A 83a edição do Festival de Veneza teve início ontem no Lido, a ilha em frente ao centro histórico, com um calor abafado de 30 graus e filmes independentes de língua inglesa subindo a expectativa do que virá na competição até dia 11. São vinte títulos concorrentes e o Brasil só surge numa co-produção com Argentina, o drama Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis. Vocês lembrarão do diretor por ‘Garagem Olimpo’ , um mergulho no pesadelo da tortura durante o regime militar argentino e que o filme atual retoma, e ‘Terra Vermelha’, rodado no Brasil. Passa no último dia da competição. Na paralela da Semana da Critica, outro filme brasileiro, London, dos gaúchos Márcio Picoli e Victor Marco.
Do que se pode dizer desses dois primeiros dias, é que a habitual preferência de Veneza pelo apelo das estrelas e produções em língua inglesa, em especial Estados Unidos, dessa vez funcionou. Mesmo George Clooney, que vem ao Lido um ano sim, outro também, dá as caras como o homenageado da edição. Quanto aos filmes, dois agradaram bastante por aqui, ‘Ink’, de Danny Boyle , e “Wild Horse Nine’, de Martin McDonagh. O desafino ficou por conta do alemão Werner Herzog e seu excêntrico ‘Bucking Fastard’, assim mesmo num trocadilho, que só poderia ser realizado na cultura, no sotaque e com as peculiaridades dos britânicos.
Ou para ser mais preciso, dos irlandeses, origem e universo de suas protagonistas, irmãs com pequena diferença de idade mas que se portam como gêmeas. Cabelo e vestimenta sempre iguais, elas tem o estranho habito de falar juntas, em sincronia. Na tela, são interpretadas por Rooney e Kate Mara, irmãs na vida real e caracterizadas para o desafio. Inclusive o de falar ao mesmo tempo, um atributo sem dúvida elogiável. Acontece que as irmãs existem, são Greta e Freda Chaplin, ai sim, gêmeas, e nos anos 80 elas protagonizaram um apetitoso escândalo para os tabloides ingleses, quando foram aos tribunais acusar um homem com quem haviam, as duas reforce-se , se envolvido. É o inicio do filme de Herzog, com Orlando Bloom no papel do acusado, até ai instigante. Os problemas começam depois, numa fantasia original que não chega a lugar nenhum.
Na verdade, chega em uma montanha envolvida em uma lenda sobre túnel que supostamente leva a uma ilha da costa irlandesa. Desiludidas após saberem do casamento eminente do tal conquistador, elas são acolhidas por uma tia em vilarejo remoto, onde ficam conhecendo a história e passam a cavar para chegar ao que acreditam ser o paraíso para o amor. Além de poucos momentos de um humor lugubre, difícil imaginar o que levou Herzog a elaborar tal extravagancia, embora na fonte a historia poderia render boa trama e ganhar complexidade.
Sensacionalismo
Muito provavelmente a imprensa de que fala “Ink” (tinta), de Boyle, deitou e rolou no caso das Chaplin. Mais especificamente o famoso ‘The Sun”, objeto da ficção que reconta a criação pelo hoje magnata australiano Rupert Murdoch do tabloide que quase dava traço de leitura no Reino Unido e se tornou a maior circulação do mundo nos anos 80 e 90, segundo o filme. Começa com Murdoch (Guy Pearce) na negociação para convencer um editor-chefe do Daily Mirror (Jack O’Connell) a assumir a direção do The Sun, que acaba de comprar. Proposta milionária aceita, tem inicio os embates para conquistar os leitores, sempre no pique acelerado e um tanto aflitivo que é a marca de Boyle desde ao menos ‘Trainspotting’.
Do bastidor de como buscar as noticias sensacionalistas e ultrapassar os concorrentes, o filme dá uma reviravolta que quase leva a um thriller. É quando a mulher de um sócio mais velho de Murdoch, e espécie de figura paternal, sofre um sequestro em troca de resgate. A criatura, então, se revela pior que o criador, ou seja, Murdoch criou um monstro na direção de seu jornal, e este decide publicizar o caso com detalhes. Todos sabemos onde o império de Murdoch foi dar, e o exemplo maior é a rede de direita Fox News. Boyle não por acaso fez o filme em momento de debates sobre a informação confiável, as fake news e mais recente ainda, a IA. É um drama empolgante e atual, confirmado pela figura de Trump ao final.
E os golpes, sempre atuais
Também bastante bem recebido, merecidamente, o novo longa do irlandês Martin McDonagh, de ‘Três Anúncios para um Crime’. ‘Wild Horse Nine’ retorna ao golpe do Chile em 1973 para nos lembrar que os Estados Unidos sempre estão por aí prontos a invadir o quintal alheio. Nesse caso, é questão de semanas o ataque ao La Moneda para matar o presidente Salvador Allende, candidato da esquerda eleito democraticamente. Mas democracia não interessa aos dois agentes da CIA que já estão alocados em Santiago em tratativa com os militares, em especial aquele interpretado por John Malkovich, desde já grande nome para o Colpa Volpi de melhor ator e por certo na cotação do Oscar.
Ele e seu parceiro (Sam Rockwell) decidem partir para a Ilha de Páscoa. O motivo é que a personagem de Malkovich está com câncer, sabe que vai morrer, e pede para o colega levá-lo ao local dos totens Moai como último desejo. Mais, ali ele deve mata-lo, segundo um código acertado pelos dois. Só que as coisas não são simples, o doente também está perdendo a memória, fala o que não deve a estranhas, é irascível e sarcástico, deixando maluco o parceiro e o chefe da CIA (Steve Buscemi, ótimo também). Aqui temos a simbiose perfeita entre atuações, direção e roteiro, também de McDonagh, naquele humor cínico muito próximo dos irmãos Coen, mas mais sofisticado. Diálogos valem mais que tiros, e sem deixar de divertir, o diretor nos lembra que os golpes seguem nos cercando. Apenas que não se dão mais com caças atirando em palácios presidenciais.