Berlinale 69 (5) – Três brasileiros, documentais ou não

No meio da correria entre os filmes da competição e outros da paralela, tenho tentando ao máximo encaixar os nossos representantes. Até aqui a conta foi boa. Vi três brasileiros, no que podemos chamar de documentários. Ou não? Por certo sim o de Marcelo Gomes, com seu poético título ‘Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar’. E claro que a canção de Chico Buarque está presente, ao final, e pelo que entendi nos créditos interpretada pelo grupo Grivo. Pernambucano do agreste, Gomes esteve na Berlinale há dois anos com o belo ‘Joaquim’, então na competição. Agora apresentou no Panorama um cativante retrato da cidade onde nasceu, Toritama, que não era mas se tornou a capital do jeans. A facção, como se chama a produção de roupa, movimenta o local em oficinas improvisadas de garagem. Os turnos diários sobre a máquina de costura para homens e mulheres não duram menos que doze horas.

Surgem personagens que como todos ali sonham em ficar ricos, mas Gomes escolhe um ou dois para um registro mais aprofundado. Um documentário, como se sabe, ganha bastante quando são figuras ricas no falar, no se expressar. E o título, afinal? Se o dinheiro da venda das peças não for o bastante, os moradores vendem o que tem, eletrodomésticos, objetos de todo tipo, e partem para as únicas férias do ano na praia, e claro, durante o Carnaval. No Q&A na sequência da sessão, houve quem pedisse vozes mais críticas ao trabalho insano dos moradores, da percepção equivocada de entregar sua vida ao ofício na busca pelo ouro. Gomes não questiona, abre a câmera para mostrar o sonho de seus conterrâneos. Me parece que o recado é claro e se trata das possibilidades de sobrevivência fora dos grandes centros urbanos. Outro pernambucano, Gabriel Mascaro – presente aqui com a ficção Divino Amor, que pretendo recuperar até o final da Berlinale – é lembrado nos agradecimentos e creio que tem a ver com uma passagem de Boi Neon na mesma Toritama que faz fama pelo jeans.

Reflito sobre o formato documental mais tradicional em função sobretudo do filme de Helvécio Marins Jr. Querência justifica seu título pelo amor à terra dos peões boiadeiros do interior mineiro. Trabalhadores de fazendas, eles alcançam seu triunfo quando entram em cena nos rodeios, vestidos à caráter. Ali a terra treme, anuncia um grande neon, e não por acaso vem a lembrança dos pescadores de dura lida no filme de estréia de Visconti. Um vaqueiro que busca fama como locutor serve de linha condutora também para uma questão maior. Roubos de gado acontecem com frequencia na região e Marins encena tomadas noturnas para dar conta da falta de segurança e medo dos trabalhadores. A encenação também se mostra nas situações do vaqueiro com seus colegas e com a irmã que vem da capital para visitar e não pretende mais voltar a morar ali. Difícil também não recordar nas falas e no jeito do expressar local de Guimarães Rosa, grande representante na nossa literatura do mundo do aboio e seus vaqueiros.

E por fim, não vi nada até agora tão desconcertante quanto ‘A Rosa Azul de Novalis’, parceria de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. O que não quer dizer que a sensação seja aqui uma qualidade, embora devo reconhecer que em muitos pontos o breve (são 70 minutos) registro sobre Marcelo evolui para momentos bem interessantes e, digamos, radicais. Abre com o rapaz nu, de costas, e a imagem do que ele chamará de deus, e que tenho que dizer vem a ser seu cu, se repetirá em outro momento. Os diretores não podam os desejos mais eróticos, pornográficos mesmo, de seu protagonista, incluída uma felação explícita com direito a chuva de prata. Bem, esse é o saldo apelativo do filme para quem quiser ver assim. A proposta é também despir o rapaz em outro conceito. Gay soropositivo, Marcelo fala a câmera de suas memórias familiares, nas quais entram um pai dominador, incesto e uma morte precoce, e sua visão atual de mundo, sexo, relações etc. Articulado, mostra-se culto e admirador de música e literatura, incluindo a do poeta romântico alemão Novalis e sua obsessão por uma rosa azul, e por aqui, de Hilda Hilst. Tudo muito fiel a um jeito de ser. Não se sai do filme, por certo, indiferente.

Imagens encenadas e um  acompanham

 

 

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Berlinale 69 (4) – A tortura de Fatih Akin e dois bons concorrentes

Fatih Akin radicalizou. Isso poderia até ser bom porque o filho de turcos nascido na Alemanha despontou muito bem na carreira mas decaiu, passou a fazer um cinema morno, perdeu a mão. Vá lá que Em Pedaços é um filme digno, mas deve bastante de sua força a Diane Kruger, que levou merecidamente prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel da mulher devastada pela perda do marido e do filho para o terrorismo. A questão é que agora ele vai para uma outra ponta, extrema, com The Golden Glove. A Luva Dourada. O título se deve ao nome de um bar decadente da cidade do diretor, Hamburgo, na trama de contornos reais que se passa nos anos 70. Mal chegam a ser boêmios as prostitutas velhas e os bêbados dos mais estranhos naipes os frequentadores dali. Akin não economiza na sordidez humana. Entre os habituais do local está Fritz, com seu rosto deformado, sua leve corcunda, seu tipo miserável. As mulheres, nem aquelas, o querem. Em vingança, ele as atrai para sua casa e as mata com requintes de crueza. O filme já abre com um cadáver sendo esquartejado.  Mas ouvimos, não vemos, e já basta. Fritz estoca alguns pedaços, e bem… Os assassinatos se repetirão ad nauseum, e um tanto quanto o Jack de Lars Von Trier, somos torturados a exaustão. Quem quiser, verá certo humor cínico. Uma família de gregos vizinha é sempre culpada por Fritz pelo mal cheiro no edifício. No início, ele se encanta com uma jovem de ar virginal. O espectador sabe que ela retornará em algum momento. Sua perversão, no entanto, se volta sempre as mulheres mais destituídas de beleza e vida. Difícil imaginar que o ator Jonas Dassler não seja lembrado para o prêmio de melhor ator. Ele está, digamos, repugnante.

Os outros dois filmes da competição não alteraram muito a rota até aqui. Da Macedônia vem Deus Existe, Seu Nome É Petrunya, em tradução literal. Em meio a uma celebração religiosa tradicional de uma cidade do interior, Petrunya ousa mergulhar no rio para apanhar o crucifixo jogado pelo sacerdote, num jogo destinado apenas para homens. Não o faz por ser religiosa. Com o feito, a moça quer afirmar seu valor, refazer sua auto estima, constantemente diminuída pela mãe por ser solteira e desempregada aos 30 anos. Sua atitude se torna um escândalo, com direito a uma repórter sensacionalista, e ela vai parar na delegacia pressionada por policiais e pela Igreja a devolver o objeto. Por coincidência, vi o filme ao lado de uma colega macedônia, que me contou ser fato real. Gostei, em especial porque a jovem vai ganhando contornos especiais, perspicaz e consciente de seu poder. Há quem veja uma possibilidade para algum prêmio depois que madame Binoche derrapou na coletiva do júri ao defender que se desse tempo para um julgamento justo de Harvey Weinstein, o poderoso produtor de Hollywood acusado de assédio sexual. Petrunya seria uma saída honrosa para calar quem não gostou do comentário.

Confesso que uma das minhas maiores resistências desse festival era enfrentar as duas horas e meia do novo filme da polonesa Agnieszka Holland, com seu cinema classicão e desinteressante. Bem, Mr. Jones não foge à regra do formato clássico de se contar um fato real histórico, costurando jornalismo e o período soviético de Stalin. E o faz com rigor, baseando-se na figura do jornalista galês Gareth Jones, o primeiro a testemunhar a fome, a miséria e a morte por inanição na Ucrânia de 1933. Vendido como um plano de modernização modelo pelo líder comunista, o projeto encobria um massacre. Jornalista respeitado, Jones consegue vencer a burocracia e o jogo político soviético, inclusive do colaborador anglo-americano e vencedor do Pulitzer Walter Duranty, e volta com material explosivo para publicar. Não consegue. A imprensa não acredita ou não enfrenta o poder e a diplomacia. Prefere denegrir Jones. Esse lança um arriscado último golpe e convence William Randolph Hearst – sim, o magnata de Cidadão Kane – a comprar o furo. E o resto é história. Tem valor, portanto, e com pique quase de um thriller, esse bom filme inesperado de Holland.

Berlinale 69 (3) – Um pouco mais de depressivos

Uma executiva entre a carreira, o romance com a chefe e a irmã esquizofrênica. Um homem solitário que se retira para as montanhas da Noruega perseguidos pelas lembranças boas (e más) do passado. Tudo muito ‘blue’, melancólico, um tanto baixo astral nessa manhã na Berlinale, que para combinar alternou chuva e sol. Mas em ambos os filmes não havia um final lá muito solar. Outro concorrente de língua alemã, mas da Áustria, estrutura seu drama todo em torno de Lola, que também corre muito como aquela sua antecessora popular alemã, mas por outras razões. Como consultora de negócios nos recursos humanos, trabalha numa filial estrangeira da empresa e a rotina não combina coma a exigência de uma irmã sempre internada por crises de depressão e tentativas de suicídio. Tem um caso com a chefe, mas isso não torna as coisas mais fáceis. Vai ao estresse e acredita ter alucionações com tantas demandas. Me pareceu um drama da crise pessoal burguesa, sem muita profundidade e sutileza. É correto e da protagonista, em boa atuação de Valerie Pachner, depende tudo.

Um pouco mais trabalhado é o novo filme do norueguês Hans Petter Moland, novamente com seu ator predileto Stelan Skasgard, que apresentou com ele aqui mesmo há dois anos In Order of Disappearance, sobre um pai em busca dos assassinos do filho. Agora Skasgard nos parece mais pacato, auto exilado num chalé de montanha depois da trágica morte da mulher num acidente do carro que ele conduzia. Passa, então, a recordar sua adolescência ao lado do pai que nos anos 40 abandonou a família por outra mulher. Gostei do registro rigoroso, das boas atuações juvenis, mas não me pareceu haver trama para duas horas de filme, em especial porque as reviravoltas são sugeridas e mesmo anunciadas pelo protagonista. Depois de ontem, a manhã foi mediana e dá conta até o momento de filmes bastante masculinos, em que as mulheres, quando líderes, surgem fragilizadas.

 

Berlinale 69 (2) – Traumas infantis e uma gravidez de tom fantástico

Não foi uma manhã fácil aqui no segundo (o primeiro para valer!) dia de competição. Como disse uma amiga e parceira de tantos anos, que faz falta por aqui nessa edição, a Berlinale e seus temas light! E o primeiro atende pela alcunha de garota-problema Benni. Ela se chama na realidade Bernadete, mas prefere um apelido masculino. No início de Systemsprenger, ou System Crasher no título em inglês, até titubeei se se tratava de um garoto, ou mesmo um ‘tomboy’, a menina-moleque, apesar do rosa presente na roupa– como diz uma nossa ministra por aí… Bennie é uma peste em corpo de criança. Hiperativa, violenta, não se adapta em família, ou melhor, a mãe não a quer pela rebeldia, temerosa que os dois filhos menores fiquem iguais a primogênita. Abandona a menina aos cuidados do Estado (a Alemanha, no caso), que tampouco consegue domá-la em casas de família provisórias ou abrigos para crianças. Entra em cena um educador especializado na rebeldia infantil. A coisa também degringola. É o primeiro competidor da casa e não se pode negar sua força, em boa parte estruturada na supreendente atuação da jovem intérprete Helena Zengel. Difícil que saia da premiação sem ser lembrada.

Velho conhecido dos festivais, o francês François Ozon também não facilitou. Traz em Gráce á Dieu o drama real de crianças abusadas em Lyon por um padre quando eram lideradas por ele no escotismo de uma tradicional escola católica. A personagem de Mevil Poupaud, otimo, puxa o novelo da tragédia rediviva ao decidir processar o cura em questão. Pai de familia bem sucedido, cinco filhos, é um cristão fervoroso e isso faz toda a diferença. Não odeia, ou não passou a odiar a Igreja, e continua com sua fé. Quer expulsar dela sacerodotes como aquele que o traumatizou. Quando o processo ganha notoriedade, uma onda de testemunhos se junta ao dele, e no mínimo quarenta casos, todos de homens já adultos, surgem. Lembra algo recente no nosso pobre Brasil? Como no caso de João de Deus, no caso em outra forma de perversão, basta uma voz para balançar as estruturas. O exemplo frances fez ecooar diversos casos de pedofilia na Igreja pelo mundo. Criou-se, como é comum, uma associação voltada as vítimas. Mas Ozon opta por algumas delas e isso faz o poder do filme. Mas como no drama da alemã Nora Fingscheidt, há aqui também uma certa delonga e exagero de tom que faz os filmes enfraquecerem a horas tantas. Certa repetição de situações que fariam melhor se mais enxutas.

Curioso que não se sente isso no terceiro filme do dia, Ondog, da Mongólia. O título do drama do diretor Wang Quanan diz respeito a um ovo de dinossauro, o primeiro a ser descoberto no mundo no deserto daquele país pelos americanos. Uma campesina solitária que seduz um jovem de 18 anos justificará a referencia numa gravidez simbólica, quase fantástica. Mas o que detona o filme, ao contrário, é a morte, um assassino. Abre com o corpo de uma mulher despida e abandonado no meio do nada das estepes mongóis. A polícia é acionada. Nada a ver com um thriller, mas tudo está ali com alguma proposta. O filme é belíssimo e talvez para um olhar mais apressado, lento. Me lembrou em alguns momentos um filme do turco Ceylan, Era uma Vez na Anatólia, e outro filme mongol tão badalado quanto este poderá ser, O Estado do Cão. Quem sabe um festival brasileiro se anime a levá-lo. Agora saio para ver o primeiro filme brasileiro, Querência, de Helvécio Marins.

 

 

Berlinale 69 e a bondade de estranhos

É muito provável que a diretora Lone Scherfig tenha adotado a máxima de Blanche Dubois em Um Bonde Chamado Desejo para batizar seu novo filme, The Kindness of Strangers. Não será a única citação cinematográfica no drama da jovem mãe interpretada por Zoe Kazan que põe os dois filhos pequenos no carro e ruma para Nova York fugindo do marido violento. Por alguns minutos, entre pequenos golpes para conseguir roupas e comida para ela e os garotos, ela evoca Audrey Hepburn como Holly Golightly em Bonequinha de Luxo. Bem capenga, diga-se, como está sua vida naquele momento, fugitiva não acolhida pelo sogro e que, sim, dependerá da caridade alheia.

O filme inaugural da 69o Berlinale exibido hoje é esse quebra-cabeça de personagens solitárias (e solidárias, ao menos) a deriva. Com problemas emocionais, de relação intricada na grande metrópole, sabe-se desde o início que vão cruzar seus destinos em algum ponto. Essa é a questão mais complicada. Um tanto desconjuntada, a trama não evolui, tem altos e baixos, mais baixos, tipos sem sustentação dramática, e um tom de humor que ajuda a quebrar a monotonia. Não foi uma grande abertura para a última edição de Dieter Kosslick, há 18 anos a frente da direção do festival.

Mas convenhamos que desde uns três anos ao menos não ocorre uma edição de bom calibre. Há bons filmes esparsos, ótimas descobertas vindas de vários países e os latino-americanos sempre tiveram lugar de honra por aqui, na competição e nas seções paralelas. Ano passado o Paraguai trouxe a jóia Las Herederas, premiado inclusive pelos júri de críticos da Fipresci, colegiado independente em que faço minha estréia esse ano. O chileno Sebastian Lelio ‘é habitué por aqui. Fez sucesso com Glória e A Mulher Fantástica e desta vez integra o júri oficial comandado por Juliette Binoche.

Foi na coletiva aos jornalistas hoje pela manhã que o grupo deu o tom político, aberto as diferenças de gêneros e tolerância, com o qual Dieter Kosslick quer marcar sua despedida. Deve fazer um anúncio propondo essa visão para os próximos tempos do festival, tempos esses nada afeitos a bondade e caridade. No mais é aguardar os próximos selecionados da competição, que costuma evoluir na primeira metade do evento. E não esquecer da boa safra de filmes brasileiros por aqui, inclusive o Marighella de Wagner Moura (na competição, mas fora do concurso), que promete esquentar a temperatura ainda suportável por aqui de 3o graus.

Menos é mais na mostra potiguar

Vá lá que seja por dificuldades financeiras, mas Eugenio Puppo e Matheus Sundfeld sempre optaram por um cardápio enxuto na curadoria da Mostra de Gostoso.  Não foi diferente na quinta edição finalizada anteontem na Praia de Maceió, onde o público põe o pé na areia para acompanhar as exibições dos filmes. Se o calendário encolheu um dia, compensou-se com um bom nível de competidores, alguns já com trajetória reconhecida em festivais nacionais e internacionais, caso do longa “Meu Nome É Daniel” e do curta “Guaxuma”, os vencedores eleitos pelo público — que ressalte-se é formado na maioria por locais, portanto espectadores em formação — que é quem determina a preferência na mostra. Num contraponto interessante e estimulante ao evento, foi criado este ano o Prêmio da Imprensa, outorgado pelos jornalistas e criticos presentes. “Catadora de Gente” e “Inferninho” foram os escolhidos como melhor curta e longa, respectivamente. Havia também a escolha entre os curtas do Coletivo Nos do Audiovisual, uma fornada de nada menos que cinco projetos da garotada local, e o preferido por “Filho de Peixe”. Um olhar documental sobre a tradição da pesca na vila de pai para filho, com seus encantos e atuais dificuldades.

Não comentei o longa de Guto Parente e Pedro Diógenes, último da competitiva a ser exibido e que já havia visto no Mix Brasil, em São Paulo. “Inferninho” seria um filme filiado a particular linguagem e estética do coletivo cearense Alumbramento, fundado pelos parceiros e primos com seus respectivos irmãos em Fortaleza, não fosse saber na conversa com os realizadores em Gostoso que a parceria acabou. Mais determinante talvez seja haver neste novo projeto a colaboração com um grupo teatral local que faz a diferença — ainda que a vertente cinematográfica ainda sugira uma marca da antiga sociedade. Isso se dá  sobretudo no universo da trama, um barzinho decadente que reúne nas noites uma pequena mas fiel clientela em torno da proprietária Deusimar, de identidade trans. A chegada ali de um marinheiro desconhecido que se interessa pela dona a faz redescobrir um sentido de vida, ao mesmo tempo que a especulação imobiliária bate a porta trazendo um dilema.

Ao explorar com afeto alguns temas que hoje parecem possíveis apenas num reduto tão perdido no tempo como este, a exemplo da amizade e solidariedade entre iguais, o filme alcança sua maior força. Mas não me parece ir além de uma proposta, em especial na construção frouxa dos diálogos, processo que o teatro poderia aprofundar. Há criativas exceções, como com o simpático  personagem fantasiado de Coelho, espécie de conselheiro de Deusimar que a chama para a realidade. Sempre foi a tônica do coletivo Alumbramento trabalhar referências cinematográficas, como no caso óbvio aqui do Querelle de Brest filmado por Fassbinder, e uma estética de exageros kitschs que com a maturidade de seus (ex-) integrantes poderia desembocar agora em novos caminhos.

‘Meu Nome É Daniel’ vence 5a Mostra de Gostoso

Como se intuía, a empatia e força do relato de Daniel Gonçalves conquistou o público do festival, responsável por atribuir os principais prêmios; ‘Guaxuma’ foi o curta favorito. Seguem os premiados:

Melhor Longa-metragem – Júri Popular
“Meu Nome é Daniel”
Direção: Daniel Gonçalves
Melhor Curta-metragem – Júri Popular
“Guaxuma”
Direção: Nara Normande
Menção Honrosa
“Sócrates”
Direção: Alex Moratto
Prêmio Elo Company de distribuição
“Teoria Sobre um Planeta Estranho”
Direção: Marco Antônio Pereira
Prêmio Mistika de finalização
“P’s”
Direção: Lourival Andrade
Prêmio Imprensa – Melhor Filme do Coletivo Nós do Audiovisual
“Filho de Peixe”
Direção: Igor Ribeiro
Prêmio Imprensa – Melhor Curta-metragem
“Catadora de Gente”
Direção: Mirela Kruel
Prêmio Imprensa – Melhor Longa-metragem
“Inferninho”
Direção: Guto Parente e Pedro Diógenes

Daniel, Fabiana e Maria Tugira: da nobreza da ‘anormalidade’

Ao apresentar “Meu Nome É Daniel” na segunda noite competitiva da Mostra de Gostoso, o montador Vinicius Nascimento lembrou que o documentário põe em xeque o conceito da normatividade, ou seja, do que se considera normal. No caso, trata-se de uma deficiência congênita que a medicina não soube, pelo menos até agora, diagnosticar e faz do jovem Daniel de Castro Gonçalves ter limitações de movimento, de fala e de  expressão. Aos 34 anos, nascido na classe média fluminense, com poder aquisitivo suficiente para se tratar, apoio e dedicação incondicional da mãe, ele não aceita o olhar piedoso e preconceituoso da sociedade. É o primeiro a reverter essa visão com auto-ironia, articulação, inteligência e até algum humor cinico que transfere a direção do filme. Logo no inicio, com o uso de imagens familiares de vídeo, ele relembra quando, criança, numa apresentação infantil fantasiado de minhoca, rebateu um comentário de `tadinho’ ouvido de um espectador com um malcriado ‘tadinho ‘é o caralho!`

O filme é esse relato em primeira pessoa que busca rever uma trajetória muito particular mas também apontar que o conceito de normal/anormal é  bastante relativo. Como se testemunha em situações das mais diversas, Daniel vive uma rotina normal, ou quase. Na primeira tomada, sob protestos da mãe, ele insiste em pela primeira vez sair com o carro da garagem onde mora. Garante estar seguro, mas súbito, bate. Bem, quem de nós, certos da habilidade motora, já não fez o mesmo. Nesse sentido, o rapaz parece ter muito mais autocrítica e conhecimento de sua condição do que quem se vê como a norma social. O filme, muito cativante e estruturado sem nenhum apelo de indulgência, trabalha nesses polos entre o olhar do outro e aquele que o recusa,  a todo momento nos tirando do espaço de conforto. Estreou ao encerrar o mais recente Olhar de Cinema de Curitiba com uma platéia que respondeu com entusiasmo a proposta, e em especial por conhecer o protagonista, que neste momento defende sua cria no festival de documentários de Amsterdã. Se o filme e seu protagonista são especiais, é somente no sentido de uma superioridade na análise de um tema sobre o qual ainda se tem muito a refletir.

Em outra vertente, a identitária quanto a sexualidade mas não apenas ela, pode-se incluir a protagonista que Bruna Laboissiere nos traz em seu documentário na mesma questão do que é norma social. Fabiana, a personagem-título, ‘é uma motorista de caminhão de perfil distinto do que se pressupõe na categoria. Transexual, relaciona-se com mulheres, embora aqui e ali deixa soltar que exerce sua sexualidade de acordo com situações inesperadas. Inesperado é essa maravilhosa figura conceder a câmera da diretora uma franqueza e honestidade possivel talvez apenas ‘aqueles que não temem nem devem nada a sociedade os condenam. Fala de seus amores, suas dúvidas, inclusive a profissão e ao futuro, entre a cabine do caminhão e em poucas paradas da viagem pelas estradas. Há de se insistir um pouco nessa toada por vezes de quebras narrativas, conversas entrecortadas, um registro que demora a criar empatia, mas que resulta a serviço de bem maior que ‘e conhecer Fabiana.

Bem mais enxuto e direto ‘é o curta ”Catadora de Gente”. A gaúcha Mirela Kruel “fecha” sua câmera em Maria Tugira Cardoso, catadora de lixo em Uruguaiana que mais uma vez desmonta conceitos do que se possa imaginar sobre esses sobreviventes dos resíduos da sociedade. Articulada, culta, narra como ao ler Machado de Assis e Jorge Amado em livros encontrados no aterro sanitário construiu seu sabe que agora compartilha com colegas numa iniciativa voluntária. Com Daniel e Fabiana, forma o trio de um Brasil que não parece enxergar neles uma resistência ao exílio social.

Perdas e ganhos na mostra mais gostosa do Brasil

Começou ontem à noite literalmente na areia da Praia de Maceió mais uma edição da Mostra de Cinema de Gostoso, que deve seu curioso nome a vila de São Miguel do Gostoso, ao norte de Natal/RN. É o quinto ano não consecutivo do evento idealizado pelos paulistas Eugenio Puppo e seu parceiro Matheus Sundfeld. Em 2016, a dupla não conseguiu apoio financeiro e a mostra teve de ser cancelada. No ano passado recuperou seu fôlego e agora de novo está  lá , encravada na areia, a tela gigante com projeções de excelente qualidade, cadeiras confortáveis tipo praianas e bons filmes nacionais, curtas e longas-metragens, com curadoria dos organizadores. Além do céu estrelado e a brisa de sempre, com uma lua crescente em particular marcando a abertura. No mais, o resultado de um projeto raro no panorama de festivais brasileiros com a inclusão desde o inicio de jovens da comunidade a partir de oficinas de audiovisual. Ou seja, só ganhos. E ao que se referem as perdas do título?

Nesta manhã, durante os debates dos quatro filmes exibidos ontem, um participante notou, com razão, que os quatro selecionados tratavam da noção  de perda. Perda de um ente querido, de um sentido de vida, até mesmo da dignidade. Como acontece todos os anos, um dos curtas exibidos tem produção local dessa garotada que Puppo e Matheus tem formado por aqui, o Coletivo Nos do Audiovisual. Quem acompanha o projeto desde o início, nota a maturidade  de Derradeiro, dirigido por Renata Alves, uma dessas crias locais. Um velho morador, Seu Luiz, sofre com a perda de memória, cuidado pela filha, e com rotina de quem nao tem muito mais a fazer além de passear com o cão de estimação na praia, olhar o mar. Filme contemplativo, feito de silêncios, que denota certa influência , no caso ficcional, da produção vizinha paraibana comandado por Torquato Joel, professor de nomes presentes nos créditos. Aos poucos, a turma vai dialogando tambem com uma jovem geração nordestina.

Alem de Derradeiro, apenas Codinome Breno faz sua estréia nacional. Produção potiguar, outra das preocupações da mostra, trabalha uma tendencia documental de revisar questões pessoais a partir de um espectro político, aqui no senso estrito da expressão. O diretor Manoel Batista mexe num tabu familiar para lembrar o pai, o jornalista mineiro Jorge Batista Filho, que militou em Belo Horizonte na organização política Colina nos anos da ditadura civil e militar. Preso, corria risco de morte quando foi libertado e decidiu ir para Natal, onde tinha um irmão, e lá constituiu família. Essa memória permaneceu em sombras também  devido a uma tragédia. Em 1986, os pais de Manoel e seu irmão mais velho morreram num acidente de carro quando viajavam para passar o Natal com os parentes de Minas Gerais. O diretor tinha apenas 8 anos. O curta chega assim a uma terceira vertente ao lembrar o primogênito Breno, batizado em homenagem ao militante e amigo de seu pai, Carlos Alberto Soares de Freitas, de codinome Breno. Outra companheira de ambos na militância de esquerda era Dilma Rousseff. Como em Torre das Donzelas, o essencial documentário de Susanna Lira, a ex-presidenta também dá  um depoimento articulado aqui, ressaltando que prefere lembrar não apenas Jorge Batista, mas sua mulher, Ana Walderez, figura emblemática no grupo. Bonito filme e um relato a ser levado em conta num período de alucinação e falta de memória coletivas.

Por fim, o curta Guaxuma e o longa Sócrates são filmes que vem fazendo uma belíssima carreira nos festivais nacionais e internacionais. O primeiro é uma incomum, por aqui ao menos, junção de documentário e animação. Nara Normande relembra pela técnica com o uso de areia, originalíssima e de belo efeito, uma amizade de infância com fim igualmente trágico. Tara, essa amiga que a acompanhou nas descobertas tao caras a puberdade, morreu em acidente de trânsito aos 25 anos. Deixou desolação mas também recordações afetivas, em especial as temporadas com as famílias das duas na praia alagoana de Guaxuma, para onde Nara retorna com imagens e fotos dessa ligação. Homossexual assumida, Nara ainda dá contexto bem humorada as descobertas do período. A temática anunciou a condição e os dilemas do protagonista Sócrates, no longa de estréia de Alex Moratto, que levou vários prêmios no recente Festival Mix Brasil. Na verdade, o adolescente levado com impressionante rigor pelo novato Christian Malheiros não tem grandes questões com sua sexualidade, que o leva a se interessar (e ter a primeira decepção amorosa) com um colega de trabalho. Pena, sobretudo, como jovem pobre de periferia da Baixada Santista, morador de um bairro de palafitas, que ao ver morrer a mãe de forma súbita, tem que se virar para sobreviver, trabalhar com biscates e sofrer com o descaso do pai que abandonou a família. Ou seja, está prestes a perder também a dignidade. O filme tem suas imperfeições, talvez um certo exagero nos acontecimentos que beiram uma tragédia juvenil e dao sentido ao título mais da noção grega do que do futebol e seu ídolo que batizam Sócrates. Trata-se de produção pequena, baixo orçamento, mas com engenharia e criação artística ligada ao Instituo Querô, ONG de Santos que também promove a inclusão da moçada local por meio do cinema. Tudo a ver, portanto, com a proposta da Mostra de Gostoso.

‘Temporada’, de André Novais, vence Fest Brasília

Mostra Competitiva

Longa-metragem

Melhor filme (Prêmio Técnico Dot Cine): Temporada

Melhor direção: Beatriz Seigner (Los Silencios)

Melhor ator: Aldri Anunciação (Ilha)

Melhor atriz: Grace Passô (Temporada)

Melhor ator coadjuvante: Russão (Temporada)

Melhor atriz coadjuvante: Luciana Paes (A Sombra do Pai)

Melhor roteiro: Ilha, Ary Rosa e Glenda Nicácio

Melhor fotografia: Temporada, Wilsa Esser

Melhor direção de arte: Temporada, Diogo Hayashi

Melhor trilha sonora: Bixa Travesty

Melhor som: A Sombra do Pai, Gabriela Cunha

Melhor montagem: A Sombra do Pai, Karen Akerman

Júri Popular

Melhor longa-metragem (Prêmio Petrobras de Cinema e Prêmio Técnico Canal Curta!): Bixa Travesty

Prêmio Especial do Júri

Longa-metragem: Torre das Donzelas

Menção honrosa do Júri

Bixa Travesty, pelo posicionamento e impactante apresentação da dupla Linn da Quebrada e Jup do Bairro

Curta-metragem

Melhor filme (Prêmio Técnico Dot Cine): Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados

Melhor direção: Nara Normande (Guaxuma)

Melhor ator: Fábio Leal (Reforma)

Melhor atriz: Maria Leite (Mesmo com tanta agonia)

Melhor ator coadjuvante: Uirá dos Reis (Plano Controle)

Melhor atriz coadjuvante: Noemia Oliveira (Eu, minha mãe e Wallace)

Melhor roteiro: Reforma, Fábio Leal

Melhor fotografia: Mesmo com tanta agonia, Anna Santos

Melhor direção de arte: Guaxuma, Nara Normande

Melhor trilha sonora: Guaxuma, Normand Roger

Melhor som: Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, Nicolau Domingues

Melhor montagem: Plano Controle, Gabriel Martins e Luisa Lana

Menção honrosa de atriz coadjuvante: Mesmo com tanta agonia, Rillary Rihanna Guedes

Júri Popular

Melhor curta-metragem (Prêmio Técnico CiaRio/Naymar): Eu, minha mãe e Wallace

Prêmio Especial do Júri

Curta-metragem: Liberdade

Prêmio Abraccine

Melhor Filme Curta Metragem: Mesmo com tanta agonia

Melhor Filme Longa Metragem: Los Silencios

Prêmio Conterrâneos

O outro lado da memória, de André Luiz Oliveira

Prêmio Técnico DOT Cine – Longa-Metragem

Temporada

Prêmio Marco Antônio Guimarães

O outro lado da memória, de André Luiz Oliveira

Prêmio Saruê

Linn da Quebrada e Jup do Bairro, por Bixa Travesty

Prêmio Técnico Canal Curta!

Bixa Travesty

Prêmio Aquisição Canal Brasil – Melhor Filme Curta Metragem

Mesmo com tanta agonia

Prêmio Técnico CiaRio/Neymar

Eu, minha mãe e Wallace

Prêmio Técnico DOT Cine – Curta-Metragem

Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados

Prêmio Zózimo Bulbul

Prêmio Zózimo Bulbul – Fest Filme Fest Uni

Impermeável Pavio Curto

Prêmio Zózimo Bulbul – Melhor Filme Curta Metragem

Eu, Minha Mãe E Wallace

Prêmio Zózimo Bulbul – Melhor Filme Longa Metragem

Ilha

Mostra Brasília

Prêmios do Júri Oficial

Melhor longa-metragem (Prêmio CiaRio/Naymar): New Life S/A

Melhor curta-metragem (Prêmio Aquisição Prime Box Brasil): Entre Parentes

Melhor direção: André Luiz Oliveira (O outro lado da memória)

Melhor ator: Murilo Grossi (New Life S/A)

Melhor atriz: As presidiárias do filme Presos que Menstruam, representadas por Naiara Lira

Melhor roteiro: Para minha gata Mieze, Wesley Gondim

Melhor fotografia: Entre Parentes, Alan Schvarsberg

Melhor montagem: A Praga do Cinema Brasileiro, Zefel Coff

Melhor direção de arte: O Outro Lado da Memória, Moacyr Gramacho

Melhor edição de som: Riscados pela Memória, Olívia Hernandez

Melhor trilha sonora: O Outro Lado da Memória, Vinícius Jibhajan

Júri Popular

Melhor longa-metragem (Prêmio Petrobras de Cinema e Prêmio Estúdio Plug In): O outro lado da memória

Melhor curta-metragem (Prêmio Técnico CiaRio/Naymar): Terras Brasileiras

Prêmio Petrobras de Cinema

O outro lado da memória

Prêmio Técnico Estúdio Plug.in

O outro lado da memória

Prêmio Técnico CiaRio/Naymar

Curta-metragem: Terras Brasileiras

Longa-metragem: New Life S/A

Prêmio Aquisição Prime Box Brazil

Entre Parentes

Mostra Caleidoscópio

Prêmios Caleidoscópio, Técnico VOD Tamanduá e Aquisição Prime Box Brazil

Os Sonâmbulos

Fest Uni

Melhor Direção Fest Uni

Flores, de Vado Vergara e Henrique Bruch (PUC/RS)

Melhor Filme Juri Popular Fest Uni

A casa de Ana, de Clara Ferrer e Marcella C. De Finis, da Universidade Federal Fluminense

Melhor Filme Fest Uni

Capitais, de Kamilla Medeiros e Arthur Gadelha, da escola Porto Iracema das Artes, do Ceará

Menção Honrosa Fest Uni

Um lugar ao sul, de Gianluca Cozza (Universidade Federal de Pelotas) e De vez em quando, quando eu morro, eu choro, de R.B. Lima (Universidade Federal da Paraíba)

Futuro Brasil

Prêmio Técnico Mistika, Prêmio Técnico Cinemática Audiovisual e Prêmio Técnico Cinecolor

Ontem havia coisas estranhas no céu, de Bruno Risas

Prêmios Ambiente de Mercado

Prêmio CineBrasil TV [pré-licenciamento]

Selvagem – Diego da Costa – Pietà Filmes

Prêmio Rio2C [2 credenciais]

Carolina, Conceição e nós todas – Gabriele Pereira – Space4

Nosso Amor de Hoje – Daniel Calil – Pira Filmes

Prêmio MIPTV [2 credenciais]

O Criador de Tudo  – Tiago Tambelli – Lente Viva Filmes

Prêmio Rotterdam LAB [1 credencial]

Passagem Esperança – Fernando Segtowick – Marahu Filmes

Prêmio Imersão Criativa na Chapada dos Veadeiros/GO

Ecos do silêncio – André Luiz Oliveira – ASACINE Filmes