Veneza (6) –  Musk destrinchado. E concorrentes que dialogam nas propostas

Uma breve pincelada antes de entrar no filme de Tsai Ming-Liang. Ontem à noite foi a vez de um dos desafios da programação deste festival, o documentário de quatro horas sobre Elon Musk, dirigido por Alex Gibney. O diretor é um craque nas bios, como a que realizou sobre Steve Jobs. Cada fase da história tem seus heróis e Musk é para muitos o do nosso tempo. A produção para HBO recupera o inicio da trajetória, a herança da personalidade paterna bastante belicosa, suas conquistas e fracassos como as tragédias provocadas pelos carros que se auto conduzem. Também sua obsessão por se reproduzir, ter filhos, as inúmeras namoradas e os diversos casamentos. Gibney usa a IA para criar a figura do bilionário em depoimentos. Há um Musk diferente para chamar de seu nesse retrato de uma personalidade complexa, inclusive aquela que apoia a extrema-direita, que imagens com Bolsonaro nos fazem lembrar.

‘Musk”, o doc, não está na competição mas “Bunker” sim e nao por acaso foi exibido hoje pela manhã. Um bilionário quer contratar o famoso arquiteto interpretado por Javier Bardem para construir um bunker no Havaí. Nem é necessário nomeá-lo quando sua imagem surge numa conversa online com o arquiteto. O projeto é um dos motivos de crise entre ele e a mulher, Penelope Cruz. Sim, o casal símbolo da vida real na Espanha, no cinema mundial, atua aqui num drama um tanto óbvio em que entram desconfianças conjugais e um vizinho com jeito de psicopata. O diretor Florian Zeller fez melhor com “Pai’.

Por fim, o competidor norte-americano Company traz de volta à direção o também ator Casey Affleck. Três contos se sobrepõem numa metalinguagem quando uma estranha — como no filme italiano exibido ontem – bate na porta da casa onde ocorre uma reunião social, e convidada a permanecer, passa a narrar uma história sobre jovem resgatada da neve por um velho solitário. Por fim , esta passa a relatar trama mais antiga de um jovem em busca de vingança. Bastante pretensioso no dialogo, caminha para uma fantasia com tons de terror, e se não chega a aborrecer, também não empolga. 

Veneza (5) – Kore-eda delicado, e só, e um terror (?) italiano, em vários sentidos

Craque na direção de crianças e adolescentes, o japonês Hirokazu Kore-eda tem se mostrado também um prodígio na produção de longas. No último Festival de Cannes, emplacou na competição Sheep in the Box. A criança no caso é um robô humanoide em trama levada em futuro próximo. Quatro meses depois do evento francês, eis o cineasta com outro filme concorrente em Veneza, Look Back. Suas protagonistas, agora humanas, são duas meninas do ensino fundamental obcecadas por mangá. Querem se tornar grandes mestres da tradicional história em quadrinhos do Japão. 

Em especial a determinada Fujino, que atravessa as estações do ano — o critério adotado da passagem do tempo — trancada em seu quarto desenhando, assim como durante as aulas na escola. Com uma colega que a tem como referencia forma uma dupla e as duas mostram seus trabalhos a um editor. Logo publicam sua primeira criação e as encomendas começam a chegar. Mas se Fujino é esperta, despachada, a outra é tímida, tem problemas de autoestima e convívio social. Surge uma desavença sobre quais caminhos tomar, ir para a academia de belas artes ou um estúdio famoso? Fujino vai para este, e já jovem adulta, passa a adaptar seus desenhos para séries animadas, enquanto a outra, no estudo formal, será vitima de fato trágico. 

O prelúdio é um pouco longo, e os primeiros passos das garotas logo perde o apelo, o encanto de mostrar o valor prodigioso das meninas nos traços. Essa característica de explorar a ingenuidade e ao mesmo tempo a genialidade infantil é recorrente no cinema do japonês e surge com mais força em “Ninguém Pode Saber’,  ‘O que Eu Mais Desejo” e “Monsters”, para citar alguns trabalhos de maior fôlego dramático. Falta aqui a perspectiva também social presente nos longas anteriores, que poderia vir com a maturidade das personagens. Mas há sempre a delicadeza marcante de Kore-eda a nos lembrar que ao menos no cinema ainda se pode sonhar.

Carregado e caricato (em italiano e em português)

Delicadeza, aliás, não é com o diretor Paolo Strippoli. Esta manhã ele apresentou L’Estranea, um dos cinco candidatos italianos ao Leão de Ouro, se considerarmos a co-produção de Bechis, Retorno a Buenos Aires. Bem… é possivel definir o filme como terror psicológico, com um tanto de fantasia, mas também realismo, coquetel que resulta um tanto desconjuntado. Sobretudo, carregado. Carregadíssimo, na verdade, tirando partido de estética e efeitos sonoros sempre acima do tom para produzir mal estar no espectador. 

Pois a mim provocou fastidio. A família pugliesa do casal formado por Jasmine Trinca, também protagonista de Nanni Moretti, e Adriano Giannini, interprete principal de Bechis, é do tipo anúncio de margarina. Ou melhor, de massa italiana. São ricos, bonitos e tem dois filhos com grandes expectativas. O garoto é um pré-adolescente craque no futebol e xodó do pai. A garota, ainda criança, acaba de vencer um concurso para publicidade da Barilla, para a mãe indício de uma bela carreira de atriz. Falta o cachorro. Ele vem de um canil público. Durante uma festa, acontece a tragédia. Numa abocanhada, ele estraçalha a perna da menina. 

No hospital, enquanto aguardam a operação, a mãe reza na capela. Surge a mulher misteriosa. É Valeria Bruni Tedeschi em mais um de seus papéis estranhos, dessa vez literal. A estranha propõe um pacto à mãe desesperada. A perna recuperada da filha em troca da deformação do filho belo e esportista. Ele engordará, perderá a mobilidade. Fim de carreira de futebolista, portanto. O espectador já entende quem é essa figura que rondará todo o restante da trama com propostas de trocas com humor, digamos, peculiar. Nessa escolha de Sofia sobrenatural, a mãe consente. Determina um futuro em espiral — como aponta o título em inglês — que é lembrado em flashback num encontro decisivo entre mãe e filha. Até o desfecho, busca-se a todo custo as surpresas e os sobressaltos que parecem ter agradado os entusiastas do gênero, ou gêneros, visto os aplausos calorosos que encobriram as poucas vaias.  Mas não se pode negar que o filme sacudiu certa pasmaceira trazida por Eco Chamber, ainda que por caminhos tortos. 

Veneza (4) – O primeiro candidato forte ao Leão e manhã irregular com um inédito Bertolucci decepcionante

Ontem à noite foi exibido o concorrente mais instigante e complexo até agora. Possible Love é o título em inglês do filme do sul-coreano Lee Chang-dong, do ótimo Em Chamas. Abre com um casal e seu filho pequeno rumando ao velório do irmão do marido. Há certa tensão no ar sobre a decisão de ir ou não à cerimônia, que aos poucos se esclarece pela resistência da família em recebê-lo e o medo que ele se embriague. Nos fillmes sul-coreanos não falta muita comida e bebida nas ocasiões alegres, mas pelo jeito também nas pompas funebres. Num canto do espaço onde os convidados convivem, uma jovem registra tudo com sua câmera. O protagonista a questiona. Ela é documentarista e está fazendo um filme sobre a vida de operários. Ele é um deles, assim como a mulher, mas foi demitido depois de integrar uma greve quando a fábrica em que trabalhava passa por uma reestruturação para ficar mais enxuta. Mais, num embate com a polícia ele fica seriamente ferido. Vira um trauma para o agora desempregado e sua vida se desestabiliza.

É um quadro e tanto a ser explorado pela diretora. Persistente, ela consegue que a mulher aceite dar depoimento e sua câmera entra no cotidiano da família, sempre sob resistência do marido. E há o aspecto mais determinante. A realizadora vem de uma classe média de comerciantes e é casada com um herdeiro envolvido com o mercado financeiro. Milionária, portanto. Aqui chegamos ao contexto principal que o também roteirista Chang-dong propõe. Há sempre uma atmosfera de mal estar nessa diferença de classes, na percepção de boa índole da diretora de que seu projeto valoriza aqueles trabalhadores, de que os está ajudando. Do outro lado, se o marido se mostra desconfiado e arisco para falar, sua mulher mergulha com certa ingenuidade no projeto, encantada também pela sedução daquele homem símbolo de beleza e sucesso. O confronto vem quando são convidados para um fim de semana na casa de praia do rico casal.

O filme é longo, com quase três horas, um tempo bem utilizado na elaboração de pistas falsas que Chang-dong joga todo o tempo para nos fazer crer num embate súbito. Como no início, muitos dos fatos tratados vão sendo esclarecidos aos poucos, como no envolvimento do operário na greve, a invasão da polícia, o desaponto com os companheiros. Na abertura, uma cartela anuncia o décimo dos dez mandamentos, ‘não cobiçarás a casa, a mulher ou os bens do próximo”, e outra arremata nos créditos finais o tributo ao polonês Krzysztof Kieslowski e seu decálogo visual realizado sobre os escritos bíblicos. Fácil imaginar que o diretor trata aqui de uma realidade maior do que se passa em seu país, e na verdade, no mundo. Um filme  bem estruturado, e o júri oficial faria bem em reconhecê-lo na premiação dos Leões, e mesmo nas ótimas interpretações do quarteto. 

Manhã irregular 

Já os concorrentes na manhã deste domingo desafinaram entre si e dos demais exibidos até aqui. O mais aguardado era The Echo Chamber, de Andrea Pallaoro, e a expectativa tinha nome e sobrenome de estirpe no cinema italiano. Trata-se de um roteiro não filmado de Bernardo Bertolucci, morto em 2018, agora levado à tela por dois roteiristas. Difícil saber o quanto houve de interferência no original, mas por certo se pode encontrar temas, afinidades, que ele trabalhou em seus últimos projetos. O formato ‘huis clos’ de seu filme derradeiro, Eu e Você, retorna aqui na trama toda levada no apartamento do protagonista, um produtor musical interpretado pelo italiano Luca Marinelli, estrela local do momento (da série ‘Mussolini’, por exemplo). Ele está às voltas com dores agudas provocadas por uma hérnia de disco e quem o ajuda é uma médica e fisioterapeuta (Alicia Vikander). Receita a ele opióides, e conforme engatam um relacionamento, o vício também se impõe a ponto de uma overdose. 

É a abertura do filme, que corre em flashback, enquanto também mostra o esforço presente do rapaz para se manter longe da droga. O trauma lhe custou o distanciamento da namorada, e a solidão é quebrada por uma cantora veterana esquecida (Susan Sarandon) que ele busca relançar. Apesar dos bons atores, o filme caminha com frieza, com tendência a um tom melodramático que tira a complexidade existencial que o Bertolucci de “O Céu que nos Proteje” buscava imprimir na tela.      

O segundo concorrente matinal vem da Dinamarca. Woman Unknown, da cineasta May El-Toukhy, elevou um pouco o nível com um drama melhor estruturado, correto, e com inspirações que nos remete à literatura e ao próprio cinema. Na Copenhague de 1945 recém-saída da ocupação nazista, uma babá trabalha na casa de um industrial viúvo, posto que está prestes a abandonar para se casar com ele. Nas ruas, a Resistência faz justiça matando os colaboradores do Terceiro Reich e humilhando mulheres que serviram aos alemães. A futura esposa é assombrada por um passado que um rapaz das forças resistentes a relembra ao encontrá-la por acaso. A suástica é pintada como aviso da porta da residência.

Tem início um clima de tensão, de mistério, que desestabiliza essa “sucessora”. A personagem de Susan Sarandon no filme italiano cita Henry James em certo momento, mas caberia aqui uma referência a sua obra “A Volta do Parafuso”, assim como a Daphne du Maurier, e às adaptações cinematográficas correlatas. É outro tipo de passado que atormenta a protagonista, mas querer que a noiva case com o vestido que foi da morta diz muito sobre suceder uma sombra sempre presente. Bonito filme e mais uma interpretação forte, no caso de Mathilde Arcel, para o prêmio feminino. 

Veneza (3) – Um Moretti que envelhece romântico e um Gitai na urgência dos tempos

Um pouco no atropelo decidi não lutar por ingresso na última hora para assistir “Primetime’, de Lance Oppenheim, concorrente norte-americano com Robert Pattinson. Há alguns anos o festival adota a reserva de ingressos para a imprensa no formato online, com data e horário (da Itália!) estipulados em quatro etapas. Se uma dessas ocasiões bater com os deslocamentos para a Europa, vôos etc, pfui… Foi o caso com “Primetime”, badaladíssimo não pelo diretor Lance Oppenheim, mas pelo protagonista Robert Pattinson. Ainda vou tentar recuperar, e o filme certamente terá sua carreira no Brasil ou no streaming. Enfim, não achei que me dei mal. No mesmo horário encaixei o novo Amos Gitai, The Road to Jericho. A Estrada para Jericó integra seção paralela. Renata Almeida levará o filme para sua Mostra São Paulo, onde o israelense é aquilo que se convencionou chamar de amigo da Mostra. Diretores que criaram um vínculo também de amizade, de respeito pelo evento. Assim como lá, aqui também ele é um habitue. E nesse momento de massacre dos palestinos por Israel, genocídio sim, Gitai é ainda mais necessário, fundamental. 

Não é desmerecer o filme chama-lo de menor, no sentido da proposta e produção envolvida. É um manifesto de urgência na forma de uma colagem que utiliza excertos de seus próprios filmes, leituras de textos e algumas filmagens originais para dar conta da complexa situação no Oriente Médio. Atores, diretores, convidados e familiares surgem em imagens e com voz em off numa viagem sensorial mas também literal pelo deserto, rumo à cidade tão simbólica da Bíblia. São nomes que já filmaram com Gitai, como as francesas Irène Jacob e Jeanne Moreau, o diretor Samuel Fuller em leitura de uma passagem do historiador da Antiguidade Flávio Josefo, citações do poeta palestino Mahmoud Darwish… Num dos trechos de arquivo, Gitai entrevista o premiê israelense Yitzhak Rabin, assassinado em 1995 por um judeu extremista depois de liderar uma tentativa bastante esforçada de chegar à paz. O fato se deu justamente durante um comício pela paz, em Tel Aviv. Para Gitai, foi um duro golpe na democracia e ele se dedicou em documentários e livro a refletir sobre o atentado. Em sequencia possivelmente para esta obra, um grupo de israelenses corta as oliveiras de uma família palestina, sob o olhar pesaroso do diretor. É filme para rever com calma, sem a pressa que nos obriga um festival, e tirar da narrativa a mensagem de um cineasta preocupado com esse tempo e um passado que não cessa de aturdir. 

Poliglota e jeitão de Woody Allen

Outro competidor, agora da casa, veio para dar um tom romântico e algumas risadas ao Lido. É o veterano Nanni Moretti e seu Succederà Questa Notte, ou Acontecerá Esta Noite. O italiano segue toada recente, como em Tre Piani, ao tratar de relações amorosas e familiares, desta vez juntando origens e línguas diversas. O astro francês Louis Garrel está casado com uma jovem norueguesa, com quem se comunica em ingles. Estão a espera do primeiro filho, quando a “mamma” italiana dele – e na verdade, toda a família – faz a moça se sentir uma intrusa, e ela acaba abandonando o recém-nascido e o marido. Não demora e o rapaz se encanta pela noiva vivida por Jasmine Trinca, no dia do casamento dela, e a bela vira sua obsessão por anos. Até que um reencontro, com ambos casados, faz tudo mudar e os dois se tornam amantes. É um filme “per bene”, como dizem os italianos, agradável de ver como um Woody Allen, com aquele humor de certo cinismo de Moretti. Ele não deixou de pincelar o recente AVC que o vitimou e a aproximação da morte na figura do pai da personagem de Garrel, doente, mas não a ponto de perder um concerto de Bruce Springsteen, seu ídolo. E Jasmine Trinca surge como primeira candidata ao prêmio de melhor atriz, numa competição que por enquanto já esboça maior disputa para a Copa Volpi masculina.  

Veneza (2) – De novo um passado para não esquecer… e um quadro dramático da adolescência

A Guerra do Vietnã ainda é um pesadelo para os norte-americanos. Não para todos, como sabemos, mas deveria ser. Os mandatários recentes, em especial o atual, dão de ombros e seguem invadindo o quintal alheio e matando quem se contrapõe ao imperialismo que não cessa. Faz cinquenta anos daquele fracasso retumbante e a lição não foi aprendida. Os soldados, aqueles que retornaram e ainda estão vivos, envelheceram com cicatrizes não só físicas. Passaram o resto da vida perturbados até o ponto da loucura. É o caso de Allen Nelson, um ex-mariner que após buscar a psicanálise para se livrar da insônia e dos ataques de fúria, dedicou-se a levar mensagens pelo mundo sobre o horror cometido contra os vietcongs e vietnamitas em geral. Especialmente no Japão, onde fez inúmeras palestras e está enterrado. Ele é a personagem do concorrente exibido na noite de ontem, ‘Mr. Nelson, Did You Kill People?’, dirigido pelo japonês Shinya Tsukamoto. A ligação de Nelson com a ilha do pacífico pode explicar o interesse do realizador pelo ativista, que deixou livros e foi objeto de projetos de TV.

O filme dramatiza a trajetória de Nelson (um ótimo Rodney Hicks, na fase adulta) em tres tempos e diversas situações. Em paralelo, acompanha-se sua atividade no Vietnã, onde não se poupa o espectador de vasta violência gráfica, e na volta ao seu país. O garoto que cresceu sob ambiente domestico de pobreza, abusos e mais violência torna-se morador de rua. Sofre de depressão, tem pesadelos e tenta o suicídio. Um caminho se abre um dia quando uma ex-amiga de escola, agora professora, o convida para falar sobre sua experiencia na guerra para pré-adolescentes. Uma garota faz a pergunta que dá título ao filme. Nelson trava. Percebe que tem de falar a verdade. O horror, o horror… Traumas que ele leva para o casamento, que assusta a mulher, o filho. Este pensa em se alistar e traz tudo á tona. Nelson vai parar no consultório de um psicanalista (Geoffrey Rush). O doutor reverbera a questão da menina, mas vai mais fundo. “Why, why you killed people?”. Mesmo com um registro que por vezes cede ao melodrama e ao apelo desnecessário a essa altura do morticínio no país asiático, o filme se equilibra na espinha dorsal de sua proposta, uma reflexão das chagas desta e de todas as guerras. 

O horror começa em casa

O programa da competição não aproximou por acaso o drama do ex-soldado do Vietnã do concorrente francês “15|18 – A Place to Heal’, de Cédric Kahn, exibido hoje pela manhã. Mr. Nelson foi uma criança traumatizada pela violência do padrasto contra a mãe. Quis sair do inferno e mergulhou em outro, ao se alistar voluntariamente. O ato determinou seu futuro. No drama de Kahn, ainda que possa não ser um fato ou com personagens reais, é fácil imaginar que os adolescentes em questão estão por ai. Eles sofrem com todo tipo de transtorno em grande parte produzidos por famílias desestruturadas, violência doméstica, desinteresse dos pais que possam ter resultado em traumas no convívio social. Por isso vão parar numa instituição para menores sob guarda do Estado, “um lugar para curar” onde tem acompanhamento clinico e psiquiátrico, entre os 15 e 18 anos, quando devem deixar o local. O cotidiano não é fácil, com discussões intensas, brigas, revoltas mas também flertes da idade. Um bom drama, econômico e sóbrio, como costuma ser o cinema de Kahn. Apenas que talvez não some muita coisa a outros filmes da mesma temática. 

Veneza (1) – Competição abre em língua inglesa, com dois ótimos independentes, e um Herzog frustrante

A 83a edição do Festival de Veneza teve início ontem no Lido, a ilha em frente ao centro histórico, com um calor abafado de 30 graus e filmes independentes de língua inglesa subindo a expectativa do que virá na competição até dia 11. São vinte títulos concorrentes e o Brasil só surge numa co-produção com Argentina, o drama Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis. Vocês lembrarão do diretor por ‘Garagem Olimpo’ , um mergulho no pesadelo da tortura durante o regime militar argentino e que o filme atual retoma, e ‘Terra Vermelha’, rodado no Brasil. Passa no último dia da competição. Na paralela da Semana da Critica, outro filme brasileiro, London, dos gaúchos Márcio Picoli e Victor Marco.

Do que se pode dizer desses dois primeiros dias, é que a habitual preferência de Veneza pelo apelo das estrelas e produções em língua inglesa, em especial Estados Unidos, dessa vez funcionou. Mesmo George Clooney, que vem ao Lido um ano sim, outro também, dá as caras como o homenageado da edição. Quanto aos filmes, dois agradaram bastante por aqui, ‘Ink’, de Danny Boyle , e “Wild Horse Nine’, de Martin McDonagh. O desafino ficou por conta do alemão Werner Herzog e seu excêntrico ‘Bucking Fastard’, assim mesmo num trocadilho, que só poderia ser realizado na cultura, no sotaque e com as peculiaridades dos britânicos. 

Ou para ser mais preciso, dos irlandeses, origem e universo de suas protagonistas, irmãs com pequena diferença de idade mas que se portam como gêmeas. Cabelo e vestimenta sempre iguais, elas tem o estranho habito de falar juntas, em sincronia. Na tela, são interpretadas por Rooney e Kate Mara, irmãs na vida real e caracterizadas para o desafio. Inclusive o de falar ao mesmo tempo, um atributo sem dúvida elogiável. Acontece que as irmãs existem, são Greta e Freda Chaplin, ai sim, gêmeas, e nos anos 80 elas protagonizaram um apetitoso escândalo para os tabloides ingleses, quando foram aos tribunais acusar um homem com quem haviam,  as duas reforce-se , se envolvido. É o inicio do filme de Herzog, com Orlando Bloom no papel do acusado, até ai instigante. Os problemas começam depois, numa fantasia original que não chega a lugar nenhum.

Na verdade, chega em uma montanha envolvida em uma lenda sobre túnel que supostamente leva a uma ilha da costa irlandesa. Desiludidas após saberem do casamento eminente do tal conquistador, elas são acolhidas por uma tia em vilarejo remoto, onde ficam conhecendo a história e passam a cavar para chegar ao que acreditam ser o paraíso para o amor. Além de poucos momentos de um humor lugubre, difícil imaginar o que levou Herzog a elaborar tal extravagancia, embora na fonte a historia poderia render boa trama e ganhar complexidade.

Sensacionalismo

Muito provavelmente a imprensa de que fala “Ink” (tinta), de Boyle, deitou e rolou no caso das Chaplin. Mais especificamente o famoso ‘The Sun”, objeto da ficção que reconta a criação pelo hoje magnata australiano Rupert Murdoch do tabloide que quase dava traço de leitura no Reino Unido e se tornou a maior circulação do mundo nos anos 80 e 90, segundo o filme. Começa com Murdoch (Guy Pearce) na negociação para convencer um editor-chefe do Daily Mirror (Jack O’Connell) a assumir a direção do The Sun, que acaba de comprar. Proposta milionária aceita, tem inicio os embates para conquistar os leitores, sempre no pique acelerado e um tanto aflitivo que é a marca de Boyle desde ao menos ‘Trainspotting’. 

Do bastidor de como buscar as noticias sensacionalistas e ultrapassar os concorrentes, o filme dá uma reviravolta que quase leva a um thriller. É quando a mulher de um sócio mais velho de Murdoch, e espécie de figura paternal, sofre um sequestro em troca de resgate. A criatura, então, se revela pior que o criador, ou seja, Murdoch criou um monstro na direção de seu jornal, e este decide publicizar o caso com detalhes. Todos sabemos onde o império de Murdoch foi dar, e o exemplo maior é a rede de direita Fox News. Boyle não por acaso fez o filme em momento de debates sobre a informação confiável, as fake news e mais recente ainda, a IA. É um drama empolgante e atual, confirmado pela figura de Trump ao final.

E os golpes, sempre atuais

Também bastante bem recebido, merecidamente, o novo longa do irlandês Martin McDonagh, de ‘Três Anúncios para um Crime’. ‘Wild Horse Nine’ retorna ao golpe do Chile em 1973 para nos lembrar que os Estados Unidos sempre estão por aí prontos a invadir o quintal alheio. Nesse caso, é questão de semanas o ataque ao La Moneda para matar o presidente Salvador Allende, candidato da esquerda eleito democraticamente. Mas democracia não interessa aos dois agentes da CIA que já estão alocados em Santiago em tratativa com os militares, em especial aquele interpretado por John Malkovich, desde já grande nome para o Colpa Volpi de melhor ator e por certo na cotação do Oscar. 

Ele e seu parceiro (Sam Rockwell) decidem partir para a Ilha de Páscoa. O motivo é que a personagem de Malkovich está com câncer, sabe que vai morrer, e pede para o colega levá-lo ao local dos totens Moai como último desejo. Mais, ali ele deve mata-lo, segundo um código acertado pelos dois. Só que as coisas não são simples, o doente também está perdendo a memória, fala o que não deve a estranhas, é irascível e sarcástico, deixando maluco o parceiro  e o chefe da CIA (Steve Buscemi, ótimo também). Aqui temos a simbiose perfeita entre atuações, direção e roteiro, também de McDonagh, naquele humor cínico muito próximo dos irmãos Coen, mas mais sofisticado. Diálogos valem mais que tiros, e sem deixar de divertir, o diretor nos lembra que os golpes seguem nos cercando. Apenas que não se dão mais com caças atirando em palácios presidenciais. 

Olhar premia o cearense Fiz um Foguete… e o canadense-iraniano Um Calendário Incompleto

Competição Brasileira – Longa-metragem

Melhor Filme – Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques

Menção Honrosa – Reparação, de Marcus Curvelo 

Melhor Direção – Raphael Barbosa, por Olhe para Mim

Melhor Roteiro – Pedro Diógenes, por Adulto\Homem

Melhor Atuação – Veronica Cavalcanti e Luciana Souza, por Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha 

Melhor Direção de Arte – Nina Magalhães, de Olhe para Mim

Melhor Fotografia – João Dumans , por A Noite e os Dias de Miguel Burnier

Melhor Som – Lucas Coelho, por Olhe para Mim 

Melhor Montagem – Affonso Uchoa, A Noite e os Dias de Miguel Burnier

Competição Brasileira — Curta-metragem

Melhor Filme – Pyrexia, de Nico da Costa

Premio Especial do Júri  – Pinguim de Doce de Leite, de Ana Vitoria Miotto Tahan

Competitiva Internacional

Melhor Filme — Um Calendário Incompleto, de Sonaz Sohrabi

Premio Especial do Júri — Bouchra, de Orian Barki e Meriem Bennani

Mostra Novos Olhares

Melhor Direção – Dragão, de Yashira Jordán 

Premio Novos Olhares – Como Todo mortal , de Maria Molina Peiró

Premio de público da Competitiva Internacional – Se Pombos Virassem Ouro, de Pepa Lubojacki

Premio Abraccine — melhor curta, Disciplina, de Affonso Uchoa, e longa Reparação, de Marcus Curvelo.

Premio AVEC PR — Tornar.se Ciborgue no Interior, de Louisa Savignon

Premio Itaú Cultural Play —. Curta Estrelas Terrestres, de Rafael Neri Ferreira  

Premio Cardume de Curtas  — Marimba Está Acontecendo , de Maryn Marynho

Canal Brasil – curta O Segredo Sagrado, de Everlane Moraes 

Olhar (4) – Mais das competitivas, com um peixe fora d‘água.

Um Calendário Incompleto — Recupero agora esse concorrente internacional, que perdi para poder assistir ao belíssimo filme de Béla Tarr, As Harmonias de Werckmeister, o título selecionado pela curadoria para homenagear o cineasta húngaro morto em janeiro. Sobre este escreverei depois, mas desde já uma boa noticia para os curitibanos, pois o filme entrará em cartaz logo depois do festival no Cine Passeio. E o que é esse calendário incompleto? O documentário da diretora iranianya radicada no Canadá Sanaz Sohrabi resgata a partir de uma antiga gravação venezuelana em disco o intricado jogo geopolítico das décadas de 1960 e 1970, tendo como questão central o petróleo e o papel da OPEP, a organização dos países exportadores do produto. Como se sabe, o organismo foi criado em 1960 pelas nações árabes mais a Venezuela para regularizar e garantir o fornecimento após a II Guerra e se contrapor ao domínio norte-americano. E como entra a música em tudo isso? Para estabelecer laços além das afinidades comerciais, o grupo também apostou em iniciativas culturais, e o cancioneiro árabe passou a ser difundido na Venezuela, por exemplo. Outra estratégia comum foi a difusão de selos pela troca constante de cartas entre os países membros. O filme se vale das duas tendências por rico material de arquivo, amenizando um componente formal, burocrático do contexto comercial da coisa. Sobretudo muito informativo, com abordagem original mesmo. 

Se os Pombos Virassem Ouro —  Não se pode criticar o longa documental da jovem tcheca Pepa Lubojacki, em sua estreia, pela ausência de dispositivos e recursos de linguagem. Para dar conta de um tema bastante árduo, de contexto familiar, ela lança mão da IA e nos apresenta de fotos de infancia com retratados que falam a pombos igualmente narradores. Pode parecer um tanto infantil, mas as falas são bem adultas. Tratam da condição alcoólica que consta na filiação paterna em várias gerações. Foi assim com o pai da diretora, morto em função do vício, e atinge agora seu irmão único e mais velho. A ponto deste ter se tornado morador de rua, mesma situação vivida pelo pai, que a jovem costumava encontrar numa praça alimentando pombos. Pepa não se conforma com o destino do irmão e busca ajudá-lo a superar a bebida e a ter uma moradia decente. Filma o processo todo, seus encontros e suas conversas, brigas eventuais, conflitos que os distanciam até que o ciclo recomece com breves momentos de sobriedade e a volta ao álcool.

Em meio ao cotidiano do presente, Pepa entrelaça os fatos do passado, na familia desestruturada pela entrega paulatina do pai ao vício e a figura apática da mãe. Houveram, claro, momentos felizes dos irmãos quando crianças, mas eles são faíscas passageira, praticamente simbolizadas por um passeio de bicicleta. Esse drama de escala trágica imensurável resulta, claro, num programa dificil, desafiador à plateia, e há poucos instantes de respiro. Talvez daí a opção pelos procedimentos da IA, que embora não sejam elementos de humor, sugerem uma interação empática. O problema é que o uso excessivo dessa linguagem, mais a duração um tanto espichada e a reiteração das situações conferem um tom carregado, um peso desnecessário, dado a temática por si só penosa. Algo justificável para um primeiro filme tão corajoso. 

Quase Inverno – Em uma curadoria que habitualmente privilegia conceitos e formas que tensionam o fazer cinematográfico, um longa como este do londrinense Rodrigo Grota cai quase como um alien no Olhar. Grota vai à tradição clássica da dramaturgia russa e adapta, de modo bastante livre, As Três Irmâs, de Tchekov. Transfere a trama a um passado recente para relembrar que a verve do autor ainda merece ser visitada em tempos de consumo excessivo de imagem. Porque o que impera no teatro do autor é, como sabemos, a palavra, e mais ainda, o não dito, ou o interdito, como lembrou o diretor no debate ao dia seguinte da exibição. Ao apresentar o filme, disse que sua intenção também é discutir a atuação, e para isso conta com um belo e talentoso trio de atrizes, com Ondina Clais como a primogênita, Simone Iliescu a irmã do meio, e Luiza Quintero no papel da caçula. Muitos colegas não gostaram, e olha que o filme nem se encaixa numa tradição formal, dando algumas beliscadas de ousadia. 

A trama original da Rússia do início do século 20  se dá agora  nos anos de 1970 e no interior do Paraná, portanto em plena ditadura militar. Apresentada a ambientação, os pontos de contato com a peça começam a se diluir, e sugerir mesmo outras inspirações do teatro e cinema. Por exemplo, a matriarca enferma (Esther Góes), viúva e em seus últimos dias é a razão da reunião das filhas, que aos poucos retornam á propriedade da família, comandada pelo irmão. Aos poucos, vamos sendo introduzidos aos conflitos entre as irmãs mais velhas com a mãe e mesmo entre elas. Aqui é evidente o partido bergmaniano, em especial de Gritos e Sussurros. Ainda surgem os amigos militares, que como na peça, somam aspectos determinantes aos destinos ali. 

Mais que propriamente se fixar na força dramática, o diretor ressalta uma atmosfera de sentimentos e frustrações que toma conta da casa. Esta com seus rangidos e elementos do passado se torna uma personagem, testemunha dos embates do clã. Pode-se ressentir de maior potência nesse painel conflituoso, mas é justamente a opção por um minimalismo, um tom contido, que permite termos o tempo da reflexão. Não coincide por certo com a exigência insana da atualidade. 

Olhar (3) – A finitude, na tela e fora dela

Não me Deixe Morrer e Reparação – Os supersticiosos diriam que uma nuvem pesada pairou sobre a mostra na noite de terça-feira. Primeiro veio a notícia da morte do cineasta baiano Orlando Senna, aos 86 anos, pouco antes das sessões competitivas terem início. Senna está na memória do cinema brasileiro por filmes como Iracema – uma Transa Amazônica , em parceria com Jorge Bodanzky, e Diamante Negro. Mas também foi um gestor no primeiro governo Lula, com ações importantes na área. A Abraccine, nossa associação de críticos, publicou uma nota de pesar no site abraccine.org.

Bem, mas a essa perda triste real, seguiram-se outras na tela do cinema, à sua maneira também fincadas na realidade. Na sessão do longa internacional, um exemplo bem acabado da cinematografia romena sombria e excêntrica. O título: Não me Deixe Morrer. Uma mulher é encontrada morta no seu apartamento dias depois por uma jovem vizinha, alertada pelo latido dos cachorros, sem água e comida. Como não há paradeiro de familiares além de um filho ausente há anos, a moça pega para si a incumbência de dar um enterro digno à mulher solitária. Entre o enrosco da burocracia e a chegada do filho, eventos estranhos passam a assombra-lá. O drama de tom agridoce trabalha naquele tom de estranheza ,interpretações anti-naturalistas e com uma fantasmagoria com pé na realidade. O diretor estreante Andrei Epure se inspirou em um  “faits divers” da crônica jornalistica local.

Mais intimista e igualmente extra-ordinario, no sentido do incomum, são as três mortes que abalaram a vida do jovem diretor baiano Marcus Curvelo. Em um período curto, ele perdeu primeiro o pai e depois a mãe vitima de um câncer. Isso quando mal fazia o luto de um tio. Reparação é sua estreia solo em longa-metragem, projeto documental em que busca refletir sobre tais perdas e juntar os cacos. Documental, mas também bastante ensaístico, no partido da auto-ficção marcante desde o inicio de sua trajetória nos curtas. Ou seja, Curvelo se coloca como protagonista sobre os temas que deseja refletir. 

O resultado costuma ser irregular, mas aqui talvez mais que antes se justifica, com os questionamentos de expor ou não as fragilidades familiares, a dor de acompanhar o definhamento do pai, a batalha da mãe e então, a finitude. Em meio a esse painel doloroso, o simbolismo do mar e da religiosidade cumprem um papel significativo da limitação humana frente ao inexorável, o que não deixa de ter um aspecto adicional quando se trata da Bahia, estado tão marcado pela presença das águas e do sincretismo. Há uma interessante justaposição com elementos como a maresia, chamada ali de salitre, que a tudo corrói, enferruja. Assim como também respinga e embaça as lentes da câmera. O filme deixa um saldo de melancolia, natural pela temática, mas parece cumprir mais uma função terapêutica para o diretor do que buscar vínculos com o espectador.

Olhar (2) – Na competitiva, mazelas e fantasia de um Brasil de contrastes

Olhe para Mim — Aos poucos, uma temática (ou uma abordagem, ao menos) começa a se esboçar na linha curatorial da programação. Vai de uma nota sensorial de filmes exibidos até agora a um tom onírico, vinculado á complexidade dos sonhos, e daí para o fantástico. Firma-se nessa toada outro concorrente nacional, segundo longa-metragem do alagoano Raphael Barbosa e o primeiro ficcional, depois de Cavalo. Curiosa essa analogia com animais, pois aqui é a lenda de uma ave, a coruja rasga-mortalha, que inspira uma trama bastante lacunar e está inserida na chave de terror desde os pesadelos do diretor quando criança. Rejane Faria retorna à tela do festival, depois de Yellow Cake, como a mãe que vive na estrada com o filho acossado por um misterioso feitiço. Ela tenta mais uma vez salva-lo de um destino anunciado ao chegar numa cidadezinha à beira do São Franciso, mas é o rapaz que atrairá o interesse de um jovem queer. O trio sai em viagem sem rumo certo, vivenciando experiencias a esmo. É interessante a proposta inicial de mergulhar numa atmosfera de fantasia, com ligações a uma mítica local. Mas o filme parece confiar apenas na força desse ponto de partida, sem avançar para uma dramaticidade, um climax mesmo, mais potente. Vale ressaltar as atuações dos protagonistas, em otima sintonia, e a bonita fotografia de Roberto Iuri.

Maxita – Insere-se na prolífica tendência do documentário sobre os povos indigenas esse registro em co-direção de Mariana e Ana Maria Machado. O grande lance aqui é contar com a presença de Davi Kopenawa e suas sempre enriquecedoras falas, com o cuidado de ser na própria lingua, sobre a situação dos yanomami. Entre tantos problemas, a etnia sofre com o avanço do garimpo e das mineradoras em seu território. Em outro procedimento interessante, o filme aproxima o contexto e a visão de Kopenawa às tragédias das zonas mineradoras em Minas Gerais, origem das primas-diretoras. Ainda, há o belo momento do encontro para uma conversa entre ele e Ailton Krenak. Talvez deixe no geral uma sensação de déjà vu, mas a questão sempre premente do destino igualmente trágico dos povos originários e sua luta constante contribui para valorizar o filme.

    A Noite e os Dias de Miguel Burnier – O documentário do mineiro João        Dumans remete a Maxita no que toca á atuação sem escrúpulos das mineradoras nos arredores das cidades históricas de Minas. No caso, o pequeno distrito de Miguel Burnier, próximo a Ouro Preto, onde atua a Gerdau. Em duas décadas, a empresa foi se apossando das terras dos moradores, expulsando-os de suas casas e as demolindo. A ponto de uma população de 600 pessoas, sobrar hoje apenas 80. São resistentes, mas perto de serem expulsos também. Dumans se centra em um pequeno núcleo de personagens, como a cativante e batalhadora Dadá e, como ela, o realista Zezé e o melancólico Setenta. Acompanha o cotidiano do grupo, a exemplo de uma neta recém-nascida de Dadá, suas reflexões sobre a condição vulnerável, sem garantia de futuro ali e um apoio ou acordo aceitável por parte da exploradora. No debate hoje, o diretor, nascido e residente em Ouro Preto, contou que  filme deve sua origem à Arábia, um dos longas mais premiados e reconhecidos de Dumans, em co-direção com  seu parceiro habitual Affonso Uchoa, aqui responsável pela montagem.

É nesta relação com o cinema da dupla, desde A Vizinhança do Tigre, que me surgiu uma surpresa pela opção de uma linguagem documental, digamos, tradicional. A marca dos longas anteriores é justamente um conceito híbrido entre o ficcional e o documentário que traz uma interessante abordagem fora do esquadro realista. Dumans explicou que desde o início queria fazer um filme informativo, o que de fato se dá, e se não chega a ser um desaponto, A Noite… me parece que poderia render além do registro das mazelas dos habitantes. Há bons momentos, como o uso de fotografias de um morador dos tempos em que a cidade vivia um dia a dia de normalidade. Ou a bela cena de um comboio de carga de minérios infindável. E claro, a empatia das personagens contribui para um resultado revelador de um contexto desolador.