas valente, como na recente adaptação de Meu Pé de Laranja Lima. Neste se vale apenas da atuação e do universo realista de obra de referência da literatura infantil e se prova que dá certo. Malasartes, o filme, tem mais fatores positivos do que equívocos, se é que se pode chamar assim uma aposta maior na tecnologia do que no fator humano. Não se conhece ainda que  público comprará e como  reagirá a aposta nas salas a partir desta quinta, quando o filme estrear. Mas na sessão em Fortaleza, nem a tecnologia nem a presença em carne e osso de ótima performance como protagonista de Jesuíta Barbosa segurou jovens na faixa dos 20 anos que abandonaram a projeção. Ou preferiram se dedicar na sala outra tecnologia, esta incômoda, do chat nos celulares.

CineCeará: entre a questão de gênero e o cinema de tradição

 

Começou muito bem, e promete repetir a qualidade das duas últimas edições, o 27o Cine Ceará – Festival Ibero Americano de Cinema. Como estratégia para honrar seu modelo que congrega os países de língua hispânica, o evento costuma todo ano homenagear um país amigo. Desta vez é o Chile, e de certo modo a abertura no sábado reiterou a do ano passado, quando Pablo Larraín apresentou seu impactante O Clube. Dessa vez é outro tipo de impacto e os irmãos Larraín, Juan de Díos como o produtor habitual de seus filmes, assinam a produção. Já havia visto Uma Mulher Fantástica na Berlinale, de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro, e gostado muito. Rever o filme de Sebastian Lélio sobre transexual que perde o companheiro subitamente e enfrenta a raiva da família dele trouxe boas e novas perspectivas. O filme não seria o que é sem Daniela Vega, trans na vida real e dona de visual e voz (lírica!) potente.

Vocês conhecem Lélio do também ótimo Glória. A mulher madura um dia reprimida que reconstrói sua vida pela via profissional e amorosa como amante de um homem casado é um reflexo direto da mãe do diretor. Ele reflete sobre a geração que teve seu destino suspenso pela truculenta ditadura de Pinochet. Sabe escolher suas atrizes, e Paulina García levou prêmio na categoria no Festival de Berlim há quatro anos. Agora, com a personagem Marina Vidal, antes Daniel, Lélio fala de questão da hora de seu tempo, de sua geração, seja no Chile, Brasil seja em qualquer outra nação latina conservadora, talvez católica, de valores arraigados de família. Lélio não veio a Fortaleza. Está terminando sua primeira produção americana que não desmente a obsessão pelas personagens femininas, com Rachel McAdams e Rachel Weisz como protagonistas.

Em seu lugar veio a montadora Maria Soledad, que falou com extrema afinidade sobre a parceria com Lélio. “Mais do que uma recente trilogia da sociedade chilena, creio que é a mulher que interessa a Lélio”, me respondeu sobre seus recentes filmes. E essas mulheres surgem frágeis e inseguras na aparência mas adquirem controle da situação. Como Glória, que munida de um pin ball vai a forra, Marina usa sua porção masculina para exigir uma última recordação de Orlando. Mais do que as cenas de catarse, o realizador exibe sensibilidade para cenas delicadas, como aquela em que Marina encobre o sexo (ambas, atriz e personagem não optaram pela operação) com um espelho e se mira nele. Um belo filme que poderá ser visto a partir do dia 17 em circuito.

Corpo Elétrico

Não foi por acaso que a Associação Cearense de Críticos de Cinema, Accecine, organizou uma sessão paralela ao festival do longa de estréia de Marcelo Caetano. Corpo Elétrico é o do jovem gay Elias (Kêlner Macedo), mas também o de todos a sua volta, entre colegas de trabalho e do universo gay em que transita. Na verdade, podemos entender a eletricidade no caso como simbólica e inerente a pulsão sexual natural e em boa parte oposta ao um imaginário de romantismo. Elias é um estilista que em seus 20 e poucos anos dá os primeiros passos no ofício como assistente em pequena confecção no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. É volátil com parceiros, enquanto mantém uma relação para o sexo com antigo namorado e flerta com um segurança e quem mais vier.
E quem vem um dia na oficina é um imigrante africano por quem se apaixona e de quem tenta se aproximar. Há esse quadro, digamos, intimista, pessoal, mas o que conta para Caetano, com curtas-metragens ligados ao universo homoerótico, é mais o quadro ampliado de seres em busca de seus desejos, sejam o físico ou mais aprofundados sejam os profissionais, em crítica bastante reconhecível da exploração capitalista, no caso do pequeno capital.

É nessa vertente que o jovem diretor se sai melhor. Impressiona que este mineiro baseado na capital paulista nos dê o esboço de uma metrópole especifica a um estrato social que a classe média e a alta desprezam e não mais enxergam e convivem. Tanto o de homens e mulheres heteros que são vistos na região central ou periférica da cidade, como dos gays, que tocam suas vidas de transformistas em um mundo próprio, independentes da aceitação ou rejeição do entorno. Poucas vezes esse universo surge com tanta naturalidade e expressão como aqui, e por isso mesmo me ressenti de diálogos mais elaborados, em especial porque há ótimos parceiros com Caetano no roteiro, como Hilton Lacerda.

Ainda queria dar conta neste post de outra vertente que nos chegou aqui ontem à noite com o novo filme de Paulo Morelli, Malasartes e o Duelo com a Morte. Filme de grande produção para os padrões nacionais, com direito a uso, em alguns momentos excessivos mas não totalmente incômodo, para dar conta desse esquecido herói cômico da esperteza caipira. A quem se destina o filme é uma questão, a ser desvendada logo mais quinta-feira, quando chega a 250 salas. Mas uma coisa é certa: o cearense-pernambucano Jesuíta Barbosa encanta no tipo de tradição circense, de João Grilo ou Jeca Tatu, e merece ser visto por qualquer público. Tenho que sair para a sessão noturna agora e depois conto mais da conversa durante debate sobre o filme.

Agora, o olhar da preservação

Parti de Curitiba, onde acompanhei a sexta edição do Olhar de Cinema, e já estou em outra mostra, a Cine OP, ou Mostra de Cinema de Ouro Preto. Uma viagem no tempo e no espaço, não apenas geográfico. Mas só em termos. Da sempre estimulante vitrine curitibana dirigida por Aly Muritiba e Antonio Júnior mal tive tempo de postar alguma coisa. Destaco, de cara, a ótima retrospectiva de Murnau (não completa, pois há filmes perdidos e outros de difícil recuperação para o DCP) sob curadoria do simpático Aaron Cutler, com os títulos consagrados como A Última Gargalhada e Aurora, mas também menos conhecidos, para mim nunca vistos mesmo, como Fantasma e Tartufo. Essa breve informação para introduzir o tema da memória, de um passado que por vezes pode ser tão mais vigoroso que a produção atual, ao qual  afinal se dedica o Cine OP. Se a Mostra de Tiradentes é voltada ao novíssimo  e o Cine BH ao mercado,  co-produções e laboratórios, o terceiro braço da iniciativa das irmãs Hallak alcança a seríssima questão da preservação de nosso cinema.

É o assunto dia e noite aqui, com seminários e encontros sucessivos e exibições de curtas e longas raros, restaurados ou não, no charmoso Cine Vila Rica. Também há a produção recente exibida ao ar livre na Praça Tiradentes, que a noite volta a ser do povo, local e de fora, para prestigiar muitas vezes sob frio de 10 graus. A abertura na sala fechada e lotada anteontem não poderia contar com figura mais emblemática do assunto. Na tela, o documentário Desarquivando Alice Gonzaga procurava dar conta da filha do pioneiro Adhemar Gonzaga, cineasta, produtor e idealizador da Cinédia, fundada por ele nos anos 30. Falo em tentativa, porque essa personagem parece quase indomável por um único retrato, ainda que a diretora Betse de Paula faça um trabalho mais que competente. Com sua mão para comédias, Betse sabe da força e pulsão de sua protagonista e a deixa a vontade, realçando justamente o humor e a fala desenfreada, no contar de piadas e casos de tudo que Alice viu e ouviu no cinema brasileiro.

E não foi pouco. Alice tem um pique e tanto para seus 82 anos e diz que com 6 já estava remexendo nas coisas “de papai ” . Tornou-se uma arquivista obsessiva e nos galpões da Cinédia figura até hoje boa parte da memória do cinema nacional e algo de Hollywood e cinema europeu. Nas conversas muito informais, não poupa a própria família nas questões mais complicadas que os clãs costumam ter. Sua mãe, por exemplo, era uma beldade que queria ser atriz e foi lançada por Gonzaga. Logo se casaram, sob os protestos da mãe do diretor, que acabou por podar a carreira da nora. Sobre o cinema, fala de muitos, Humberto Mauro, Grande Otello, as irmãs Aurora e Carmen Miranda… Sobre Mário Peixoto, revela que o pai acreditava ser o fotógrafo Edgard Brasil a alma e o autor de Limite. Alice, figura carimbada nos círculos de festivais e meio cinematográfico tem fama de controversa, mandona. Até isso assume, pois nasceu e cresceu com bom lastro financeiro, e afinal, podendo mandar.