A sintonia e a emergência na tela do Cine Brasília

A primeira reação logo no início de Luna, longa do mineiro Cris Azzi, é comparativa. O fato dramático explorado nos remete de imediato a Ferrugem, recente filme de Aly Muritiba em cartaz. Uma imagem comprometedora, ao menos para os padrões sensacionalistas das redes sociais, vaza na internet e leva a adolescente Luana a um ato condoído, de desespero. Vítima como sua colega de mesma idade de Ferrugem, ela busca justamente a ferramenta virtual para tentar dar conta, refletir, sobre o bullying que sofre. Uma contradição, a princípio, pode-se dizer, mas trabalhar o antídoto ao mal doentio na esfera em que este foi gerado faz sentido. A trama então assume o flashback para mostrar o desenrolar da situação até  ali e ‘e nos diversos elementos do cotidiano de Luana que o filme se difere do outro, mais fechado na protagonista.

Como confirma Azzi, Luna (a aproximação de título e nome da personagem se justifica na trama) realiza no filme o seu rito de passagem de uma ingênua vida adolescente para o primeiro passo da vida a adulta. O bullying ‘é uma das descobertas das novas relações que comandam tal universo. Há outros. A mãe operária, embora presente e carinhosa, nem sempre poderá resolver os problemas que surgem. Luana passa a ter suas próprias experiencias fora da casa materna, onde o pai não existe, e dos muros da escola. Uma nova colega, aparentemente mais resolvida e ousada, a leva a novos conhecimentos. O sexo entre garotas ‘e um deles. Cabe na esfera da experimentação, assim como bebidas, festas e por ai vai…

Um ou outro exagero ao tentar dar conta de muitas questões, como a pedofilia, ainda que sugerida, não compromete o todo. Azzi revela ter bom domínio do formato leve e ágil que deseja, e por vezes um tom abrupto surge natural a uma idade em que se caminha aos solavancos. Em especial, buscou dar um conceito genuíno e sofisticado aos espaços com a ajuda do craque da fotografia Luis Abramo, em que a casa inacabada de Luna na periferia tem a mesma plasticidade que a mansão descolada de sua amiga, ou que um terreno baldio e as serras ao longe. Quase sempre o filme nos aproxima e nos faz simpatizar com os dramas da protagonista e talvez por isso o final um tanto celebratorio poderia sintonizar melhor com a contenção de Luana. Mas a julgar pela receptividade da platéia e da troca de ideias no debate no dia seguinte, a proposta pegou.

Na estrada — Já o documentário  Bloqueio é o filme urgente por excelência do festival. Assim são  caracterizados os projetos realizados na cola da realidade, sem tantas pretensões de linguagem, estéticas e, em especial, de reflexão. No caso, trata-se da greve dos caminhoneiros. A equipe se colocou em vários locais de bloqueio desses profissionais tão maltratados pela profissão ingrata e ainda por cima pelos governos. Na exigência do momento, transparece na tela todas as contradições da categoria, como o voto declarado naquele candidato a presidência iniciado pela letra B e a defesa da volta dos militares. Também transparecem as opções boas e nem tanto dos realizadores, mas o fato é que está tudo lá. É o que importa.

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As mazelas sociais, políticas e individuais do País (e mundiais)

O Fest Brasília prossegue na chave curatorial em sintonia com uma pauta do momento, e por tabela do mundo, o que determina certa produção nacional. A dúvida é se a confluência de temas ligados à revisão politica, ao cenário social de radicalismos, racismo, a gênero etc, pode ser um limitador a qualidade de filmes que não comunguem com esse objetivo, ficando assim de fora da seleção. Ainda que nada desprezíveis,  os document’arios e as ficções exibidas até agora são projetos irregulares.

Los Silencios — O longa de Beatriz Seigner leva título hispânico porque se passa na tríplice fronteira Brasil, Colombia e Peru. Trata do “desplaziamento”, do deslocamento forçado de pessoas em função de alguma tragédia humanitária. No caso, uma colombiana busca asilo no Brasil com seus filhos, fugindo da guerra civil. Deixou para trás o corpo do marido, abatido no conflito, mas de quem não se encontra os restos. Se era difícil lá, numa comunidade de palafitas não é mais fácil. Há certa resistência da liderança local a receber imigrantes. Em paralelo a realidade a diretora cria uma aura fantástica em que os vivos convivem com os mortos, a maneira dos filmes de Apichatpong. Ela assume suas referências, como também a de Brillante Mendoza, mais especificamente do longa do filipino, Lola. Tem se tornado uma pecha negativa afirmar que tal filme é feito para festivais (leia-se na maioria aos internacionais) e seria injusto considerar este um caso, ao menos no todo. Pois Beatriz construiu um bom drama, talvez ainda distante de muitos brasileiros num país de dimensões continentais como o nosso, aos poucos “despertado” pelo drama dos venezuelanos. Apenas que me parece desnecessário trabalhar em registros tão marcantes de realizadores. Ainda sim, o filme tem sua força, bom elenco, em destaque o infantil.

New Life S/A — Não, não se trata desta vez de uma co-produção americana, nem o filme de Andre Cavalheira se passa no exterior. Se Brasília se mostra tao peculiar entre as cidades brasileiras, para o bem e para o mal, conforme capta muito bem os filmes de Adirley Queirós, a trama que o diretor nela articula é um padrão nacional. Começa pelo desprezo que certa elite financeira tem pela coisa pública e naqueles que tentam nela sobreviver. O novo empreendimento imobiliário de alto padrão que justifica o título ocupa um terreno em área protegida por lei, mas o que incomoda o construtor é a comunidade miserável e seus barracos logo ao lado. Por consequência aciona-se o dispositivo da corrupção e a engrenagem que dela depende, de candidatos à eleição a uma promotora. Nem tão natural, mas parece que hoje em dia razoável, ha também o gosto pelas armas que seduz a todos dessa roda, numa  introdução do tema que me parece um tanto abrupta e sem justificativa a não ser disparar (sem trocadilhos) o conflito final. Figura um tanto apática e minimamente reflexiva do entorno amoral, o genro do empreendedor, o arquiteto, será o aglutinador das questões em jogo, incluindo a condição insatisfeita dos operários com salários atrasados, o mal estar com uma encenação artificial de atores no estande de vendas, contraponto a sua própria família, em tese, perfeita. Tanto apoio na realidade paga seu preço e o filme tende a um realismo que lhe da aspecto justamente contrário. Talvez seja melhor, quando se trata de Brasil, de Brasilia, de São Paulo, do Rio… trabalhar na vertente fantástica que Adirley enxergou como a mais simbólica de um país que, como se citou na coletiva, é em sua essência surreal.

 

Todos de pé para aplaudir as “donzelas”em noite consagradora do Festival de Brasília

Dois dias apenas de festival, a primeira noite de competição, e dificilmente  Brasília terá nesta 51a edição e em outras antes e depois a consagração de publico testemunhada ontem com Torre das Donzelas. Recepção esta, diga-se, de forte tom — e contexto — emocional que marca o documentário, nossos dias, e sobretudo pela presença no palco e na tela das “donzelas”. E quem são elas, definidas por uma alcunha hoje percebida como tão machista? Entre os anos 1964 e 1972, portanto no período da ditadura militar, militantes presas em São Paulo eram encaminhadas ao presídio Tiradentes, na avenida central de mesmo nome. Algumas se tornariam famosas depois em seus ofícios. Uma foi presidenta, defenestrada em outro golpe. Dilma Rousseff passou perto de três anos no prédio, que somado a juventude das presas, em sua maioria na média de 20 anos, algumas mais novas, outras mais velhas , deu origem ao apelido. Outro era Paraíso. Nem é preciso dizer que são expressões retóricas para as jovens levadas aos porões da ditadura para as torturas de praxe e depois reencaminhados as celas. Mas a grande revelação do filme de Suzanna Lira, além de recuperar uma memória aos dias cinzentos de hoje, é saber como aquelas mulheres mantinham o equilíbrio, a saúde emocional na medida do possível, com uma rotina de atividades que amenizavam o sofrimento do cárcere. 

Não há um número certo de quantas mulheres passaram pela torre, um dado que só o exército, diz Susanna, poderia informar. De maneira genérica, se sabe que de todos os presos políticos do período, 16% eram do sexo feminino. A diretora fez seu recorte e ouve em torno de vinte ex-detentas, algumas com atividades públicas notórias, como a fotógrafa Nair Benedicto, a historiadora Janice Theodoro e a jornalistas Rose Nogueira. Mas se algumas seriam, por assim dizer, anônimas, todas dão seu relato em igual importância. Embora naturalmente o de Dilma ganhe mais ênfase pela trajetória, mas também por ser a única a dar depoimento fora do formato cênico escolhido por Susanna, uma reconstituição em estúdio do espaço de encarcermanento. 

Há mesmo marcações no chão como o método usado por Lars Von Trier em Dogville. Ali as convidadas vão chegando pouco a pouco até formarem um grupo informal de conversa. Este dispositivo de encenação me pareceu um tanto esquemático, em especial porque antecipado por uma iniciativa delicada e funcional de pedir a elas que desenhassem como era a torre, um dado rico de representação da memória. Não chega a quebrar a boa fluência e o valor dos depoimentos, diferente da encenação com figurantes mais jovens, isso sim reiterativo das falas, sem deixar abertura a imaginação do espectador. 

A justificativa é a de que se buscou dar o sentido de juventude daquelas mulheres marcadas pelo horror da opressão. São meros detalhes da exigência documental de buscar um formato que cative, prenda a platéia já tão pouco afeita ao gênero. Talvez nem precisasse com as confidências de como as presas se distraiam, realizando até desfiles de moda com vestidos que chegaram em malas de doação, com a leitura, os trabalhos manuais e os jogos de vôlei improvisados. Sobre estes dois últimos, numa das melhores falas, Dilma disse que preferia muitos jogos a qualquer possibilidade de fazer trabalhos manuais. Aos críticos da falta de articulação e discurso empolado da ex-presidenta, vê-la discorrer em pensamento límpido e perspicaz daquela experiência pode servir a uma reflexão do que é uma mulher jogada na pressão do poder em país que tem seu universo politico eminentemente masculino semelhante a um purgatório. E como a ex-presidente já havia vivido o inferno…. 

Apesar do tema, a alegria e o humor se impõem ao sentimento de dor inimaginável nessas mulheres. A ponto de se ficar sabendo que muitas delas nunca contaram sobre a experiencias aos seus companheiros e filhos. Com essa perspectiva, digamos, para cima, não houve como a platéia do Cine Brasília deixar de se levantar e aplaudir na apresentação e ao final do filme. Aí sim, fácil imaginar a alegria de algumas das donzelas que vieram ao festival e refizeram seu discurso por luta e tempos melhores. 

Tragédia, verdade poética e a vida comezinha no CineCeará

Acumulo aqui duas noites da competição ibero-americana do CineCeará. Ontem o dia correu também por conta da “charla”, o debate que mediei em iniciativa da Abraccine com os críticos hermanos presentes aqui em Fortaleza. O mote eram as associações de críticos nos países vizinhos, no caso Chile, Colômbia, Peru e Uruguai, em função de crises e situações de desgaste e mudanças que elas enfrentam. Mas volto a falar sobre isso depois. Na tela do Cine São Luiz, foram noites proveitosas, embora irregulares. Comecemos pelo ponto alto, mesmo em comparação a programação anterior.

“Petra” é um longa no mínimo provocador. O diretor catalão Jaime Rosales estrutura, ou melhor desestrutura, sua narrativa em forma de tragédia grega sem abrir mão de um tanto de melodrama, gêneros que como notou o colega Luiz Zanin, não poderiam ser mais díspares. Mas ao enfeixá-los acrescenta um formato e uma opção estética que tanto pode somar como trazer um incômodo ao espectador. Daí a desestruturação, sobretudo no que toca ao embaralhamento de capítulos anunciados em cartelas, na verdade apenas dois deles, fugindo a ordem dos fatos.

Nas cenas iniciais, Petra (a bela argentina do momento Barbara Lennie) é a artista plástica que se instala na idílica propriedade rural na Catalunha de um famoso escultor (Joan Botey, ator não profissional, engenheiro de formação) para uma residencia artística. Conhece a mulher do artista (Marisa Paredes), de quem ouve um alerta do que a espera, o filho do casal e fotógrafo que confessa a ela a difícil  e insustentável relação com o pai, empregados da casa etc.

Mas Petra tem bem mais a fazer ali. Acredita que Jaume, o escultor, é seu pai e quer definir as coisas. Ele, no entanto, é tipo irascível, manipulador, o mal em pessoa. Destrói a todos em sua volta. Tragédia montada com um jogo de cena em que a câmera desliza em longos planos-sequência, acompanhando as personagens ou deixando-os propositadamente fora do quadro. Artifício que soma estranhamento, funciona como um olho maior, um deus afinal na mesma medida em que parece Jaume em seu escárnio e sua superioridade, mas que tende a se tornar um pouco gratuito até o final. Não como exibicionismo e sim um modelo que é útil para representar o desalento e senso perdido das personagens e não se altera quando essas começam a encontrar saídas daquele destino, mesmo que trágicas. Um filme refinado, repleto de esgarçamentos que não facilitam uma adesão imediata. Curioso também, e não por certo casual da curadoria, ser um filme no feminino, de chave se se quiser feminista, como O Barco, em parte Cabros de Mierda, e o representante da Colombia visto ontem, “Amália, a Secretária”.

Antes desse, no entanto, foi exibido “Eduardo Galeano Vagamundo”. Trata-se de documentário sobre o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940 – 2015) realizado por Felipe Nepomuceno, filho do crítico e tradutor literário Eric Nepomuceno. Também por tal filiação, o jovem diretor conheceu Galeano (entre outros grandes mestres da produção literária latina, especialidade do pai), mas sobretudo havia o programa de TV apresentado por Eric e dedicado a literatura. Foi essa a fonte da entrevista realizada por Felipe em 2010 que é o centro do filme agora, acrescentado de material inédito e tocante. Diversos convidados, como o autor moçambicano Mia Couto, os atores João Miguel, Paulo José e Ricardo Darín e o artista plástico Francisco Brennand lêem passagens e pequenos contos dos livros do mestre uruguaio, que como se sabe escreveu muito, em variados formatos e gêneros. Há um tom de reflexão emotiva que permeia todo o filme, e em especial cenas captadas de situações banais como a chuva, uma exibição de tradicional dança no México, paisagens, ajudam ao espectador a pensar sobre as verdades nem tão evidentes que Galeano nos aponta.  Cinema e literatura é junção ingrata quando se tenta desvendar a primeira e o realizador, como apontou em conversa esta manhã, não teve a pretensão de encerrar o tema. Que venha mais Galeano.

Há uma citação por Galeano de um ocorrido quando foi certa vez entrevistado por um crítico. Este lhe disse que o escritor parecia ter um olho no microscópio e outro para o telescópio.  Pois o diretor colombiano André Burgos apostou no primeiro — ainda que de quebra amplie o tema ao universal e portanto telescópico — no seu misto de comédia e drama dedicado as pessoas comuns, aos anônimos, em suas vidas aparentemente sem grandes feitos, mas que se vistas na lente miúda podem gerar encantamento, graça. A protagonista Amália pertence a esse estrato aparentemente destituído de valor numa sociedade competitiva e baseada na conquista econômica como a nossa.

Ela é a secretária de uma pequena empresa onde vive cotidiano repetitivo, sempre atenta ao dono que tem apresentado comportamento estranho, quando a funcionária descobre uma arma em sua mesa. Solteira, em casa ela vive com a mãe já um tanto senil, sem fala, e a amiga que cuida desta. A mudança virá com um eletricista intrometido que aparece no escritório para consertar uma tomada e tirar Amália da apatia através da dança.

O filme demora a embalar, mas se desenvolve depois que a personagem começa a questionar sua vida. Interessante o trabalho de uma fotografia de aparente traço televisivo, quase cafona, mas que aos poucos se faz significativa com as cores que se alteram com o destino de Amália. A ver com atenção aos detalhes, mais uma vez no micro do que no macro. Filme simpático que depende muito da ótima atriz Marcela Benjumea, famosa em seu país por novelas também.

 

A emoção e o explícito no jogo duro da ditadura chilena

“Cabros de Mierda”, ou cabras de merda na tradução, trabalho com um expediente frequente no cinema quando se aborda um tema tão doído e sombrio como as ditaduras. Mais ainda porque o segundo competidor apresentado ontem no CineCeará vem do Chile, país que como a vizinha Argentina, viveu uma das perseguições e um dos massacres mais violentos da América Latina. Difícil essa medição, quase incorreta moralmente, pois também tivemos a nossa, embora uma ruidosa fatia da população demonstre sem nenhuma vergonha descrer do regime militar e suas atrocidades, e pior, mesmo apoiá-lo e requerer seu retorno. Mas essa é dicussão lateral aqui. O fato é que a grande diferença com os hermanos vizinhos é que esses promovem uma revisão do período, julgam seus algozes e mantém a memória sempre em alerta. É deste pressuposto que parte o chileno Gonzalo Justiniano em seu longa, tecido com humor sutil, alguma graça mesmo, quando esta é possível, personagens com empatia e tom emotivo. Mesma trilha de filmes como Machucca, lembrado hoje na conversa com o diretor, ou Kamchatka, para ficar em dois exemplos.

Não por acaso, os filmes tem crianças em papéis de protagonismo, com aquele apelo de inocência e esperteza que as tornam irresistíveis. No caso aqui é Vlad (Elias Collado), garoto ruivo de grandes óculos que tem a insistente mania de culpar Nixon pelo atentado a Allende. Seu pai é um militante fugitivo e ele vive com  Gladys (Natalia Aragonese) , sua tia, mais a avó, em uma casa só de mulheres. O momento é 1983, uma década portanto do golpe, e o cenário uma “poblacíon”, espécie de comunidade bastante pobre, chamada La Vitória. Nem por isso faltam contestadores combativos ali a política ditatorial de Pinochet. Gladys é um deles, jovem bastante impulsiva e liberada. Com sua potência sedutora, vira de ponta-cabeça as crenças, em especial as religiosas, do jovem missionário americano (Daniel Contesse) que se hospeda na casa para pregar aos moradores do vilarejo. Aos poucos, se dá conta do contexto político pesado e do quanto seu país contribue para ele.

Todo o painel tem origem em fonte real, com base no famoso Museu da Memória que se inaugurou em Santiago em homenagem as vitimas do regime. As personagens são acúmulo de vários testemunhos do período e o diretor dedica o filme a três padres franceses que morreram no Chile de Pinochet lutando contra o regime. A toda uma construção tocante, sútil, o diretor soma passagens de encenação de torturas, ainda que com procedimentos leves perto do que ocorria, e da conhecida forma de como os militares se livravam dos militantes, jogando seus corpos ao mar, isso se já estivessem mortos. Não é o caso de questionar a validade dessa opção, pois para ele persiste a necessidade de sempre lembrar as gerações dos horrores praticados, justificativa plenamente aceitável. Mas uma mudança de tom entre a narrativa até entao adotada e tais momentos quebra o tecido delicado de reflexão tão próprio do humor crítico e traz uma função quase didática desnecessária.

CineCeará abre em tom fabular, feminino e político

Tudo, ou quase tudo cabe em O Barco, filme do cearense Petrus Cariry que abriu sábado a noite a 28a edição do CineCeará. Uma das pratas jovens da casa fez bonito. Muito bonito. O filme é de uma beleza impressionante, quase epifanica, até mesmo porque sob essa camada sensorial há literatura, econômica sim, mas ao que nos indica potente. Petrus retirou sua fábula de um conto de três páginas de um autor local, Carlos Emilio C. Lima, e fez um painel dramático de pelo menos tres vertentes. A primeira, nesse registro alegórico, traz um conceito do fantástico em que pouco se pode exigir o verossímel. Uma família de pescadores, isolada numa região de falésias, é liderada por uma matriarca que pariu 26 filhos. A cada um deu um nome de letra do alfabeto. Há traumas profundos que marcaram o núcleo. O marido voltou um dia do mar e não mais falou. Estes e outros incidentes geraram um  horror ao oceano e a mãe obriga os filhos adultos a pescar com redes próximas a areia. Quando uma bela jovem desconhecida chega pelas águas vítima de naufrágio e passa a enebriar os pescadores com histórias como uma Sherazade, o equilíbrio local se perde.

Desse artifício da trama, se é que se pode chamar de trama, vem outra construção do longa, o mote feminino. A partir da garota que mal precisa se desnudar para encantar, tem-se a contraposição na mãe rigorosa e destituída de vida e esperança pelo tempo. O filho mais velho será o responsável pela ruptura definitiva do rito familiar de permanência do estado de coisas, ao repassar a mãe o símbolo do saber e iluminação em forma de um dicionário, justamente a ferramenta da jovem. Por fim, bem menos evidente e interpretação bastante pessoal de alguns, o filme evoca uma metáfora política do Brasil atual sobre a figura da mulher e em geral oprimida e alvo da perseguição, quanto mais se em condição de poder. Influência, assumiu Petrus, do momento em que filmava e acompanhava o angustiante processo de impeachment de Dilma Roussef. Se na requintada direção e fotografia á luz de lamparinas toda a miséria e agruras daquelas vidas a deriva se impõem, o elenco colabora em igual registro, com Veronica Cavalcanti no papel da matriarca, Romulo Braga como o primogênito, Samya de Lavor como a jovem, Nanego Lira o marido e Everaldo Pontes como o cego sábio que orienta a comunidade. A proposta de imersão de Petrus, filho do diretor Rosemberg Cariry de quem herda o cinema de mitos, é radical e talvez pudesse conter um arco dramático mais pungente. Mas suas opções são coerentes ao cinema de sensações que pratica.

Homenagens —   A noite de abertura ainda contou com duas homenagens que não poderiam partir de registro mais antagônico. O humor, a alegria, a festa já eram esperados na entrega de um prêmio de carreira ao cearense Renato Aragão pelas mãos de Fábio Porchat. Ao que um foi informal e diversas vezes quebrou o protocolo, pois afinal estava em casa, o outro soube improvisar para contornar as situações de um fã persistente do trapalhão. Em contraponto, a tristeza e emoção tomaram conta do palco do Cine São Luís, e na verdade desde a manhã quando se soube da morte súbita do ator e diretor Tito Ameijeiras, aos 74 anos. Argentino radicado em Fortaleza,  Tito era em realidade uma daquelas figuras de vários ofícios no cinema propriamente dito e em seu entorno, como por exemplo colaborar no festival com tradutor dos convidados de língua hispânica. Foi ator de Fernando Birri e de outros realizadores. Tinha história, histórias para contar, e também muito humor, não de gags em que os cearenses são tão bons, mas de fina análise. Mas talvez por isso mesmo tenha escolhido o Ceará para fincar bandeira.

Berlinale (6): Romeno “Touch me Not” ganha Urso de Ouro e Brasil faz bonito nos prêmios paralelos

Daria até para puxar uma palhinha para o Brasil na premiação principal do 68o Festival de Berlim que aconteceu ontem á noite no Palast, o palácio sede do evento. Las Herederas, título paraguaio de Marcelo Martinessi que recebeu os prêmios Alfred Bauer de novas perspectivas e de melhor atriz para Ana Brun, é uma co-produção brasileira. Mas não vamos forçar porque o delicado filme com temas difíceis como homossexualidade, preconceito de classe, conservadorismo, herança política e social patriarcal merece o reconhecimento voltado todo ao pouco cinematográfico Paraguai. E também porque, mesmo durante a cerimônia de entrega dos Ursos, o País se fez notar por uma menção especial a Ex-Pajé, o bonito e importante documentário de Luiz Bolognesi sobre a perda de identidade e extinçào do povo Paiter Saruí.

Foi uma bela surpresa ver Bolognesi fazer uma reverência de agradecimento do seu lugar, pois o protocolo não previa um agradecimento no palco. De certa forma, ele representava todo o time brasileiro presente na Berlinale, que teve boa receptividade e prêmios paralelos. Antes falemos dos Ursos. Surpreendente, mas pelo viés negativo, me parece a escolha do romeno Touch me Not, embora compreensível em se tratando de um realizador mais pop  como Tom Tykwer na liderança do júri. É bem verdade que o longa de estréia de Adina Pintilie trouxe o ponto fora da curva numa seleção de mediana para ruim, de filmes mesmo quando bons, tradicionais na forma e no conteúdo. Mas inovar não significa propor uma ideia autocentrada em registro pretensioso e de um artificialismo vazio, como se dá na conversa direta por uma câmera entre a diretora e seus personagens. Também não convence apostar no apelo erotizado de nudez e masturbação. Os personagens não parecem ter sido escolhidos ao acaso, em sua dificuldade de lidar com o erotismo, a intimidade, o toque enfim. Há uma mulher em busca da compreensão do que é amar e encontra apoio em um transexual , um rapaz deficiente em cadeira de rodas e outro que o inicia na intimidade. Todo o processo é discutido junto com a realizadora. Se o recurso parecia ter potencial, seu desenvolvimento me deixou com a impressão de algo muito frágil. Proposta que alguns considerarão difícil, outros mero exercício mirabolante. Por certo um filme a se voltar fora da maratona de um grande festival.

Se o prêmio principal permite questionamentos, os demais surgiram na maior parte dignos e mesmo de escolha não óbvia. Por exemplo, nenhum prêmio para os três concorrentes de língua alemã. Há que se ser afirmativo a um presidente de júri local descartar pratas da casa. Não incluo na avaliação acertada, no entanto, o reconhecimento de Wes Anderson como melhor diretor, não só porque havia trabalhos melhores, mas porque me sugere um prêmio de consideração pela presença constante do diretor na Berlinale. Não que Isle of Dogs, Ilha dos Cachorros, não tenha seu valor como produção caprichada de animação, é divertido e mesmo tem apelo para reflexão, da sociedade de consumo por exemplo, Mas tudo isso passado por um filtro juvenil típico do diretor, que aqui abriu mão um tanto do estilo excêntrico que caracteriza seu cinema, não vai além de um projeto convencional.

Embora permitam discordâncias por preferências subjetivas,  prêmios como o melhor roteiro para a dupla mexicana Manuel Alcalá e Alonso Ruzpalácios , este o diretor de Museo, ou do Grande Prêmio do Júri para Mug, da polonesa Malgorzata Szumowska, não chegam a ser condenáveis. Apenas reforçam a impressão de uma queda do júri por um gosto mais acessível, de boas histórias mas palatáveis e de algum contexto crítico. O primeiro ficcionaliza o roubo real de peças milenares do Museu de Antropologia da Cidade do México, em 1985, por dois rapazes comuns, amadores, com a intenção de provar serem capazes de realizar algo significativo e mostrarem-se adultos. Bons atores, entre eles Gael García Bernal, bom pique de humor e drama entre dificil relação de pai e filho. Tem empatia, mas não muito mais. Um pouco pelo mesmo caminho segue o filme da polonesa, trazendo como diferencial a crítica a intolerância e conservadorismo da sociedade local a partir do caso de um rapaz de rotina feliz, prestes a se casar, que sofre um acidente e tem seu rosto refeito por um transplante. O registro segue pelo caminho da estranheza, por vezes, em outro por um olhar questionador. Poderia se aprofundar, mas tambem nao tem final redentor ou facilitador.

Já havia escrito que se o júri quisesse apostar num novo valor masculino daria o prêmio ao jovem Anthony Bajon, o viciado que busca se refazer numa instituição de recuperação levado por católicos em La Priere. Mas havia também a dupla e ótima colaboração como intérprete de Franz Rogwski nos alemães Transit e In the Aisles. Uma demonstração de ousadia do júri, sem dúvida, e a escolha de Bajon fez contraponto bonito a Ana Brun, atriz madura e desconhecida de nós. As mulheres tiveram condição potente nesta edição e parece ter sido o objetivo dos jurados assinalar isso com o premio de contribuição técnica da russa Elena Okopnaya por seu trabalho no design e figurino de Dovlatov, de Alexey German Jr. Um filme, aliás, que merecia ser mais lembrado pelo júri, o que colegiados de premiaçoes paralelas fizeram antes, de manhã. Mas pode se supor pelo resultado que se relegou um cinema de maior refinamento e potencial reflexivo. Não se pode dizer de falta de coerência pelos nomes que o formaram.

Os brasileiros

A acolhida sempre generosa aos filmes brasileiros na Berlinale se refletiu na considerável premiação mais uma vez nas representações paralelas e troféus colaterais, como se diz. Começou com força no Teddy Bear, a seção de temática gay, com o prêmio principal para o gaúcho Tinta Bruta, que no dia seguinte ainda renderia para a dupla de diretores Marco Reolon e Filipe Matzembacher o prêmio Cicae da associação dos cineclubes de arte. Também foi de outra dupla, desta vez de São Paulo, o Teddy de melhor documentário, Bixa Travesti, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Foi o único concorrente brasileiro que não consegui ver. Por fim, e por tabela, o Brasil emplacou um prêmio especial do júri do Teddy para Obscuro Barroco, o interessante documentário da grega Evangelia Kranioti que se passa no Rio de Janeiro com uma transexual como personagem.

Tão significativo quanto atentar ás questões de gênero foi esta premiação trazer a luz também o delicado problema dos imigrantes da guerra na Europa atual, o que Karim Ainouz faz com sensível observação no documentário Aeroporto Central THF. O filme sobre o antigo aeroporto Tempelhof, construído nos anos 30 e desativado, hoje abriga sírios, russos, afegãos e outras nacionalidades a espera de um destino para suas vidas. O cearense de família argelina radicado em Berlim entende bem o que significa a adaptação forçada a uma nova realidade com o pai que um dia emigrou e a Anistía Internacional soube reconhecer seu filme com o prêmio. Tanto Karim quanto a dupla de Tinta Bruta fizeram discursos políticos quanto a situação grave pela qual passa o Brasil, citando o golpe e o afastamento da presidenta Dilma Roussef, eleita majoritariamente.

O tema se encaixaria no mesmo dia com uma lembrança mais direta a trágica farsa política do momento nacional com a preferência do público da Berlinale a O Processo, fundamental documentário de Maria Augusta Ramos sobre o impeachment de Dilma. O filme não passou despercebido e foi o terceiro título preferido do público, no universo de mais de 500 títulos da Berlinale. Por fim, a noite da premiação oficial dos Ursos ainda traria a surpresa da menção especial do júri de documentários a Ex Pajé, de Luiz Bolognesi. Como o protocolo não previa um discurso de agradecimento, Bolognesi fez uma reverência e agradeceu de seu lugar no Berlinale Palast, o palácio do festival. Na justificativa dos jurados, a citação sobre o povo indígena Paiter Suruí que segue sendo exterminado e perde sua identidade ante o avanço da religião evangélica na aldeia. São todos filmes simbólicos de algumas de nossas principais controvérsias de um país em transe, e que agora o cinema ajuda a tornar mundial.

 

Berlinale (5): Las Herederas larga na frente com prêmio da Fipresci

Em cerimônia realizada na Cinemateca alemã, bem ao lado do complexo da Berlinale, o júri da crítica internacional anunciou os prêmios das três seções principais do festival. Na competição venceu o paraguaio Las Herederas, estréia no longa-metragem do diretor Marcelo Martinessi. Foi o segundo filme exibido em uma seleção que me pareceu a mais fraca desde que cubro a Berlinale. Já houve filmes piores, é verdade, nesta quase uma década, mas a questão é que houve títulos muito bons também. Não defenderia nenhum caso este ano entre uma média regular. Mas falo disso mais para frente. Voltemos as herdeiras de Martinessi, que é uma co-produção com o Brasil. Depois do discurso exultante, brinquei com ele se poderíamos considerar um tiquinho desse reconhecimento como brasileiro. “Por supuesto! Fizemos o som do filme no Brasil,  somos tão próximos na fronteira e tão distantes no conhecimento de nossos cinemas”, respondeu. “Espero que esses projetos nos aproximem”.

Berlim costuma marcar uma tradição. Os filmes da crítica, aliás em júri liderado pelo carioca Mario Abade, muitas vezes já replicaram a festa com o Urso de Ouro. E os latino-americanos são muito bem vindos por aqui. Basta lembrar do uruguaio Gigante e do peruano La Teta Assustada, este vencedor maior. Las Herederas trabalha em registro contido temas indigestos a cultura latina, o preconceito de classe, o racismo, a homossexualidade, a decadencia de uma sociedade e política patriarcais. Faz isso praticamente apenas com mulheres em cena. E com ótimas atrizes. Difícil que não saia com algum prêmio na entrega amanhã á noite dos Ursos, 19h no horário local.

Imaginar o que o alemão Tom Tykwer, diretor de linguagem mais pop, e seu time farão requer uma habilidade quase premonitória. Por certo teremos prêmio importante para uma prata da casa. Hoje foi exibido o terceiro representante local e último título competitivo, In the Aisles, nos corredores. Boa surpresa, e talvez se o cansaço já não tomasse conta, mereceria maior atenção. Os corredores no caso são de um grande supermercado, do tipo daqueles atacadões, onde chega para trabalhar como repositor o calado Christian. Seguindo um excentrico e divertido plano de treinamento, ele é tutelado por um antigo funcionário para aprender a lidar com a empilhadeira. Em meio a rotina repetitiva do turno da noite, ele conhece uma moça atraente que corresponde a seu interesse. Apenas que os colegas o avisam ser casada e que o marido não parece ser boa coisa. O rapaz também tem sua vida misteriosa. Esteve preso por um embate com um chefe anterior. Esses pequenos dramas se refugiam em um maior, numa aparente nostalgia da Alemanha não unificada que seria melhor na visão, por exemplo, do ex-caminhoneiro responsável por treinar o novato. Já vimos muitos filmes assim, de registro dos anônimos, das vidas comuns de trabalhadores, sem glamour ou grandes ambições. Não é fácil e o diretor Thomas Stuber dá boa fruição a narrativa, um pouco excessiva na duração de mais de duas horas, com sensibilidade e humor. Sobretudo conta com Franz Rogowsky, um ator que marca essa edição também em outro concorrente alemão, Transit, embora agora em trama mais exigente. Comentei anteriormente sobre ele, um rosto expressivo e um pequeno defeito no lábio superior, que ao mesmo tempo confere ar problemático e ausente. Fui pesquisar e eis que o moço interpretou o filho rebelde de Isabelle Huppert no Happy End de Michael Haneke. Duvido que com essa dose dupla de talento não leve o Urso de Cristal de melhor intérprete.

Um Cristo, mas sem redenção

A última manhã da competição foi proveitosa também pelo novo filme da diretora polonesa Małgorzata Szumowska, que há três anos dividiu o prêmio de melhor direção aqui com seu Body, exibido no Brasil. Ela parece gostar de um toque de estranheza, de uma crítica a certa excentricidade do seu povo. No filme anterior, um investigador envia a filha a uma psiquiatra preocupado com a reação doentia dela a morte da mãe, chegando ao estado de anorexia por exemplo. A profissional adota métodos pouco ortodoxos no tratamento. O novo filme abre com uma cena deslocada da trama, quando um grupo de consumidores avança de modo animalesco sobre uma liquidação de televisores. Detalhe: todos precisam ficar de roupas íntimas para levar o produto. Mas a situação permite refletir sobre o quão esquisitos somos nós, os seres humanos, ou ao menos os polacos, como quer a diretora. O jovem Jacek que o diga. Tipo simpático, fã de heavy metal e operário num vilarejo onde a família trabalha na terra, sua vida vira de ponta cabeça quando sofre grave acidente na peculiar obra em andamento no local, uma estátua do Cristo Redentor. É para ser maior que a do Rio de Janeiro, como se planeja na comunidade muito católica, e Jacek cai de altura considerável. A tragédia só vitima seu rosto, mas o desfigura. Um transplante inédito é feito e Jacek, antes boa pinta, volta outro para desgosto de alguns dos familiares e da namorada, com quem iria se casar, que se afasta. Não só ela na cidade. Ele sofre com o desprezo, também porque virou celebridade em função da cirurgia. Há evidente crítica a intolerância, a postura religiosa que pouco vale quando é testada, o que não se deve descartar como tema delicado em se tratando da Polônia, país dos mais católicos. Se não vai muito a fundo nas questões, gostando de jogar mais com um humor negro e a observação social, a diretora fornece um retrato que dá o que pensar para muitas sociedades além da sua.

 

 

 

Berlinale (4): La La…Lav Diaz! E um tabu chamado Romy Schneider

Já foi mais desafiador incluir um filme de Lav Diaz na rotina corrida da Berlinale. Há dois anos, o diretor filipino trouxe para a competição A Lullaby to The sorrowful Mystery, com nada menos que oito horas. A longa duração dos filmes é uma das suas marcas, como a fotografia em preto e branco. Vale a pena? Sempre. Diaz faz do seu cinema mergulho reflexivo e poético na conturbada história de seu país. Neste anterior tratava da colonização espanhola e do herói rebelde maior. Agora fala da era Ferdinando Marcos, o controverso presidente das Filipinas que impôs a força militar contra os rebeldes ao seu governo nos anos 70. Lav foi sucinto: Season of The Devil tem “apenas” quatro horas, mas um recurso inusitado. Os diálogos são como canções tradicionais e poemas entoados pelos atores. Uma rock ópera, explicou o diretor. Pode-se imaginar quem seja o demônio do título. O filme começa numa clínica onde uma médica que se dedica aos pobres e seu namorado, um poeta, comentam, cantam, o que seria necessário para combater a opressão. A ajuda de uma bruxa, de uma figura do folclore local, de uma coruja e sua sabedoria… também um poeta. A médica desaparece e este vai em busca dela. Chegará no vilarejo onde a milícia de Marcos oprime os moradores. O texto cantado se repete, um la-la-la as vezes cansativo, mas revelador do sentimento de revolta e humilhação de um país. Nem todos sintonizaram a proposta de Diaz, mas esta tem uma força e um valor genuíno de reflexão raros sempre, e muito mais nessa seleção fraquíssima da Berlinale.

Para sempre Sissy

Dificil tocar num mito, ainda mais quando esse queria tudo menos se tornar um mito. Até pelo risco, e o resultado bem digno, 3 Dias em Quiberon se mostrou vencedor em seu objetivo de tratar no registro de ficção não de uma vida toda mas apenas do breve período em que Romy Schneider passou em um hotel spa na praia francesa do título. Um ano antes da morte trágica do filho adolescente e do suicídio aos 42 anos, Romy mergulha na bebida e nos medicamentos ao mesmo tempo que dá uma entrevista reveladora a revista alemã Sterne. O fotógrafo é um antigo amigo e amante que a convenceu. O repórter é um tipo dúbio que não facilita. De cara, ataca: uma parte a vê como uma princesa, bela e sofrida; a outra, como uma puta. Afinal quem é Romy, uma das mulheres mais bonitas do mundo, que viveu tórrido romance com Alain Delon, e quando se falou de sua gravidez na imprensa, perguntava-se quem era o pai? O filme busca a mulher comum atrás do mito, problemática, instável, deprimida e em busca da felicidade. Não teria êxito sem a presença convincente em cena de Marie Baumer, de semelhança circunstancial com a bela mas de talento à medida. Arriscaria um prêmio de interpretação, até por ser prata da casa.

Berlinale (3): a “geração perdida” russa, falsas identidades e faces novas e velhas do terrorismo

YYMuito material acumulado nesses três dias da competição,  o que já permite um balanço da metade desta Berlinale. A princípio nenhum grande filme, mas propostas interessantes. Vamos a elas, em tópicos:

Dovlatov – O título indica o nome do personagem do novo filme do russo Aleksey German Jr, que talvez nos diga menos que seu amigo, e antagonista nesta ficção, Joseph Brodsky, cujo exílio parece ter beneficiado o reconhecimento de sua literatura. Ambos os escritores de São Petersburgo, então Leningrado,  tem muito em comum, no talento, n a perseguição do governo soviético nos anos 70, na morte precoce. Mas Sergei Dovlatov (1941-1990) amargou, ao que parece, maior descaso e frustração ao ser reconhecido em seu país apenas depois de morto, numa tardia publicação de seus escritos. Antes, no entanto, quando emigrou para Nova York, teve a merecida fama internacional. Na república soviética,  os censores não viam com bons olhos seu estilo sarcástico, irônico, irreverente, e inevitavelmente barravam seus livros. Atuou como jornalista e aproveitou para realizar pesquisas entre os trabalhadores do porto ou sobre a construção do metro, quando em certo momento se encontram os restos de trinta crianças mortas nos bombardeios da Segunda Guerra. German, filho de proeminente cineasta crítico da sociedade soviética, tem estofo e potência para nos dar um belo retrato não só do  internacional mas persona non grata na Rússia Dovlatov, mas principalmente nos apresenta uma espécie de lost generation local, de artistas de várias expressões. Faz isso com uma assumida influência de Tarkovsky e uma narrativa não realista de Sokurov.

Transit – A trama se concentra em um militante da resistência francesa durante a ocupação alemã na Segunda Guerra, mas o recurso do diretor Christian Petzold, prata da casa aqui na Berlinale, de coligir passado e presente permite supor as questões similares dos refugiados ontem e hoje. Georg é esse fugitivo, que no caminho da Paris prestes a ser ocupada para Marselha assiste um escritor em sua morte e descobre seus escritos. Assume a identidade do outro, em especial para obter um visto para o México, mas ao se aproximar da mulher e do filho do autor seus planos se alteram. Petzold já havia trabalhado a questão da falsa identidade em Phoenix e Barbara, seus filmes anteriores, mas agora soma a questão também do terrorismo, evidente na cena contemporânea da polícia em ação contra os ilegais. Filme correto, com bons atores, em especial o protagonista Franz Rogowski, tipo anti-galã de lábio leporino que confere realismo ao drama.

Eva — É de ordem semelhante, mas em outro registro, a logro de identidade em Eva, de Benoit Jacquot. Gaspard Ulliel é o garoto de programa que atende um velho escritor e dramaturgo inglês de fama radicado em Paris. Este tem uma morte súbita e Ullliel rouba da mesa uma nova peça do autor e a apresenta como sua. O sucesso da montagem o torna célebre e rico, mas logo vem a cobrança de uma segunda peça do produtor. O rapaz é protegido pela assistente deste, sua namorada. Entra em cena para tumultuar a coisa a figura despachada interpretada por Isabelle Huppert, personagem que faz lembrar Elle, de Paul Verhoeven, mas em grau bem menos corrosivo. Casada com um antiquário que está preso, ela paga suas dívidas como garota de programa.  Madame o atrai, Ulliel entra no jogo e os fatos se precipitam para um desfecho dramático.  Ainda que a trama possa parecer um tanto forçada, é possível aceitar as coincidências e reviravoltas. O  mais complicado é defender um arriscado conceito de engano e falseamento que move o filme em todas as suas camadas. Jacquot parece se interessar pelo tema que não deixa de ser significativo na sociedade contemporânea, como fez nos recentes Até Nunca Mais e Três Corações. Mas como nesses, tatear o falso pode fazer o filme sucumbir a ele.

Figlia Mia — Há três anos, a italiana Laura Bispuri fez sua estréia no longa-metragem ao apresentar na Berlinale o bom drama Vergine Giurata. Volta agora com a mesma atriz protagonista, Alba Rhorwacher, em drama levado na Sardenha sobre uma garota de dez anos que no verão descobre segredo sobre sua verdadeira mãe. Aquela que a cria oculta da menina um passado ligado a personagem de Alba, mulher bastante instável, dedicada a bebida e noitadas no bar local onde passa de um homem para outro. Quando mãe verdadeira e filha se conhecem, um antigo acordo começa a ruir. O filme tem  força, é bem conduzido e o que se comentou aqui no festival diz respeito a uma conjunção de duas tendências fortes do cinema italiano, o neorrealismo e o melodrama. Este me parece plenamente trabalhado, mas não reconheci tanto uma acepção neorrealista. O fato de buscar um realismo entre uma paisagem bruta, ainda que bela da costa sarda, e a brutalidade de vidas, não significa necessariamente atrelar-se a um movimento que partiu da realidade dura para, no sentido inverso aqui, chegar a uma poética da miséria. Ainda sim, um trabalho digno que depende também dos bons atores em cena.

La Priere — Se a ideia do júri liderado pelo alemão Tom Tykwer for reconhecer um ator jovem e revelação, Anthony Bajon já tem o prêmio. Ele faz muito, na verdade quase tudo, neste drama de Cedric Kahn, diretor irregular que lembramos por O Tédio ou o recente Vida Selvagem. Há um clima de Deuses e Homens, de Xavier Beauvois, na propriedade de campo dirigida pela Igreja que recebe jovens viciados em drogas em busca de recuperação. Ali vai parar Thomas, papel de Bajon, contrariado e rebelde até conhecer a filha de sitiantes próximos. Entre a decisão de escapar da pressão e da rotina rígida ou ficar perto da moça, o rapaz titubiará bastante, inclusive decidido a seguir carreira religiosa. Esse vai e vem tira muito da fluência do filme, enfraquece o drama e abusa da repetição de situações. Uma maior concentração em algum ponto da narrativa, como por exemplo a personalidade instável de Thomas ou a postura religiosa para essa função de tratamento, teria feito bem ao projeto.

7 Days in Entebbe e Utoya – 22 July — O primeiro, vocês já devem saber, é o novo projeto de Padilha, de caráter internacional e fora de competição. Trata-se da recriação do famoso sequestro do avião da Air France em julho de 1976 por revolucionários palestinos e setores de movimentos guerrilheiros da Alemanha. Na rota Paris-Tel Aviv, o voo levava muitos israelenses, daí a escolha para pressionar o governo de Israel. O avião foi desviado para Uganda, onde o ditador Idiamin Dada apoiou o plano. Militares israelenses elaboraram uma bem-sucedida estratégia de resgate, tirando vivos dali os 102 passageiros que foram separados dos não judeus e permaneceram sob a ameaça de morte. O cinema se encarregou muitas vezes de adaptar o acontecimento, sendo a versão mais popular a feita para TV, Vitória em Entebbe. Revê-lo agora tem por certo caráter político dada as muitas mudanças no tabuleiro de negociações entre Israel e Palestina.

Talvez por esse aspecto, há menos ação do que se poderia supor na versão de Padilha. Ao contrário, privilegia-se o fundamento das razões dos revolucionários e suas inquietações quanto as diferentes intenções em jogo, isso por um lado, e a difícil equação do quadro político e das decisões a serem tomadas por Israel, por outro. O problema é que muito dos personagens surgem caricatos, em especial do lado judeu, embora o astro local Daniel Bruhl e Rosamund Pike deem bom sustentação como o par principal de guerrilheiros. A opinião geral por aqui foi ruim, inclusive por condenar o recurso aparentemente estranho de utilizar uma coreografia da reconhecida companhia de dança israelense Batsheva, em meio ao drama, justificada pela ligação de uma bailarina com um jovem militar. Apesar dos diálogos muitas vezes capengas, para mim funcionou e segui o drama interessado nos meandros das negociações que pouco sabemos, entre figuras emblemáticas como Ythzak Rabin e Shimon Peres. Padilha faz sua escolha por uma noção européia do conflito, é certo, mal dá voz aos palestinos e os israelenses são vistos como inábeis para uma situação de emergência. Na coletiva, disse que procurou assinalar a figura humana dos ditos terroristas, aos olhos do presente de que todos são seres execráveis. Bem, basta ver o concorrente norueguês Utoya para ter ideia de certa inocência e falta de experiência do sequestro em 1976.

O título diz respeito a pequena ilha onde em 2011, seguido aos ataques a prédios do governo em Oslo, o mesmo terrorista saiu a esmo atirando em adolescentes em férias. O diretor Erik Poppe adotou aqui uma suspeita e torcida estratégia para reviver o fato ao basear-se em depoimentos de garotos sobreviventes mas mudar seus nomes e histórias. Ou seja, o que se vê na tela não é propriamente o ocorrido, com a desculpa de proteger as vítimas. Ora, se um projeto como este já de arrisca na questão ética e mesmo do limite do cinema em captar a tragédia, mais complexo ainda é materializa-lo como ficção falseada — outro caso de falseamento? — e ainda com resultado ruim. Foi um dos piores concorrentes vistos até agora.