Tinha muita curiosidade de conhecer o Festival de San Sebastián pela natural predominância dos filmes de origem espanhola, e de modo mais abrangente, ibero-americana. Por decorrência, há muitas produções latino-americanas. Isso, claro, inclui o Brasil, que nesta 74a edição concorre na seção principal com ‘Vicentina Pede Desculpas”, do mineiro Gabriel Martins (‘Marte Um’). Cá estou depois da cobertura de Veneza, este ano mais próximo no calendário, com uma semana apenas de distância. Uns dias em Bilbao para conhecer o impressionante Guggenhein, e pronto, de volta às telas!
A largada oficial foi ontem à noite com a gala em homenagem a Werner Herzog, um dos eleitos para receber o Prêmio Donostia, junto com a atriz Naomi Watts. Um parêntese para explicar o nome do prêmio. Trata-se da versão basca do batismo da cidade, na região conhecida pela sua antiga luta de independência da Espanha, assim como a Catalunha. Se comparada, essa vontade por aqui já arrefeceu, e uma minoria no País Basco fala a língua euskera, embora ela ainda esteja presente em todas as indicações oficiais, no comércio e nas solenidades, como a de ontem, com tradução simultânea.
De volta à abertura. Enquanto a fachada do Kursaal, o palácio do festival, exibia o luminoso Free Palestina, Herzog fez seu discurso de agradecimento conclamando a todos a pensar para onde e para qual destino a humanidade está caminhando. O diretor alemão recebe a merecida homenagem pela carreira, mas não em um dos melhores momentos dela, com um filme muito decepcionante. Bucking Fastard estreou em Veneza e já escrevi sobre essa extravagância bem estranha em sua produção. De todo modo, há sempre de se reverenciar esse mestre.
Curioso que o filme não tenha sido o escolhido para a noite, e sim o novo do turco-alemão Fatih Akin, ja valendo a competição. ‘Ghost Song’ pode até ter o apelo para uma abertura, mas me confirmou que há muito o diretor perdeu a mão. Não venham com Uma Infância Alemã, em cartaz recentemente no Brasil, bom drama sobre uma passagem da vida de Hart Böhm quando garoto durante o nazismo. O filme seria dirigido por Böhm, também cineasta, mas ele morreu antes de poder filmar o próprio roteiro. Fatih Akin assumiu então a tarefa.Ele pode até ter algum crédito ali pelo resultado, mas não é um projeto de totalidade criativa.
O fato é que ‘Ghost Song’ se soma a uma trajetória diversificada, o que não é um problema em si, mas também errática. Akin envereda aqui pela fantasia sobrenatural e o fantasma do título não é metafórico. Dois secundaristas, filhos de imigrantes, se conhecem na festa de sua formatura e vivem uma paixão à primeira vista. O rapaz oferece à garota uma carona para casa, convite impulsionado pela amiga dela que se embebedou, e um colega dele que se mete na viagem. No caminho, o carro se desgoverna numa ponte em obras e cai na água. Três sobrevivem, menos a musa do rapaz, que a partir dali passa a sonhar e ver a garota todo o tempo.
Por um aspecto, poderia se tomar o filme, todo realizado em preto-e-branco, como uma fábula juvenil sem maiores pretensões. Há mesmo um quê de ‘Ghost’, o sucesso dos anos 90, na obsessão do amor não mais possível de ser concretizado. Mas Akin propõe ir mais fundo, além do fantástico, e embola a trama que não se sustenta nem como adulta nem para uma fatia mais jovem, por ingênua demais.
Universo desconhecido e duro
Já no destaque desta manhã na competição, Brace Your Heart também apresenta uma jovem adulta em dilema bem mais desafiador do que o casal idealizado por Akin. Mas demora um pouco para compreendermos a protagonista em seus não mais que 20 anos dado às circunstâncias e exigências de sua vida. Ainda, a atriz tem um tipo particular que não se enquadra no perfil a sua volta, rosto quase infantil, estatura baixa, e sempre vestida para um frio de rachar.
Isso porque o drama se passa na Lapônia, entre o povo originário sámi, num vilarejo remoto sueco. O meio de vida naquele inverno rigoroso vem dos rebanhos de renas, que precisam ser mantidos presos, trabalho duro reservado aos homens. Mas Eva, a protagonista, acaba de perder o pai e herda a tarefa. A comunidade, os homens, não aceita e ela conta apenas com o apoio da família. A garota se impõe ao grupo liderado por um tipo com quem tem um caso sem grandes pretensões. Tudo fica mais complicado quando ela falha e também conhece um rapaz mais atraente. Gostei do filme da diretora Amanda Kernell, de origem sámi, um daqueles drama que já vimos em outras paragens e cinematografias, mas que aqui ganha particularidades significativas. Seria bom que fosse a algum festival brasileiro ou mesmo comprado.