Olhar premia o cearense Fiz um Foguete… e o canadense-iraniano Um Calendário Incompleto

Competição Brasileira – Longa-metragem

Melhor Filme – Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques

Menção Honrosa – Reparação, de Marcus Curvelo 

Melhor Direção – Raphael Barbosa, por Olhe para Mim

Melhor Roteiro – Pedro Diógenes, por Adulto\Homem

Melhor Atuação – Veronica Cavalcanti e Luciana Souza, por Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha 

Melhor Direção de Arte – Nina Magalhães, de Olhe para Mim

Melhor Fotografia – João Dumans , por A Noite e os Dias de Miguel Burnier

Melhor Som – Lucas Coelho, por Olhe para Mim 

Melhor Montagem – Affonso Uchoa, A Noite e os Dias de Miguel Burnier

Competição Brasileira — Curta-metragem

Melhor Filme – Pyrexia, de Nico da Costa

Premio Especial do Júri  – Pinguim de Doce de Leite, de Ana Vitoria Miotto Tahan

Competitiva Internacional

Melhor Filme — Um Calendário Incompleto, de Sonaz Sohrabi

Premio Especial do Júri — Bouchra, de Orian Barki e Meriem Bennani

Mostra Novos Olhares

Melhor Direção – Dragão, de Yashira Jordán 

Premio Novos Olhares – Como Todo mortal , de Maria Molina Peiró

Premio de público da Competitiva Internacional – Se Pombos Virassem Ouro, de Pepa Lubojacki

Premio Abraccine — melhor curta, Disciplina, de Affonso Uchoa, e longa Reparação, de Marcus Curvelo.

Premio AVEC PR — Tornar.se Ciborgue no Interior, de Louisa Savignon

Premio Itaú Cultural Play —. Curta Estrelas Terrestres, de Rafael Neri Ferreira  

Premio Cardume de Curtas  — Marimba Está Acontecendo , de Maryn Marynho

Canal Brasil – curta O Segredo Sagrado, de Everlane Moraes 

Olhar (4) – Mais das competitivas, com um peixe fora d‘água.

Um Calendário Incompleto — Recupero agora esse concorrente internacional, que perdi para poder assistir ao belíssimo filme de Béla Tarr, As Harmonias de Werckmeister, o título selecionado pela curadoria para homenagear o cineasta húngaro morto em janeiro. Sobre este escreverei depois, mas desde já uma boa noticia para os curitibanos, pois o filme entrará em cartaz logo depois do festival no Cine Passeio. E o que é esse calendário incompleto? O documentário da diretora iranianya radicada no Canadá Sanaz Sohrabi resgata a partir de uma antiga gravação venezuelana em disco o intricado jogo geopolítico das décadas de 1960 e 1970, tendo como questão central o petróleo e o papel da OPEP, a organização dos países exportadores do produto. Como se sabe, o organismo foi criado em 1960 pelas nações árabes mais a Venezuela para regularizar e garantir o fornecimento após a II Guerra e se contrapor ao domínio norte-americano. E como entra a música em tudo isso? Para estabelecer laços além das afinidades comerciais, o grupo também apostou em iniciativas culturais, e o cancioneiro árabe passou a ser difundido na Venezuela, por exemplo. Outra estratégia comum foi a difusão de selos pela troca constante de cartas entre os países membros. O filme se vale das duas tendências por rico material de arquivo, amenizando um componente formal, burocrático do contexto comercial da coisa. Sobretudo muito informativo, com abordagem original mesmo. 

Se os Pombos Virassem Ouro —  Não se pode criticar o longa documental da jovem tcheca Pepa Lubojacki, em sua estreia, pela ausência de dispositivos e recursos de linguagem. Para dar conta de um tema bastante árduo, de contexto familiar, ela lança mão da IA e nos apresenta de fotos de infancia com retratados que falam a pombos igualmente narradores. Pode parecer um tanto infantil, mas as falas são bem adultas. Tratam da condição alcoólica que consta na filiação paterna em várias gerações. Foi assim com o pai da diretora, morto em função do vício, e atinge agora seu irmão único e mais velho. A ponto deste ter se tornado morador de rua, mesma situação vivida pelo pai, que a jovem costumava encontrar numa praça alimentando pombos. Pepa não se conforma com o destino do irmão e busca ajudá-lo a superar a bebida e a ter uma moradia decente. Filma o processo todo, seus encontros e suas conversas, brigas eventuais, conflitos que os distanciam até que o ciclo recomece com breves momentos de sobriedade e a volta ao álcool.

Em meio ao cotidiano do presente, Pepa entrelaça os fatos do passado, na familia desestruturada pela entrega paulatina do pai ao vício e a figura apática da mãe. Houveram, claro, momentos felizes dos irmãos quando crianças, mas eles são faíscas passageira, praticamente simbolizadas por um passeio de bicicleta. Esse drama de escala trágica imensurável resulta, claro, num programa dificil, desafiador à plateia, e há poucos instantes de respiro. Talvez daí a opção pelos procedimentos da IA, que embora não sejam elementos de humor, sugerem uma interação empática. O problema é que o uso excessivo dessa linguagem, mais a duração um tanto espichada e a reiteração das situações conferem um tom carregado, um peso desnecessário, dado a temática por si só penosa. Algo justificável para um primeiro filme tão corajoso. 

Quase Inverno – Em uma curadoria que habitualmente privilegia conceitos e formas que tensionam o fazer cinematográfico, um longa como este do londrinense Rodrigo Grota cai quase como um alien no Olhar. Grota vai à tradição clássica da dramaturgia russa e adapta, de modo bastante livre, As Três Irmâs, de Tchekov. Transfere a trama a um passado recente para relembrar que a verve do autor ainda merece ser visitada em tempos de consumo excessivo de imagem. Porque o que impera no teatro do autor é, como sabemos, a palavra, e mais ainda, o não dito, ou o interdito, como lembrou o diretor no debate ao dia seguinte da exibição. Ao apresentar o filme, disse que sua intenção também é discutir a atuação, e para isso conta com um belo e talentoso trio de atrizes, com Ondina Clais como a primogênita, Simone Iliescu a irmã do meio, e Luiza Quintero no papel da caçula. Muitos colegas não gostaram, e olha que o filme nem se encaixa numa tradição formal, dando algumas beliscadas de ousadia. 

A trama original da Rússia do início do século 20  se dá agora  nos anos de 1970 e no interior do Paraná, portanto em plena ditadura militar. Apresentada a ambientação, os pontos de contato com a peça começam a se diluir, e sugerir mesmo outras inspirações do teatro e cinema. Por exemplo, a matriarca enferma (Esther Góes), viúva e em seus últimos dias é a razão da reunião das filhas, que aos poucos retornam á propriedade da família, comandada pelo irmão. Aos poucos, vamos sendo introduzidos aos conflitos entre as irmãs mais velhas com a mãe e mesmo entre elas. Aqui é evidente o partido bergmaniano, em especial de Gritos e Sussurros. Ainda surgem os amigos militares, que como na peça, somam aspectos determinantes aos destinos ali. 

Mais que propriamente se fixar na força dramática, o diretor ressalta uma atmosfera de sentimentos e frustrações que toma conta da casa. Esta com seus rangidos e elementos do passado se torna uma personagem, testemunha dos embates do clã. Pode-se ressentir de maior potência nesse painel conflituoso, mas é justamente a opção por um minimalismo, um tom contido, que permite termos o tempo da reflexão. Não coincide por certo com a exigência insana da atualidade. 

Olhar (3) – A finitude, na tela e fora dela

Não me Deixe Morrer e Reparação – Os supersticiosos diriam que uma nuvem pesada pairou sobre a mostra na noite de terça-feira. Primeiro veio a notícia da morte do cineasta baiano Orlando Senna, aos 86 anos, pouco antes das sessões competitivas terem início. Senna está na memória do cinema brasileiro por filmes como Iracema – uma Transa Amazônica , em parceria com Jorge Bodanzky, e Diamante Negro. Mas também foi um gestor no primeiro governo Lula, com ações importantes na área. A Abraccine, nossa associação de críticos, publicou uma nota de pesar no site abraccine.org.

Bem, mas a essa perda triste real, seguiram-se outras na tela do cinema, à sua maneira também fincadas na realidade. Na sessão do longa internacional, um exemplo bem acabado da cinematografia romena sombria e excêntrica. O título: Não me Deixe Morrer. Uma mulher é encontrada morta no seu apartamento dias depois por uma jovem vizinha, alertada pelo latido dos cachorros, sem água e comida. Como não há paradeiro de familiares além de um filho ausente há anos, a moça pega para si a incumbência de dar um enterro digno à mulher solitária. Entre o enrosco da burocracia e a chegada do filho, eventos estranhos passam a assombra-lá. O drama de tom agridoce trabalha naquele tom de estranheza ,interpretações anti-naturalistas e com uma fantasmagoria com pé na realidade. O diretor estreante Andrei Epure se inspirou em um  “faits divers” da crônica jornalistica local.

Mais intimista e igualmente extra-ordinario, no sentido do incomum, são as três mortes que abalaram a vida do jovem diretor baiano Marcus Curvelo. Em um período curto, ele perdeu primeiro o pai e depois a mãe vitima de um câncer. Isso quando mal fazia o luto de um tio. Reparação é sua estreia solo em longa-metragem, projeto documental em que busca refletir sobre tais perdas e juntar os cacos. Documental, mas também bastante ensaístico, no partido da auto-ficção marcante desde o inicio de sua trajetória nos curtas. Ou seja, Curvelo se coloca como protagonista sobre os temas que deseja refletir. 

O resultado costuma ser irregular, mas aqui talvez mais que antes se justifica, com os questionamentos de expor ou não as fragilidades familiares, a dor de acompanhar o definhamento do pai, a batalha da mãe e então, a finitude. Em meio a esse painel doloroso, o simbolismo do mar e da religiosidade cumprem um papel significativo da limitação humana frente ao inexorável, o que não deixa de ter um aspecto adicional quando se trata da Bahia, estado tão marcado pela presença das águas e do sincretismo. Há uma interessante justaposição com elementos como a maresia, chamada ali de salitre, que a tudo corrói, enferruja. Assim como também respinga e embaça as lentes da câmera. O filme deixa um saldo de melancolia, natural pela temática, mas parece cumprir mais uma função terapêutica para o diretor do que buscar vínculos com o espectador.

Olhar (2) – Na competitiva, mazelas e fantasia de um Brasil de contrastes

Olhe para Mim — Aos poucos, uma temática (ou uma abordagem, ao menos) começa a se esboçar na linha curatorial da programação. Vai de uma nota sensorial de filmes exibidos até agora a um tom onírico, vinculado á complexidade dos sonhos, e daí para o fantástico. Firma-se nessa toada outro concorrente nacional, segundo longa-metragem do alagoano Raphael Barbosa e o primeiro ficcional, depois de Cavalo. Curiosa essa analogia com animais, pois aqui é a lenda de uma ave, a coruja rasga-mortalha, que inspira uma trama bastante lacunar e está inserida na chave de terror desde os pesadelos do diretor quando criança. Rejane Faria retorna à tela do festival, depois de Yellow Cake, como a mãe que vive na estrada com o filho acossado por um misterioso feitiço. Ela tenta mais uma vez salva-lo de um destino anunciado ao chegar numa cidadezinha à beira do São Franciso, mas é o rapaz que atrairá o interesse de um jovem queer. O trio sai em viagem sem rumo certo, vivenciando experiencias a esmo. É interessante a proposta inicial de mergulhar numa atmosfera de fantasia, com ligações a uma mítica local. Mas o filme parece confiar apenas na força desse ponto de partida, sem avançar para uma dramaticidade, um climax mesmo, mais potente. Vale ressaltar as atuações dos protagonistas, em otima sintonia, e a bonita fotografia de Roberto Iuri.

Maxita – Insere-se na prolífica tendência do documentário sobre os povos indigenas esse registro em co-direção de Mariana e Ana Maria Machado. O grande lance aqui é contar com a presença de Davi Kopenawa e suas sempre enriquecedoras falas, com o cuidado de ser na própria lingua, sobre a situação dos yanomami. Entre tantos problemas, a etnia sofre com o avanço do garimpo e das mineradoras em seu território. Em outro procedimento interessante, o filme aproxima o contexto e a visão de Kopenawa às tragédias das zonas mineradoras em Minas Gerais, origem das primas-diretoras. Ainda, há o belo momento do encontro para uma conversa entre ele e Ailton Krenak. Talvez deixe no geral uma sensação de déjà vu, mas a questão sempre premente do destino igualmente trágico dos povos originários e sua luta constante contribui para valorizar o filme.

    A Noite e os Dias de Miguel Burnier – O documentário do mineiro João        Dumans remete a Maxita no que toca á atuação sem escrúpulos das mineradoras nos arredores das cidades históricas de Minas. No caso, o pequeno distrito de Miguel Burnier, próximo a Ouro Preto, onde atua a Gerdau. Em duas décadas, a empresa foi se apossando das terras dos moradores, expulsando-os de suas casas e as demolindo. A ponto de uma população de 600 pessoas, sobrar hoje apenas 80. São resistentes, mas perto de serem expulsos também. Dumans se centra em um pequeno núcleo de personagens, como a cativante e batalhadora Dadá e, como ela, o realista Zezé e o melancólico Setenta. Acompanha o cotidiano do grupo, a exemplo de uma neta recém-nascida de Dadá, suas reflexões sobre a condição vulnerável, sem garantia de futuro ali e um apoio ou acordo aceitável por parte da exploradora. No debate hoje, o diretor, nascido e residente em Ouro Preto, contou que  filme deve sua origem à Arábia, um dos longas mais premiados e reconhecidos de Dumans, em co-direção com  seu parceiro habitual Affonso Uchoa, aqui responsável pela montagem.

É nesta relação com o cinema da dupla, desde A Vizinhança do Tigre, que me surgiu uma surpresa pela opção de uma linguagem documental, digamos, tradicional. A marca dos longas anteriores é justamente um conceito híbrido entre o ficcional e o documentário que traz uma interessante abordagem fora do esquadro realista. Dumans explicou que desde o início queria fazer um filme informativo, o que de fato se dá, e se não chega a ser um desaponto, A Noite… me parece que poderia render além do registro das mazelas dos habitantes. Há bons momentos, como o uso de fotografias de um morador dos tempos em que a cidade vivia um dia a dia de normalidade. Ou a bela cena de um comboio de carga de minérios infindável. E claro, a empatia das personagens contribui para um resultado revelador de um contexto desolador. 

Olhar (1): abertura distópica e largada promissora

De volta ao Olhar de Cinema, uma das mostras mais interessantes do país, que debuta com seus quinze anos. Não é uma expressão casual. O diretor artístico do evento, Antonio Gonçalves Jr., justificou a figura feminina etérea, sem rosto, do cartaz do festival como uma debutante. Vida longa ao Olhar, que chegue aos 30 anos, quem sabe com uma balzaquiana como símbolo!

Faço um apanhado dos primeiros dias dos filmes aqui em Curitiba.

Yellow Cake – O longa pernambucano-paraibano do diretor Tiago Melo abriu o calendário numa noite bem menos gelada se comparada ás recentes edições. Em especial porque o já consagrado local da abertura , a Ópera de Arame, está longe de ser uma sala acolhedora no inverno rigoroso curitibano. Mesmo assim, produção do filme e do Olhar se uniram e ofereceram uma manta aos 1500 espectadores presentes. Na tela, uma aventura com tons de ficção cientifica que caiu bem para uma noite inicial, com pique para segurar o público e uma estrela em ascensão no cinema brasileiro, Rejane Faria. Ela é a cientista nuclear que retorna a Picuí, na Paraíba, onde está estabelecido um centro de pesquisa de urânio, material considerado farto no solo da região. Ali, ela é a representante do governo brasileiro junto a colegas norte-americanos que não tem lá muito respeito e cuidado com a população local e as consequências trazidas pela exploração do minério. 

Em paralelo, outro perigo ronda a região, o aedes aegypti. Juntas, as ameaças levam a uma tragédia real palpável, por assim dizer, mas também sensorial, como alguns interpretaram, pelo tom evocativo de alucinação e pela atmosfera sonora construido pela turma mineira do Grivo. Não apenas pela presença no elenco de Tania Maria, no primeiro papel – ao menos no circuito dos festivais – após o sucesso de O Agente Secreto, o filme guarda muitas afinidades com Bacurau, do mesmo Kleber Mendonça, que aqui divide a  co-produção com a parceira Emilie Lesclaux. Ainda que tenha abordagem de temas atualíssimos, sobretudo o debate das terras raras e a sanha imperialista, o filme, fora de competição, me pareceu bastante irregular e deixa arestas que poderiam ser melhor amarradas pelo roteiro. 

O Profeta – O primeiro concorrente da competitiva internacional é um raro representante do cinema moçambicano entre nós. Num vilarejo miserável, um pastor evangélico busca atuar e atrair fiéis, mas ele mesmo vive uma crise existencial e espiritual, enquanto acompanha a gravidez final da mulher. A doença que desfigura um idoso local põe em xeque seu possível dom de cura. Alguns colegas se incomodaram com a escolha de um drama tão sombrio, pra baixo, na largada da seção competitiva. E sem dúvida o tom entre ficcional e documental não é dos mais solares, até em função da fotografia P&B. De todo modo, trata-se de um tema que nos toca pelo contexto da influência religiosa em comunidades com raízes profundas e sua cultura. Poderia ter mais ambição no aprofundamento do tema, mas tem valor pela contenção e delicadeza.

Telúrica, a Íntima Utopia – Por certo, até o momento em que escrevo, este primeiro concorrente brasileiro é a obra mais instigante na forma e exterior a ela exibida até agora na programação. Uso o conceito de obra porque não me parece que o registro (a princípio documental) da diretora Mariana Lacerda se alinha a uma tradição fílmica por definição. Em parte, há um peso determinante aqui do processo teatral coletivo de que se vale o filme para existir como tal. Ou seja, sem o trabalho da companhia Ueinzz, estabelecida na Casa do Povo, em São Paulo, com pessoas em sofrimento psíquico (Mariana prefere `da alma`) e a preparação de uma peça integrando todos, não haveria o filme. 

Temos, portanto, algumas camadas aí a considerar, e talvez a mais significativa a maneira como esses indivíduos reagem á presença da câmera. Ainda, em outra vertente, há um processo curativo em curso, e o acompanhamos pelas conversas entre os `atores` e idealizadores do grupo, como Elisa Band. Não que esse procedimento seja terapêutico no sentido estrito, potencial do termo, mas algo se dá ali, sobretudo na convivência e compreensão das necessidades dos integrantes. Esclarecedoras foram as palavras do filósofo Peter Pál Pelbart no debate ao dia seguinte da exibição, envolvido que está há trinta anos no Ueinzz. O grupo não se concebe terapêutico, e sim teatral. Mas está ciente que sua atividade pode mudar a vida, e nesse sentido, alguma coisa pode curar, sem entrar na tradição psi do psicodrama, por exemplo. E Mariana arremata: não é um filme sobre essas pessoas, mas com elas. Com esses dois eixos, a proposta dá o que pensar. 

Olhar (4) – Os vencedores do 14º Olhar de Cinema 

Competição Brasileira

Melhor Filme — Cais, de Safira Moreira

Melhor Direção — María Clara Escobar, por Explode São Paulo, Gil

Melhor Roteiro — Daniel Nolasco, por Apenas Coisas Boas 

Melhor Atuação — Gildeane Leonina, por Explode São Paulo, Gil

Melhor Fotografia — Wilssa Esser e Camila Freitas, por Aurora

Melhor Montagem — Yuri Amaral, por A Voz de Deus

Melhor Som — Guile Martins, Jesse Marmo, Naja Sodré e Daniel Nolasco por Apenas Coisas Boas

Melhor Direção de Arte — Marcus Takatsuka, por Apenas Coisas Boas

Prêmio do Público  e Prêmio da Crítica/Abraccine — Cais, de Safira Moreira

Competição Internacional 

Melhor Filme — A Árvore da Autenticidade, de Sammy Baloji

Prêmio Especial do Júri — Ariel, de Lois Patiño

Olhar (3) – Boa promessa e excessos no conteúdo e formato

Torniquete – Ana Catarina Lugarini é uma cria local, ou seja, de Curitiba. Trabalhou na produtora Grafo que fundou e dirige o Olhar de Cinema, ao lado do agora ex-sócio e realizador Aly Muritiba, com quem também estudou. Na universidade, foi aluna de Fernando Severo, diretor e nome ativo do cinema paranaense. Tem bom pedigree, portanto, para agora fazer sua estreia no longa-metragem. Não bastasse, conquistou para o projeto a atriz Marieta Severo, que se disse encantada com o roteiro e entrou como co-produtora. O resultado se pode apreciar na sessão mais lotada do festival, como esperado, com toda a equipe e a própria Marieta presente. E o que se viu na tela foi um drama com muitos méritos, mas também problemas que podem ser superados nos novos projetos da estreante. Curioso, a trama tem pontos de contato com longas recentes, o ótimo Malu e Câncer com Ascendente em Virgem, este também com Marieta no elenco. 

Em comum, três gerações de mulheres em cena, mãe, filha e neta. Mas se naqueles é claro o fator dramático que os move, em Torniquete se incube o espectador de preencher as informações ausentes — e elas são muitas. Marieta interpreta a matriarca que mora numa casa antiga de bairro, onde vende botijões de gás, com a filha e neta. Bem, na verdade elas chegaram ali faz pouco, pelo que se depreende dos diálogos iniciais, momento em que já se nota a rispidez reinante. E esse início se dá numa situação drástica. As três estão presas num quarto, vítimas de um assalto. A violencia do tipo é constante, segundo relata a avó para o policial. Há outro fato significativo que vem dessa tensão, ao menos se supõe, quando a menina surge com um curativo no rosto cobrindo uma ferida profunda. O machucado será recorrente na trama, em especial porque a garota quer mantê-la aberta, inclusive com sugestão diversa para sua origem. Evidente o símbolo das relações duras, sobretudo entre a personagem de Marieta e a filha, e um pouco mais suavizada pela tentativa da neta de se aproximar da avó. 

E qual a razão desse mal-estar? Não se diz. Como adiantado, cabe a nós imagina-la. Ora, de antemão se conhece a dificuldade comum de gerações diferentes em se comunicarem, se compreenderem, dinâmica que a diretora confirmou ser seu caso e na sua família. Perfeito. Apenas que um filme deve buscar um diálogo minimamente esclarecedor com a platéia, e longe disso sugerir aqui o conceito de entregar tudo mastigado e digerido. Entre a crítica, denomina-se o estilo de lacunar, ou seja, repleto de lacunas para fazer pensar a quem assiste. No caso, houve um exagero na sua adoção. Tanto mais porque a matriarca decide por um final apoteótico, só razoável se tomada por uma mágoa exponencial. Ou uma doença grave, numa aposta bastante aberta. Não é pouco tirar do espectador a possibilidade de aprofundar melhor um drama que tem sua força, o que poderia mesmo intensifica-lo. Menos mal que o filme tenha qualidades técnicas inegáveis e elenco competente — ainda Renata Grazzini como a mãe, e Sali Cini, no papel da neta — para compensar no que se excedeu. Ou melhor, no que deixou de fora. 

Glória & Liberdade — Raro uma animação nacional voltada aos adultos. Ao menos foi nessa categoria que a diretora baiana Letícia Simões o incluiu na apresentação e debate que costumam integrar as sessões da safra brasileira do festival. Não está errado, mas talvez um tanto impreciso, porque há uma conotação didática na pegada documental do projeto, em muito devido a sua origem em um fundo educacional. Parece, em suma, um projeto de caráter escolar, o que não necessariamente o desabona e nem tira méritos. Trata-se de um painel das lutas de independência de menos fama travadas no Brasil, e um tanto esquecidas,  movidas por núcleos específicos de trabalhadores, agricultores, oprimidos em geral, e nao por acaso envolvendo negros e indígenas. São fatos que entraram para a história mas não ganharam relevancia nos livros didáticos e  currículos escolares, a exemplo da Cabanagem, Sabinada e Balaiada. A animação revisita essas batalhas utilizando arquivos, mapas, perfis dos responsáveis e participantes, tudo, claro, pela técnica de desenho que se nao é tão caprichada, condiz com a proposta palatável. Apenas que faz isso num ritmo feérico, sob fundo musical sem trégua, numa sucessão de cenas sem pausa para reflexão. A horas tantas, o dispositivo nos distancia e mesmo mina o interesse em seguir na trilha, inclusive geográfica, dos acontecimentos. 

Um Corpo para Habitar — Neste caso, não se pode reclamar do esmero da pesquisa, da qualidade técnica, enfim, do rigor documental. A questão, contudo,  está na temática que envolve a personagem principal, seu universo, digamos, indigesto. É outro, muito distinto, do desafio proposto em comparação aos touros ensangüentados da carnificina mostrada por Albert Serra em Tardes de Solidão. Aqui, estamos no ambiente dos adeptos da prática de perfuração, automutilação do corpo, como projeto artístico, mas sobretudo sentido de vida, inclusive com veios espirituais. Não é o mero piercing que se tornou moda juvenil, ou mesmo de adultos, como símbolo de provocação ou simples adorno. Ainda que piercing seja expressão utilizada, os homens e mulheres que o adotam vão além da conotação de imagem. Para eles, é um ritual para alem do limite físico, a dor como expugnação. O guru dessa turma e protagonista, ao menos nos Estados Unidos, é Fakir Musafar (1930-2018). Suas experiencias iniciadas na São Francisco na virada dos 1940 para 1950, quando ainda adolescente, inclui se mutilar com alfinetes e argolas, e ápice da prática, se pendurar em correntes há metros de altura do solo. O documentário não poupa os detalhes e excentricidades do movimento, que pode atrair eventuais interessados, mas se faz muito pela qualidade da abordagem. 

Olhar (2) – Apostas na linguagem e metalinguagem, mas pouco mais

O conceito adotado pela curadoria da mostra Foco, sintetizada na expressão Arquivos Desobedientes, pode em grande parte ser estendido ao que temos visto por aqui em outras seções do Olhar. A seguir, um breve apanhado do saldo dos dois últimos dias, entre a competição e demais recortes:

Paraíso — A diretora Ana Riepper é uma entusiasta da música brasileira e seus documentários refletem a predileção em longas como Vou Rifar meu Coração e o recente Clube da Esquina. Se este novo Paraíso não se configura como um projeto focado na temática, a música está presente de forma contínua no painel das desigualdades, mazelas e problemas crônicos do Brasil, a exemplo do racismo. Trata-se de um apanhado de arquivo atual e do passado com imagens aceleradas do cotidiano e de situações aleatórias, entremeadas com depoimentos de seis ou sete personagens. São pessoas marcadas pela dureza, rispidez da nossa sociedade, que diariamente enfrentam o desafio de terem a cor da pele como distinção. Nesse sentido, o longa tem na proposta  de reflexão política um ponto positivo, mas de pouco impacto ao optar por representações um tanto óbvias, facilitadoras e mesmo ingênuas. Surgem também datadas, resultado do tempo de realização de uma década. A contraposição de situações sintomáticas da desigualdade — exemplo, a polícia batendo em homens negros justaposta a um antigo desfile de moda sofisticado — soa maniqueísta, com raras exceções.

Invenção — O título do documentário já antecipa muito do conceito adotado pela norte-americana Callie Hernandez, protagonista e figura norteadora do projeto dirigido por Courtney Stephens. Com a morte do pai, Callie se reencontra com o passado e revisita a persona paterna tão peculiar e a herança deixada na forma de uma patente de um estranho utensílio de cura. Na comunidade onde o pai morava, ela conhece pessoas próximas a ele, pacientes ou não ligados à invenção, e tenta compreender quem era esse homem de quem se distanciou. Arquivos de programas de TV, nos quais ele vendia seus inventos, conferem um contexto da personalidade do dito médico e também desse tipo de iniciativa numa sociedade de consumo. Bastante curioso, embora seja mais significativo para a protagonista como busca de suas raízes do que propriamente atrativo para a audiência, tendencia comum do movimento documental atual. 

Fire Supply — Eis um exemplo da diversidade criativa, e não necessariamente bem-sucedida, do cinema argentino que costuma ser tão valorizado em comparação ao brasileiro. Mas é no mínimo peculiar o registro entre excêntrico e surreal que a diretora Lucia Seles, já com longa carreira, faz de uma zona periférica de Buenos Aires. Duas ou três situações levadas por atores profissionais ou amadores se entrecruzam com diálogos irreverentes, a exemplo de uma dupla formada por uma senhora de passagem e um rapaz jovem que gruda nela para lhe dar assistência na rodoviária. Em outra ação, em torno de um clube de tênis, o proprietário lamenta a morte da cachorra de estimação, tristeza que compartilha de modo intenso com uma treinadora do esporte nada ortodoxa e uma cantora. As quase três horas de duração ainda trabalham com narração, frases conectadas ou não com a trama, entre outros acessórios de linguagem. Nem tanto pela estranheza, que consegue certa comicidade, mas pelos diversos formatos, o longa muitas vezes provoca uma distração,  confusão mesmo para acompanhá-lo. De todo modo, é uma proposta inventiva que parece em acordo com o universo provinciano sobre o qual quer refletir. 

Explode São Paulo, Gil – A diretora paulista Maria Clara Escobar ganhou notoriedade desde seu primeiro longa-metragem, o documentário Meus Dias com Ele, um ajuste de contas com o pai distante, o filósofo Carlos Henrique Escobar. Como naquele, aqui também ela se coloca como personagem, mas em formato de pegada híbrida, na medida em que algumas situações brincam com a realidade e ficção. Esse duplo de linguagem contempla também a protagonista, Gil, mulher lésbica da periferia paulistana que se divide entre faxinas domésticas para sobreviver, o sonho de se profissionalizar como cantora e a difícil condição da epilepsia. O encontro de diretora e personagem se deu justamente porque Gil trabalhou para Maria Clara, que a horas tantas sugere ter necessitado ela mesma atuar como diarista para pagar as contas — o que sabemos, não é muito óbvio quando se trata do métier cinematográfico no Brasil. A primeira metade do documentário é usado para dar conta das reflexões entre ambas, de Gil com sua parceira, de seus bicos nas noites de karaokês etc, o que torna o filme um pouco aborrecido. Mas a partir da segunda hora, a atuação de Gil explode no palco e vem acompanhada de um painel realista que cobre o período de eleições de 2018 e a convulsão política do país. O filme, então, ganha em combustão, e explicita seu registro rico de uma personagem singular. 

Olhar (1) – O ‘sangue e areia’ radical de Albert Serra e os pregadores mirins de Miguel Ramos

Olhar (1) – O ‘sangue e areia’ radical de Albert Serra e os pregadores mirins de Miguel Ramos

Difícil iniciar uma programação de festival pelo biscoito fino que vem de um dos realizadores mais estimulantes do cinema internacional. O que seguirá depois, supõe-se, no mínimo deve deixar um retrogosto no paladar. Torçamos para que não, mas o catalão Albert Serra se esmerou para causar esse sentimento com Tardes de Solidão. No primeiro dia oficial do calendário anteontem, o filme integra foi o recorte Exibições Especiais. O tema é indigesto para muitos, e mesmo alguns espectadores deixaram a sessão com pouco público. Serra registra no formato documental a maior tradição, digamos, cultural da Espanha, as touradas. Diga-se que para um catalão, ainda que sem uma postura precisa sobre o contexto local, filmar o controverso esporte já sugere um ato político crítico. Quanto mais porque ele não economiza nas tintas vermelhas do violento ritual. 

Há uma personagem central em cena, o jovem toureiro peruano Andrés Roca Rey, um dos mais bem-sucedidos desse universo. Serra o transforma num objeto de estudo. Numa turnê pela Espanha, a câmera está sempre em seu rosto, em seu corpo naquele balé tão característico da touradas, as vestimentas requintadas e cintilantes. Nunca se viu um toureiro em sua intimidade com o assistente se vestindo, num ato que lembra um sacrifício religioso. Desse micro universo ao, arrisque-se, espetáculo da arena. Sangue e Areia, o título do clássico de Rouben Mamoulian. Mas o documentário não quer idealizar, festejar as touradas como Mamoulian. Longe disso. Sempre no foco em Roca Rey, segue o martírio do touro, banhado em sangue, até o ato final de…clemência? 

Não exatamente, mas é como Roca Rey, os toureiros, enxergam o embate com o seu inimigo de chifres. São três, quatro batalhas mostradas com detalhes incômodos. Mas creio que Serra quer sobretudo lançar  a questão do porquê a tradição prossegue cruel para alguns, ritual de virilidade e valentia para os que se espremem na arquibancada estimulando seu herói. Sobretudo, qual o motivo que leva um rapaz de 28 anos a fazer das touradas razão de vida. Quanto muito, ele se deixar levar por uma comemoração bebendo com os colegas. Não vemos vínculos familiares, uma namorada, e sim conversa entre machos. Mas inevitável considerar o espetáculo que Serra filma de modo sublime. Junta-se a mestres como Francisco Rosi, num filme um tanto esquecido sobre as touradas. O cinema sempre amou o visual e os ritos do esporte. Mas os tempos são outros. O colega Luiz Zanin lembrou o episódio dos Cahiers du Cinema e sua capa para o filme. A revista ama Albert Serra. Virou alvo de ataques pela decisão.  No número seguinte, o atual, faz editorial dando conta da escolha de Tardes de Solidão e reafirmando a postura. Estou com eles, os Cahiers. Só não vê o subtexto critico quem não viu o filme, exatamente o caso dos que atacaram. 

A Voz de Deus

Primeiro há um espanto, mas a julgar para quem desconhece o fato. Um menino, de não mais de dez anos, está no púlpito com a pregação inflamada típica das igrejas evangélicas. Chama-se Daniel Pentecostes. A personagem é central no documentário de Miguel Antunes Ramos, A Voz de Deus, primeiro competidor brasileiro exibido por aqui. Daniel será visto em três fases de sua trajetória, digamos, religiosa. Novinho, surge em imagens de video caseiro sendo preparado pelo pai como pastor desde a infância e em ação na igreja. Depois, na atualidade em que o documentário foi realizado, o vemos pós-adolescente enredado em outros compromissos desse universo, em congressos dos pregadores mirins, mas também com uma namorada. Por fim, maduro, casado e com duas filhas, mudou-se de Brasilia para São Paulo, deixou a pregação e arrumou emprego precarizado. Em paralelo, há outro menino prodígio, ao menos para o meio, que inicia sua vida no púlpito. É ainda mais descarado na venda de souvenires que renderão dinheiro extra à família. Sai uma geração e entra outra, na concepção de narrativa do talentoso diretor.

Mais uma vez, um espanto. Não sabia desse movimento dentro das igrejas pentecostais. Revelar seus meandros não é a única contribuição do filme. Os dilemas e desafios do jovem adulto Daniel mostra a carga de responsabilidade, no limite da lavagem cerebral, que um pai imbuído de certa ganância joga sobre o filho. Estamos no auge da campanha bolsonarista para 2019 e isso vem colado à prática paterna. Adolescente,  Daniel já questiona os ditames do “mito”, mas ainda vai se libertar. No rápido debate depois da exibição, a personagem não é mais aquela da tela. Mesmo no visual, abandonou o tipo limpinho, cabelo aparado, roupas sociais. Mas principalmente, veio com um discurso politizado, franco, bem articulado, de quem deixou a Bíblia e passou a ler Saramago. Um retrato e tanto do Brasil atual.          

Olhar de Cinema abre com teia de vingança em noite gelada

Mais uma vez no Olhar de Cinema, o festival internacional de Curitiba que é referência de curadoria no calendário brasileiro. E a 14a edição, com encerramento dia 19, não deve frustrar a expectativa. São quase uma centena de produções, entre curtas e longas, com a habitual separação entre mostras competitivas, paralelas como a Foco e a Mirada Paranaense, exibições especiais, clássicos e uma retrospectiva. Este ano a escolhida é a francesa Agnès Varda, com dez de seus filmes. Na seleção de clássicos, títulos nativos e estrangeiros vão de A Grande Cidade, de Cacá Diegues, morto em fevereiro passado, a Greve, de Eisenstein.  

Na teia de Arame 

Como aconteceu nos últimos dois anos, o evento sob direção do simpático Antonio Jr. e sua competente equipe de curadores abriu a festa na Ópera de Arame, símbolo arquitetônico e turístico da cidade. Tem sido um sucesso na agenda curitibana, sem dúvida, mas… Estrutura de ferro vazada e com muito vidro, cercada de água, deve ser o local mais frio do planeta para se assistir a um filme. Os termômetros marcavam 9 graus, mas a sensação era bem mais. Mesmo assim, o público de mais de 1.500 pessoas aguentou firme até o final da exibição de Cloud, no Brasil Cloud – Nuvem de Vingança, do japonês Kiyoshi Kurosawa, nome cult do cinema japonês. É a primeira vez que um título internacional inaugura o festival na Ópera, que recebe equipamentos e tela gigantesca para se adequar.

Mas não é só esse, pôde-se dizer, estranhamento. Kurosawa — sem parentesco com o mestre Akira — trabalha seu cinema no registro do terror psicológico, por vezes de violência explícita, como é o caso aqui. Talvez programa um tanto pesado para uma partida de festival. Ainda sim, poucos espectadores se retiraram dessa escolha do Japão para representar o país no Oscar deste ano. A primeira hora de filme pode justificar a adesão, com um suspense crescente. Um jovem frustrado pelo trabalho sem perspectivas numa empresa de venda pela internet decide ele mesmo montar seu negócio. Pede demissão, para espanto do patrão, e segue com a namorada para uma casa próxima a Tóquio, onde se instala para revender produtos nas redes. Só que os objetos são falsificados, mas com preços de originais. Bem-sucedido, pagará pelo ressentimento de outros.

O vilarejo também não é lá muito acolhedor para gente da capital, e logo o rapaz se vê enredado numa teia de vingança tanto virtual, planejado por haters, como física. Vira presa, literalmente, de caça. É quando o diretor mostra sua habilidade em sequência tensa e muito bem filmada. Há certo tom cômico aqui e ali, que alivia a barra, e quem sabe aponta que o também roteirista Kurosawa não está muito preocupado com eventuais facilidades e furos na dramaturgia. Quer, afinal, um espetáculo com algum conteúdo para os que quiserem ver o filme como crítica à sociedade da precarização, do individualismo, do sentimento amoral que nos governa atualmente. Nesse sentido, o programa cumpriu seu intento e foi mesmo aplaudido no final.