“Greta” se consagra e vence o Cine Ceará

Seguem os premiados da 29a edição:

MOSTRA COMPETITIVA IBERO-AMERICANA DE LONGA-METRAGEM

 

TROFEU MUCURIPE

(Juri Oficial) 

Melhor Longa-metragem: Greta

Melhor Direção: Armando Praçapor Greta

Melhor Roteiro: Arturo Infantepor Viagem Extraordinária de Celeste García

Melhor Fotografia: Inti Briones, por Canção sem Nome

Melhor Montagem: Joanna Montero, por A Viagem Extraordinária de Celeste García

Melhor SomRomain Huonnicpor Ressaca

Melhor Trilha Sonora Original: Pauchi Sasaki, porCanção sem Nome

Melhor Direção de Arte: Sérgio Silveirapor Notícias do Fim do Mundo

Melhor AtrizMaría Isabel Díazpor Viagem Extraordinária de Celeste García

Melhor Ator: Marco Naninipor Greta

 

PRÊMIOS ESPECIAIS

 

Prêmio da Crítica (Júri Abraccine): Canção sem Nome, de Melina León

 

Prêmio Olhar Universitário (Júri Olhar Universitário) 

Troféu Mucuripe – Melhor Longa: Canção sem Nome, de Melina León

 

MOSTRA COMPETITIVA BRASILEIRA DE CURTA-METRAGEM

 

TROFÉU MUCURIPE

(Júri Oficial) 

Melhor Curta-metragem: Marie, de Leo Tabosa

Melhor DireçãoGiu Nishiyama e Pedro Nishi, por Livro e Meio

Melhor Roteiro: Kennel Rogis e Adrianderson Barbosa, porO Grande Amor de um Lobo

Melhor ProduçãoCearense: Pop Ritual, de Mozart Freire

 

PRÊMIOS ESPECIAIS

 

Prêmio da Crítica (Juri Abraccine): Livro e Meio, de Giu Nishiyama e Pedro Nishi

 

Prêmio Olhar Universitário (Júri Olhar Universitário)

Troféu Mucuripe – Melhor CurtaPop Ritual, de Mozart Freire

 

Prêmio Canal Brasil de Curta-Metragem

Troféu Canal Brasil:grande amor de um lobo

 

Troféu Samburá

(Vida & Arte – Fundação Demócrito Rocha)

Melhor Curta-metragem: Ilhas de Calor, de Ulisses Arthur

Melhor diretorMirrah  Iañezpor Rua Augusta 1029

 

Prêmio Mistika

Melhor filme da Competitiva Brasileira de Curta-metragem: Marie, de Leo Tabosa

 

Prêmio CTAV – Centro Técnico Audiovisual

Melhor Produção Cearense de Curta-MetragemPop Ritual, de Mozart Freire

 

Prêmio Link Digital

Melhor Produção Cearense de Curta-Metragem: Pop Ritual, de Mozart Freire

 

MOSTRA OLHAR DO CEARÁ

 

TROFÉU MUCURIPE

(Júri Olhar do Ceará) 

Melhor Longa-metragem – Currais, de David Aguiar e Sabina Colares

Melhor Curta-metragem – Aqueles Dois, de Émerson Maranhão

 

PRÊMIOS ESPECIAIS

 

Prêmio Unifor de Cinema

Melhor Curta-metragemAqueles Dois, de Émerson Maranhão

 

Prêmio Mistika 

Melhor Filme da Mostra Olhar do CearáAqueles Dois, de Émerson Maranhão

 

Prêmio CTAV – Centro Técnico Audiovisual

Melhor Curta-metragem da Mostra Olhar do CearáAqueles Dois, de Émerson Maranhão

 

MOSTRA ÁGUA FUTURO

 

(Júri Olhar Universitário)

Melhor FilmeOlho D´água, de Anália Alencar

 

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Cine Ceará (3): na competição, um Brasil declinado

Faço uma análise aos poucos dos filmes exibidos até agora na competição, que termina hoje à noite com um concorrente da casa, “Greta”, de Armando Praça.

Ressaca —- No palco, ao apresentar seu documentário  dirigido em parceria com Vincent Rimbaux, a realizadora Patrizia Landi explicou se tratar da vida curta de carreira dos bailarinos, como eles não podem perder tempo devido à limitação da idade. Talvez tenha criado uma expectativa que não se justifica plenamente no filme, embora a questão esteja la, apenas que de forma enviesada. A dupla acompanha o Corpo de Baile do Teatro Municipal carioca em sua desesperada tentativa de sobreviver mediante a falta de estrutura ocasionada por atrasos de salários, congelamento de verbas por parte do governo e toda pendência originado disso. E claro, com esse estado de coisas, metáfora se se quiser da decadência moral e financeira da ex-capital, vão se embora os planos, os sonhos, a gana de ascender na carreira, construir uma trajetória profissional minimamente digna. A não ser, claro, para quem decida ir embora, como é o caso da primeira bailarina do teatro que parte para Salzburgo, na ‘Áustria. Faz com aquela dolorida sensação de exílio, de saudade, de deixar seu país porque este não oferece ao cidadão os meios para exercer seu talento. ‘É uma das três personagens que os diretores seguem, saindo do coletivo das assembleias para o individual, sempre no registro de observação e sem entrevistas, ao lado de um jovem bailarino que precisa assumir uma atividade precária de motorista de aplicativo para o sustento da familia, e o funcionário de mais de 30 anos de casa que cobra a mesma seriedade do filho no ofício. Num preto-e-branco que agrava o cotidiano cinzento desses trabalhadores, o filme tem seus momentos tocantes quando o corpo de baile sai às  ruas dançando para ganhar apoio ou no jogo de futebol entre pai e filho no quintal de casa, em referência a um esporte milionário para alguns mas de mesmo modo de vida curta. Bonito e, sobretudo, significativo ao momento.

Noticias do Fim do Mundo — Assim como é repleto de significados e simbolismos o novo longa de Rosemberg Cariry. Do veterano realizador cearense já se espera um cinema, como ele mesmo reconhece, barroco, da poesia e tradições arcaicas da terra nordestina transformada em gesto inquietante, revolucionário mesmo. Mas nada poderia supor a magnitude original deste que talvez seja o mais criativo dos filmes apresentados. Rosemberg o chamou de “transbarroco”. Apontou a absorção e o risco como seus fundamentos principais. Primeiro, na prática. “Notícias” levou nove anos para ser realizado e surge tão fresco e atual que parece ter ido para a sala de montagem no mês passado. Com esse tempo de preparação, foi absorvendo a desenfreada sucessão de fatos politicos que se abateu sobre o País, o nosso, pois o do filme se chama Jenipapuacu. E que seu principal cenário, um velho ônibus esvaziado em movimento, ‘é símbolo maior. Ali dentro vai um grupo de reisado que sequestra um diplomata de país fictício, Golam, tipo que nos remete aos piores fascistas em ascensão. Enquanto o ônibus corre uma metrópole distópica, uma Fortaleza que se transforma com morros e subúrbios cariocas na montagem de imagens documentais, forças militares buscam o refem, dominado pela revolta cultivada em sofisticadas referências literárias do líder da turma, especie de Antonio Conselheiro iluminista. Com a ajuda dos filhos, a produtora Barbara e Petrus, este ótimo fotógrafo, Rosemberg atualiza, moderniza seu cinema sem perder as características genuínas de apego ao universo local do Nordeste. Como notou um crítico no debate do filme, como esperar que num filme em flerte com gêneros, como de ação, surja ao final Angelus Novus, referência a um desenho de Paul Klee estudado por Walter Benjamin e seu proprietário. Caminha em direção a uma serra (o Cariry?), não sabemos se como desistência ou esperança. O filme, claro, assim como o Brasil, não pode oferecer uma conclusão. Um belo projeto, transgressor e rigoroso no que quer falar.

 

Cine Ceará (2): a ingenuidade de “Caritó” e o rigor seco de “Canção sem Nome”

Depois da consagração de “A Vida Invisível” e dos homenageados da primeira noite, entramos na reta inicial da competitiva do CineCeará. E não poderia ser mais antagônica a opção do festival e sua curadoria, a partir deste ano aos cuidados de Eduardo Valente, nos dois filmes de sexta-feira. O primeiro não compete pelos Mucuripes, o troféu cearense, mas ajudou a equilibrar a jornada noturna. “Maria do Caritó” é a comédia teatral de sucesso levada agora às telas por João Paulo Jabur. Como no palco. conta com Lilia Cabral no papel da solteirona de um vilarejo que cultiva sua persona como milagreira. O pai a quer no convento, o poder local e a Igreja nas celebrações e festas religiosas para de algum modo lucrar com a figura vestida de anjo. Mas Caritó, designação de um nicho onde se mantém objetos longe da curiosidade alheia, quer sobretudo casar. Está chegando aos 50 e a cigana garante a ela a chegada de um pretendente em potencial. Sim, ele chega com o circo, um jovem acrobata bonitão.

De autoria de Newton Moreno, e com a presença em cena de seu parceiro de grupo Os Fofos Encenam, Fernando Neves, o texto parece desafiar as exigências do cinema. Imagem e uma dramatização forçosamente diferenciada do palco não alcançam a mesma tessitura sofisticada de herança circense, nas raízes de uma comicidade ancestral, que só o teatro proporciona. Lília é cativante lá e cá, mas me ocorreu todo o tempo que mesma sua figura luminosa não cabia mais na fôrma do tipo solteirona encantada com um rapaz muito mais jovem. Impressão não presente na temporada da peça, que nem tanto tempo faz. Se não cravasse um tempo determinado, como não crava um fronteira regional, o filme entraria por completo num imaginário de ingenuidade, que em tudo o mais procede. Dentro do filme, há o picadeiro, onde tudo é factível. Na cidadezinha, um palco de tipos recorrentes do caipira, do sertanejo, do coronelismo. Fatores que acumulados, junto a um elenco luxuoso de suporte, a exemplo de Juliano Carneiro da Cunha e Fernando Sampaio, tem resultado gracioso, como comprovou a calorosa reação do público. Mas que poderia ter sido mais ambicioso.

É o inverso do que requer a proposta do impactante concorrente peruano “Canção sem Nome”, o primeiro longa da competição a ser exibido, que agradou bastante. O rigor aqui empresta pulsão extra a trama real levada na Lima dos anos 80, em especial numa parte da periferia da capital chamada Lima Sur, para onde migrou uma população carente formada sobretudo por indígenas que não tinham mais lugar na cidade aos olhos dos militares da ditadura. Moradora de um casebre, uma dessas nativas de lingua cheuca tem seu primeiro filho numa clínica clandestina. Sai dali sem o bebê e logo ela e o marido percebem que lhes roubaram a criança. Vão a polícia, buscam ajuda do poder público, mas será um jovem jornalista empenhado quem ajudará a desvendar uma rede de sequestro de crianças.

O desespero, o grito e o choro da mãe, em espetacular interpretação de Pamela Mendoza, ressoam com força suficiente para fazer valer o drama. Mas ainda, e talvez acima de tudo, a fotografia de Inti Briones, fotógrafo peruano de carreira internacional baseado no Rio de Janeiro e um parceiro frequente do cinema brasileiro, conclui com um preto-e-branco asfixiante a imersão nessa tragédia. Evidente, e Inti confirma, a relação com os retratos dos indígenas celebrizados pelo grande fotógrafo peruano Martín Chambí. Imagens que só vem complementar a janela quadrada escolhida pela diretora Melina León em sua estréia em longa. Ela dedica o filme a seu pai, jornalista que revelou essas e outras atrocidades do período e foi perseguido pelas autoridades. Sobreviveu. Sobre as crianças da ditadura, no entanto, pouco ou nada se sabe. Um filme potente, que abriu muito bem uma competição que promete.

 

Com‘A Vida Invisível’ e politização, Cine Ceará abre com noite histórica

É a 29a edição, mas a cara era de antecipação dos 30 anos. Dificilmente o Cine Ceará repetirá a festa e o congraçamento que se deram ontem à noite durante a abertura do evento no belo Cine São Luiz. Em parte, a casa lotada e o frisson ja eram esperados, afinal o filme e as homenagens confluíam para um filho da casa, o cearense filho de argelinos Karim Ainouz. Apenas que houve apelo extra, pois como se sabe seu mais novo longa, A Vida Invisível (de Euridice Gusmão funciona como um subtítulo), foi escolhido nesta semana como o indicado do Brasil a concorrer aos finalistas na categoria do Oscar de melhor filme estrangeiro. E prêmios não faltam na ainda iniciante trajetória do longa, estreado no Festival de Cannes deste ano, onde saiu vencedor da paralela Um Certo Olhar. Não bastasse, também se imaginava euforia com a presença de Fernanda Montenegro aqui em Fortaleza. Ela é uma das atrizes de Karim, em história eminentemente feminina (e feminista). Mais ainda. A presença tradicional de autoridades locais, como o governador Camilo Santana, reeleito pelo PT, ganhou combustão com um convidado de passagem pela capital, o ex-candidato Fernando Haddad. Ovacionado de pé, com gritos de Lula Livre, ele testemunhou ainda uma manifestação de universitários preocupados com a intervenção na Federal cearense, palco de recente eleição polêmica do novo reitor.

Com idas e vindas ao palco do homenageado, sua dama que leu uma tocante carta enviada por Karim quando a convidou para o filme, quebras de protocolo etc, foram cinco horas de cerimônia.  Mas valeu pela sucessão de emoções. E o filme? Arrisco dizer que Karim fez seu filme mais ambicioso e bem urdido ate agora, considerando que gosto bastante de O Céu de Suely e Praia do Futuro. Antes de tudo, ele está em seu domínio no terreno do melodrama e assume-a na referencia que fez hoje durante a coletiva ao Fassbinder de ‘O Medo Devora a Alma’. Apesar de baseado em livro homônimo, de autoria de Marta Batalha, a origem é de viés pessoal. O diretor dedica o filme a sua mãe, Iracema, na historia de duas irmãs de subúrbio carioca e seus infortúnios que as separam nos anos 50. Guardo aqui o final desse distanciamento, mas o que leva o drama são os destinos ceifados de ambas, uma, Guida, pela liberdade de decidir amar um marinheiro, e Euridice por não conseguir vencer o machismo tacanho daquela (desta?) ‘época, com um marido que não aceita que ela exerça deu talento de pianista. Quero voltar ao filme, de muitas e belas camadas, elenco e fotografia primorosos, numa costura luxuosa.

Olhar (2) – Alguns destaques entre os novos

Faço um apanhado das novidades apresentadas pelo festiva curitibano, encerrado ontem:

No Alto da Montanha — O retrato de uma comunidade isolada e de cotidiano particular nas montanhas chinesas é um ensaio documental pictórico do diretor Zhang Yang. Ele aproveita o oficio da pintura praticado pelos mais velhos, em estilo naïf dominado pelas cores, para trabalhar a fotografia e uma mise-en-sc`ene de belo visual, além da própria janela escolhida, quadrada. Enquanto as mulheres pintam, os mais jovens buscam desenvolver o potencial turístico do local, construindo junto com um arquiteto novas pousadas. Tradições como festas populares e casamentos, sempre datas celebradas com muita comida, complementam o inventário. Poderia ser mais enxuto do que as mais de duas horas, mas é um bonito mergulho numa China equilibrado entre o arcaico e o novo, em complemento a Pretérito.Imperfeito, que comento em seguida.

Pretérito. Imperfeito —   Em oposição ao bucolismo de No Alto da Montanha, a China da diretora Zu Shengzhe é aquela da modernidade universal. Vídeos de transmissão ao vivo pela internet formam o material do documentário, numa colcha de retalhos das estranhezas que costumam navegar nesse mundo virtual. Há adolescentes buscando a autopromoção e influência, homens e mulheres solitários que usam a ferramenta como terapia e desabafo, um deficiente físico que consegue a atenção através da telinha enquanto sofre o desprezo dos passantes numa praça movimentada… A princípio, não há aqui muito além do que já se conhece desse admirável (?) mundo novo. Mas o fato de ser a China, um país que sempre nos surpreende, torna o modelo algo curioso ainda que repetitivo nas situações.

Diz a Ela que Me Viu Chorar — O vencedor da competição oficial, primeiro filme brasileiro a ganhar em oito anos de festival, vem se juntar a um painel de excluídos urbanos iniciado por Era o Hotel Cambridge e o ainda inédito Cine Marrocos, este ganhador do mais recente É Tudo Verdade. Em comum, os documentários focam personagens de São Paulo — mas a referência pode ser nacional — de alguma forma fragilizados por um contexto de falta de emprego, moradia, dignidade e tudo o mais que o capital e a dura sobrevivência nas metrópoles pode negar a um ser humano. No caso dos filmes de Lili Caffé e Ricardo Calil, são moradores de rua, imigrantes e outros potenciais miseráveis habitantes de ocupações, os chamados sem-teto. No de Maira Buhler, o perfil dos tipos pode ser o mesmo, apenas que eles ocupam um edifício que serve como abrigo em projeto do governo dedicado a viciados em crack. Ocupavam, pois o chamado programa de “redução de danos” foi desativado pela gestão de João Doria. A câmera de Maira se insere no cotidiano desses seres em recuperação e mostra os problemas pessoais e comunitários que vão da afetividade às brigas de casais e entre moradores. Como se viu ou se poderá ainda ver nos demais documentários em dialogo com esse retrato duro, não é fácil captar franqueza e um sentimento genuíno quando se ‘é um “estrangeiro” nesse universo de perplexidades. Mas a jovem diretora consegue a empatia de seus personagens e nos emociona.

 

‘Diz a Ela que Me Viu Chorar’ vence Olhar de Cinema

Seguem os premiados da 8a edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba:
Prêmio AVEC-PR
_ Melhor curta-metragem da mostra Mirada Paranaense;
Mirror Mirror on the Wall, de Igor Urban
_ Menção Honrosa;
Essa Terra não vai Terminar, de Matias Dala Stella
Prêmio da Crítica / Abraccine
_ Melhor longa-metragem da mostra Competitiva;
Casa, de Letícia Simões
Outros Olhares
_Prêmio de Melhor Filme da mostra Outros Olhares | Longa;
No Salão de Jolie, de Rosine Mbakam
_ Menção Honrosa;
Indianara / Indianara
de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa
Novos Olhares
_Prêmio de Melhor Filme da mostra Novos Olhares;
Não Pense que eu vou Gritar, de Frank Beauvais
Melhor Filme Brasileiro | Longa
_Prêmio de Melhor longa-metragem brasileiro;
Espero tua (re)volta, de Eliza Capai
Melhor Filme Brasileiro | Curta
_Prêmio de Melhor curta-metragem;
Quebramar, de Cris Lyra
Público
_Prêmio do Público;
Chão, de Camila Freitas
Competitiva
Curta-metragem
_Prêmio Olhar de Melhor Filme;
Aziza, de Soudade Kaadan
_Menção Honrosa curta-metragem
Sete anos em Maio, de Affonso Uchôa
Longa-metragem
_Prêmio Olhar de Melhor Filme;
Diz a ela que me viu Chorar, de Maíra Bühler
Longa-metragem
_Prêmio de Contribuição Artística
Seguir Filmando, de Saeed Al Batal, Ghiath Ayoub
_Prêmio Especial do Júri;
Chão, de Camila Freitas

Olhar (1) – As miradas sobre Raúl Ruiz

O mestre chileno Raúl Raiz, morto em 2011, é objeto de retrospectiva de seus filmes realizados ainda no Chile, antes de ele se exilar na França. São sete longas e um curta-metragem, com a chancela de restauro da Cineteca de Santiago, uma produção pouco conhecida e rara de ser vista por aqui. Em comum a essa fase, uma linguagem anti-naturalista, ousada, e sobretudo, o tom político, transgressor, que caracterizaria afinal seu cinema. O ciclo teve início com A Vocação Suspensa, de 1977, em temática religiosa, e no caso a do catolicismo evidentemente, a qual Ruiz seria crítico recorrente. Exemplar aqui pois se trata dos choques ideológicos, mas também da vocação em questão, que passam a ocorrer numa abadia. Em outra característica dos filmes de Ruiz, a narrativa se marca por longos e profundos diálogos, sob  uma mise-en-scene sofisticada que só cresceria no período francês  em longas como O Tempo Redescoberto Mistérios de Lisboa.

Mais flagrante de um contexto social, de consciência de uma época,  é Três Tristes Tigres, título referencial realizado uma década antes e oficialmente o primeiro longa se considerarmos um trabalho anterior não finalizado. Não se baseia no famoso romance de Cabrera Infante, mas sim em peça teatral do chileno Alejandro Sieveking. Em cena, tipos sociais `a margem no trio formado por um pequeno escroque, sua irmã bailarina de clube noturno e eventual prostituta, além  de um amigo de ambos. Muita bebida, miséria e violência vão levar a um final fatal. Com Diálogos de Exilados,  de 1975, Ruiz dá  conta do pos-golpe em seu país, momento em que também parte para o exílio, e retrata no registro fronteiriço entre documentário e ficção o cotidiano de seus compatriotas em Paris.

Por fim, até programação vista nesse momento, o exigente e complexo O Teto da Baleia trabalha pelo registro surreal o tema da colonização e pos-colonização em suas vertentes espanhola e inglesa. O cineasta adiciona elementos complicadores, como os vários idiomas falados pelos personagens, em outro triângulo também amoroso, e filtros que alteram as cores conforme as circunstâncias e animosidade em cena. O requinte não fica apenas na narrativa, mas também nas citações literárias, como Italo Calvino. Proposta difícil, mas como sempre com Ruiz recompensadora.

 

 

Novos e velhos olhares em Curitiba

Começou quarta à noite, com abertura para convidados e público, a 8a edição do Olhar de Cinema. E não poderia ter largada melhor para cinéfilos do que um breve, mas substancioso, “olhar” sobre Eduardo Coutinho. O diretor Josafá Veloso fez uma entrevista com o documentarista em 2012, dois anos antes portanto dele morrer, e transformou o encontro no longa Banquete Coutinho. Ouvi-lo é sempre um privilégio e bastaria a conversa para nos prender. Mas Veloso, com parceiros de produção dedicados como Eugênio Puppo e Mateus Sunefeld, não se contenta só com o falar tão característico do realizador de Cabra Marcado para Morrer e Edifício Master, a voz rouca pelo cigarro, o tipo tão mal humorado. Há uma esperta montagem com os documentários e cenas de O Pacto, um dos episódios de ABC do Amor, uma de suas poucas ficções. A estrutura confere fluidez ao filme, mas o que chama atenção maior  são as citações de teóricos em sua fala, pouco usuais na reflexão sobre o cinema, a vida. Se o título sugere Platão, Coutinho cita Lacan, Pierre Bordieu, Benjamin. No inicio, ele se mostra resistente, de ma vontade mesmo com a entrevista. Logo se solta e nos dá momentos de sabedoria e vivência, de um senso até comum, como são os personagens de seu cinema. Fala da morte, e como se sabe, a dele foi trágica. É sempre bom relembrar Coutinho. Agora a mostra prossegue em outro banquete, aquele de filmes inéditos, de realizadores jovens e veteranos, assim como retrospectivas, fatia forte por aqui. Basta citar Raoul Ruiz. Deixarei minhas impressões por aqui.

Berlinale 69 (5) – Três brasileiros, documentais ou não

No meio da correria entre os filmes da competição e outros da paralela, tenho tentando ao máximo encaixar os nossos representantes. Até aqui a conta foi boa. Vi três brasileiros, no que podemos chamar de documentários. Ou não? Por certo sim o de Marcelo Gomes, com seu poético título ‘Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar’. E claro que a canção de Chico Buarque está presente, ao final, e pelo que entendi nos créditos interpretada pelo grupo Grivo. Pernambucano do agreste, Gomes esteve na Berlinale há dois anos com o belo ‘Joaquim’, então na competição. Agora apresentou no Panorama um cativante retrato da cidade onde nasceu, Toritama, que não era mas se tornou a capital do jeans. A facção, como se chama a produção de roupa, movimenta o local em oficinas improvisadas de garagem. Os turnos diários sobre a máquina de costura para homens e mulheres não duram menos que doze horas.

Surgem personagens que como todos ali sonham em ficar ricos, mas Gomes escolhe um ou dois para um registro mais aprofundado. Um documentário, como se sabe, ganha bastante quando são figuras ricas no falar, no se expressar. E o título, afinal? Se o dinheiro da venda das peças não for o bastante, os moradores vendem o que tem, eletrodomésticos, objetos de todo tipo, e partem para as únicas férias do ano na praia, e claro, durante o Carnaval. No Q&A na sequência da sessão, houve quem pedisse vozes mais críticas ao trabalho insano dos moradores, da percepção equivocada de entregar sua vida ao ofício na busca pelo ouro. Gomes não questiona, abre a câmera para mostrar o sonho de seus conterrâneos. Me parece que o recado é claro e se trata das possibilidades de sobrevivência fora dos grandes centros urbanos. Outro pernambucano, Gabriel Mascaro – presente aqui com a ficção Divino Amor, que pretendo recuperar até o final da Berlinale – é lembrado nos agradecimentos e creio que tem a ver com uma passagem de Boi Neon na mesma Toritama que faz fama pelo jeans.

Reflito sobre o formato documental mais tradicional em função sobretudo do filme de Helvécio Marins Jr. Querência justifica seu título pelo amor à terra dos peões boiadeiros do interior mineiro. Trabalhadores de fazendas, eles alcançam seu triunfo quando entram em cena nos rodeios, vestidos à caráter. Ali a terra treme, anuncia um grande neon, e não por acaso vem a lembrança dos pescadores de dura lida no filme de estréia de Visconti. Um vaqueiro que busca fama como locutor serve de linha condutora também para uma questão maior. Roubos de gado acontecem com frequencia na região e Marins encena tomadas noturnas para dar conta da falta de segurança e medo dos trabalhadores. A encenação também se mostra nas situações do vaqueiro com seus colegas e com a irmã que vem da capital para visitar e não pretende mais voltar a morar ali. Difícil também não recordar nas falas e no jeito do expressar local de Guimarães Rosa, grande representante na nossa literatura do mundo do aboio e seus vaqueiros.

E por fim, não vi nada até agora tão desconcertante quanto ‘A Rosa Azul de Novalis’, parceria de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. O que não quer dizer que a sensação seja aqui uma qualidade, embora devo reconhecer que em muitos pontos o breve (são 70 minutos) registro sobre Marcelo evolui para momentos bem interessantes e, digamos, radicais. Abre com o rapaz nu, de costas, e a imagem do que ele chamará de deus, e que tenho que dizer vem a ser seu cu, se repetirá em outro momento. Os diretores não podam os desejos mais eróticos, pornográficos mesmo, de seu protagonista, incluída uma felação explícita com direito a chuva de prata. Bem, esse é o saldo apelativo do filme para quem quiser ver assim. A proposta é também despir o rapaz em outro conceito. Gay soropositivo, Marcelo fala a câmera de suas memórias familiares, nas quais entram um pai dominador, incesto e uma morte precoce, e sua visão atual de mundo, sexo, relações etc. Articulado, mostra-se culto e admirador de música e literatura, incluindo a do poeta romântico alemão Novalis e sua obsessão por uma rosa azul, e por aqui, de Hilda Hilst. Tudo muito fiel a um jeito de ser. Não se sai do filme, por certo, indiferente.

Imagens encenadas e um  acompanham

 

 

Berlinale 69 (4) – A tortura de Fatih Akin e dois bons concorrentes

Fatih Akin radicalizou. Isso poderia até ser bom porque o filho de turcos nascido na Alemanha despontou muito bem na carreira mas decaiu, passou a fazer um cinema morno, perdeu a mão. Vá lá que Em Pedaços é um filme digno, mas deve bastante de sua força a Diane Kruger, que levou merecidamente prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel da mulher devastada pela perda do marido e do filho para o terrorismo. A questão é que agora ele vai para uma outra ponta, extrema, com The Golden Glove. A Luva Dourada. O título se deve ao nome de um bar decadente da cidade do diretor, Hamburgo, na trama de contornos reais que se passa nos anos 70. Mal chegam a ser boêmios as prostitutas velhas e os bêbados dos mais estranhos naipes os frequentadores dali. Akin não economiza na sordidez humana. Entre os habituais do local está Fritz, com seu rosto deformado, sua leve corcunda, seu tipo miserável. As mulheres, nem aquelas, o querem. Em vingança, ele as atrai para sua casa e as mata com requintes de crueza. O filme já abre com um cadáver sendo esquartejado.  Mas ouvimos, não vemos, e já basta. Fritz estoca alguns pedaços, e bem… Os assassinatos se repetirão ad nauseum, e um tanto quanto o Jack de Lars Von Trier, somos torturados a exaustão. Quem quiser, verá certo humor cínico. Uma família de gregos vizinha é sempre culpada por Fritz pelo mal cheiro no edifício. No início, ele se encanta com uma jovem de ar virginal. O espectador sabe que ela retornará em algum momento. Sua perversão, no entanto, se volta sempre as mulheres mais destituídas de beleza e vida. Difícil imaginar que o ator Jonas Dassler não seja lembrado para o prêmio de melhor ator. Ele está, digamos, repugnante.

Os outros dois filmes da competição não alteraram muito a rota até aqui. Da Macedônia vem Deus Existe, Seu Nome É Petrunya, em tradução literal. Em meio a uma celebração religiosa tradicional de uma cidade do interior, Petrunya ousa mergulhar no rio para apanhar o crucifixo jogado pelo sacerdote, num jogo destinado apenas para homens. Não o faz por ser religiosa. Com o feito, a moça quer afirmar seu valor, refazer sua auto estima, constantemente diminuída pela mãe por ser solteira e desempregada aos 30 anos. Sua atitude se torna um escândalo, com direito a uma repórter sensacionalista, e ela vai parar na delegacia pressionada por policiais e pela Igreja a devolver o objeto. Por coincidência, vi o filme ao lado de uma colega macedônia, que me contou ser fato real. Gostei, em especial porque a jovem vai ganhando contornos especiais, perspicaz e consciente de seu poder. Há quem veja uma possibilidade para algum prêmio depois que madame Binoche derrapou na coletiva do júri ao defender que se desse tempo para um julgamento justo de Harvey Weinstein, o poderoso produtor de Hollywood acusado de assédio sexual. Petrunya seria uma saída honrosa para calar quem não gostou do comentário.

Confesso que uma das minhas maiores resistências desse festival era enfrentar as duas horas e meia do novo filme da polonesa Agnieszka Holland, com seu cinema classicão e desinteressante. Bem, Mr. Jones não foge à regra do formato clássico de se contar um fato real histórico, costurando jornalismo e o período soviético de Stalin. E o faz com rigor, baseando-se na figura do jornalista galês Gareth Jones, o primeiro a testemunhar a fome, a miséria e a morte por inanição na Ucrânia de 1933. Vendido como um plano de modernização modelo pelo líder comunista, o projeto encobria um massacre. Jornalista respeitado, Jones consegue vencer a burocracia e o jogo político soviético, inclusive do colaborador anglo-americano e vencedor do Pulitzer Walter Duranty, e volta com material explosivo para publicar. Não consegue. A imprensa não acredita ou não enfrenta o poder e a diplomacia. Prefere denegrir Jones. Esse lança um arriscado último golpe e convence William Randolph Hearst – sim, o magnata de Cidadão Kane – a comprar o furo. E o resto é história. Tem valor, portanto, e com pique quase de um thriller, esse bom filme inesperado de Holland.