Body, soul e bigode na Berlinale

Começou no início da tarde, ao meio-dia, a trajetória do filme húngaro On Body and Soul rumo ao Urso de Ouro que acabou por se efetivar agora a pouco, na cerimônia de entrega dos prêmios principais. Antes, foram anunciados os troféus paralelos na sala de coletivas do festival. E o Brasil levou um deles, o único, com a escolha do filme de Júlia Murat, Pendular, na seção Panorama pelo júri da crítica internacional da Fipresci. Júlia discursou emocionada e lembrou um velho amigo de sua família (ela é filha de Lúcia Murat) que conversava sobre cinema à mesa em sua casa, o crítico José Carlos Avellar, morto no ano passado. Dedicou a ele o prêmio. Outra mulher, a húngara Ildikó Enyedi subiria ao palco duas vezes, uma também para o prêmio da Fipresci na competição principal, outra para a preferência dos leitores de um jornal local. Ao agradar crítica, público e finalmente o júri oficial de Paul Verhoeven, On Body and Soul fez barba, cabelo e bigode, como se diz.

Ao anunciar o Urso de Ouro, Verhoeven justificou usando uma palavra definidora, compaixão. Teria despertado esse sentimento a todos do júri a história de uma relação amorosa peculiar, ela uma jovem infantilizada, metódica e fechada para a paixão, ele homem mais experiente que tenta vencer a barreira. Tem uma deficiência física, a falta de um dos braços. São pessoas, em algum ponto, marcados por um traço incomum e isso parece tornar-los vulneráveis perante a sociedade. Preferem se corresponder pelos sonhos, num toque fantástico. Em tempos de intolerância, ódio, as sutilezas com que a diretora trata o drama é tocante. Não sou grande entusiasta do filme, mas me parece que foi a escolha de concordância. Curioso que foi o segundo competidor a ser exibido e vieram outros talvez ate´mais potentes. Mas faltou o grande filme nesta edição e a saída pode ser a conciliação.

Gostei no geral das escolhas, ainda que surpreendentes por desbancar expectativas dadas como certas. Talvez a maior tenha sido a atriz de Hong Sangsoo, Kim Minhee, derrotar a preferida Daniela Vega, a transexual (na realidade e na tela) de Una Mujer Fantastica. Mas esta teve seu quinhão na noite ao subir no palco sob grande aplauso quando Sebastián Lelio e Gonzalo Maza receberam o Urso de Prata de melhor roteiro. Foi surpresa, mas também foi bonito ouvir Kim Minhee agradecer emocionada. E ela faz um grande trabalho. Se Vega foi aclamada, papel antipático fez Aki Kaurismaki. De início, ele parecia apenas desconcertado e provocador. Ao se anunciado melhor diretor, demorou a se levantar, mas não seguiu para o palco. Resultado: o diretor do festival e a jurada incumbida de entregrar o prêmio foram até ele, que deu um muito obrigado sem convicção e despachou o troféu para os colegas. Obviamente, o finlandês esperava o ouro, não contentou com a prata.

A diferença de comportamento se evidenciou quando o congolês Alain Gomis subiu para receber o Grande Prêmio do Júri por Félicité, outro belo acerto. Falou das dificuldades de seu país e esperar que o prêmio ajudasse a melhorar a situação. Para uma edição de exemplares interpretações, a figura masculina também deve ter dado trabalho ao júri e a decisão ficou em casa, para Georg Friedrich em Bright Nights. Ele foi irreverente e antes de agradecer tirou um chiclete da boca e o colou no Urso. Se tínhamos, o Brasil, alguma chance, ela se perdeu aí, pois Júlio Machado faz grande atuação também em Joaquim. Assim como o ator de Ana, Mon Amour parecia insuperável. O filme romeno, por fim, ganhou por sua montagem, realmente valorosa, num prêmio de contribuição técnica. O mais estapafúrdio, porém, foi ver a veterana Agniezska Holland ser escolhida por seu filme Pokot-Spoor para um prêmio que abre novas perspectivas. Deus nos ajude se essa for alguma nova tendëncia, num filme antiquado e quase constrangedor para quem já fez belos trabalhos no passado.

Voltando ao prêmio brasileiro, não tive tempo de postar um comentário sobre Pendular, e na verdade fiquei conjecturando sobre o que gosto e o que não gosto no filme de Júlia. Achei corajosa a transição que ela faz de “Histórias que Só Existem Quando Lembradas”, que dá conta de uma pequena cidade e vidas paradas no tempo, para este agora retrato moderno de casal jovem, tendo talvez o ponto de contato da reclusão com o filme anterior. Mais uma vez, reforçando a tese da força de intepretação desta Berlinale, Rodrigo Bolzan e Raquel Karro vem do teatro e tem desempenho vigoroso, físico mesmo, ele como artista plástico e ela bailarina. Vivem num galpão onde tocam seus trabalhos e a paixão. Parece o sonho perfeito, mas quando vem a notícia da gravidez a crise se impõe. Ao final das sessões, Júlia contou que se inspirou em parte na sua verdadeira relação com o marido, o diretor e roteirista do filme Matias Mariani. A decisão de fechar num huis clos a relação do casal é arriscada, e o pouco que o filme se abre ao exterior parece revelar um ceticismo de que a vida lá fora só oferece dor e tristeza. Seria essa ambivalência, o pendular do filme também? Vou me dar o direito de por enquanto me manter num pêndulo quanto a apreciação da proposta de Júlia e dar nova chance ao filme.

 

Berlim (9º dia): E o romeno Calin Netzer conseguiu de novo

Antes de repassar a última manhã da competição, um reparo. Havia escrito que as doze produções brasileiras presentes na Berlinale assinaram a carta de protesto quanto aos rumos da política do governo voltada ao audiovisual, lida ontem por Marcelo Gomes na coletiva de imprensa e depois na gala de “Joaquim”. Na verdade, João Moreira Salles, de “No Intenso Agora”, optou por não assinar. Que não se julgue de modo incisivo o que pode ser uma postura diversa aos demais realizadores. Saí faz pouco de ótima entrevista com Gomes e ele disse esperar que seu filme ajude não a dividir ainda mais o já polarizado debate nacional mas sim somar cabeças e opiniões que amam o Brasil. “Se gostamos do nosso país, temos que achar um jeito de melhorá-lo. Todos juntos”. Ponto final.

E não é que há um ponto de contato entre “Joaquim” e “Ana, Mon Amour”, o filme do romeno Calin Peter Netzer que encerrou esta manhã a seção competitiva pelos Ursos? No Tiradentes humanizado de Gomes, o alferes precisa cortar seu longo cabelo não por uma contingência militar, mas porque a praga do piolho atormenta a todos. Gomes explicou a cena como um desafio, pois não haveria take 2. A escrava “Preta” pega uma tesoura e tosquia a cabeça de Joaquim-Júlio Machado. Chegou a machucar ambos, mas ótimos atores, seguiram com a tomada. É possível ver semelhança física entre o ator brasileiro e o protagonista de “Ana”. Mas para marcar a passagem do tempo, entre juventude e maturidade, Toma, o personagem, também perde o cabelo. Surge cabeludo para mais tarde deixar a vista uma calvície iniciante.

A questão é que o ator Mircea Postelnicu roubou as esperanças dos jornalistas brasileiros, ao menos de alguns deles, de ver Júlio Machado subir ao palco da Berlinale amanhã a noite para o prêmio de intérprete. E não deverá ser pelos atributos físicos que ambos expõem em entrega total, e o nu frontal masculino foi recorrente nesta Berlinale, a medição do júri. O talento, digamos, artístico deixa o romeno com poucos centímetros na dianteira como o homem que é o equilíbrio de Ana, de forte instabilidade mental. De volta ao esforço físico em cena, a cãmera capta a ejaculação de Toma na transa do casal, ele preocupado em gozar fora para não engravidá-la. Ambos se conhecem na faculdade e contra a vontade dos pais dominadores assumem sua relação. São filhos únicos e vivem cada um seu trauma familiar, o suicídio do pai de Toma, o sumiço do pai de Ana quando criança.

Film stills

Quem viu Instinto Materno, o filme anterior que deu a Netzer o Urso de Ouro há tres anos, reconhecerá certa temática similar, ainda que neste a questão social de uma Romênia saída do comunismo para o capitalismo desenfreado seja mais evidente. “Ana’ é baseado em romance de um autor romeno, mas do título “resnaisiano” a conexões com o Bergman de “Cenas de um Casamento”, como observou Rodrigo Fonseca hoje na coletiva, as relações cinematográficas também são fortes. Me lembrei de raro documentário recuperado pela Cinemateca de Bologna e exibido no Olhar de Cinema, em Curitiba, no ano passado. Ali a protagonista também se chama Anna, e a seu modo de sem teto na Roma dos anos 70, é acolhida por um dos diretores que passa a filma-la e a tentar resgatar sua dignidade.

Pode-se acompanhar o dilema romântico de Toma e Ana sobre a perspectiva mais habitual da paixão arrebatadora que não vinga. Toma não segura sempre a onda quanto a depressão da jovem. Entra a religião, no caso o catolicismo, e a cena da confissão e conselhos do padre é muito melhor do que os encontros do protagonista com o analista. Parecem vertentes contraditórias, jovens liberais, intelectuais que discutem Nietsch, mas que buscam a Igreja e o pscinalista ao mesmo tempo. Essa é a riqueza do filme, apresentarnos as peculiaridades dessa sociedade que vive neste intenso agora uma realidade semelhante ao Brasil de cobranças pelos desmandos e corrupção dos políticos. Ouvi de alguns colegas que o filme é demasiado discursivo, centrado na obsessão do protagonista. Me pareceu, contudo, muito atual e bem estruturado nas pressões da sociedade moderna. Um novo Urso de Ouro será difícil, mas um prêmio do júri ou ao diretor, mais ainda, ao ator, surge bem possível.

Talvez pela exigência do filme de Netzer, o programa anterior da manhã tenha sido escolhido a dedo para ser mais divertido. A animação chinesa Have a Nice Day usa técnica da rotoscopia, como Richard Linklater em Waking Life em que intérpretes atuam na forma animada, para trabalhar situações recorrentes do país no cinema. Máfia, embates entre gangues, o progresso galopante e construções que tomam a China são o enfoque embalado pela violência gráfica. O roubo de grande soma em dinheiro de um chefão põe a roda de personagens diversos em marcha, como o rapaz que quer usar a fortuna para uma nova cirurgia plástica da noiva. Sem grandes surpresas, o programa cumpriu a função de preparar a platéia para o que viria de maior reflexão em seguida. Amanhã, às 19h no horário local, começa a premiação. Mas um pouco antes, com os prêmios secundários como o da crítica internacional, já dá para antecipar um pouco da orientação do time de Paul Verhoeven.

 

Berlim (7º/8º dias): protesto brasileiro e os últimos da competição. O Urso, será?

Acabo de chegar da gala de “Joaquim” e como antecipavam os rumores, Marcelo Gomes e sua equipe subiram ao palco sob forte aplauso para a leitura de documento mais incisivo contra a perda de legitimidade e do status democrático em processo político de retrocesso. A Berlinale, como se sabe, é espaço de cinema e apelo político. Não poderia ser melhor local para dar conta de uma guinada e falta de rumo da atual gestão do Brasil. Mais ainda, após um filme que fala dos anos finais de 1700 para refletir sobre hoje. Foi uma noite bonita e emocionante.

Mas a Berlinale segue. Amanhã serão exibidos pela manhã os dois últimos concorrentes para os Ursos da Berlinale. Depois do chinês que não tenho referências, vem o novo filme de Câlin Peter Netzer. O romeno venceu o Urso de Ouro há alguns anos com seu ótimo Child’s Pose, retrato do capitalismo avassalador e corrupto que dominou o país depois da queda de Ceaucescu. Netzer não afronta esses temas políticos de forma direta. O atropelamento de uma criança pobre numa estrada por um herdeiro mimado de família abastada era o mote para o retrato de uma classe alta e seus expedientes e ética duvidosos. Agora, Ana, Mon Amour, tem em primeiro plano uma história de amor (e a referência ao filme de Alain Resnais não me parece à toa), mas a sinopse pincela um cenário de fundo agitado.

A Romênia está tomada pela corrupção, e de modo ainda mais evidente do que no Brasil, que usou a estratégia de combate aos corruptos para destituir partido e persona (s) non grata (s) eleitos democraticamente, a população vai as ruas, ao palácio do governo, exigir um basta. Não sei se o diretor realizou seu filme a tempo de refletir sobre o caos político, mas creio que isso estará ao menos nos contornos de sua história. Diz algo a direção do festival te-lo escolhido para encerrar a competição.

Foi uma 67º edição de cinco ou seis filmes de bom nível, alguns muito bons, mas não chegamos a ver aqui a grande descoberta. Os concorrentes húngaro, congolês, chileno e finlandês estão entre os meus favoritos. Além do nosso Joaquim, é claro. Há produções que nos deixam desconcertados, mas nem sempre pela via positiva. A portuguesa Teresa Villaverde, que confesso nunca me conquistou, foi para mim a que mais deixou essa trava. Procuro as qualidades de “Colo” e as encontro na temática de crise social e econômica que ela nunca, até onde conheço de seus filmes, utilizou para simbolizar uma desagregação.

Em Água e Sal, Villaverde ficcionalizou seu traumático divórcio. Desta vez, uma família sofre um abate com a perda de emprego do dono da casa. A mulher tenta equilibrar as dificuldades, enquanto a filha adolescente vive os dilemas da idade e se desorienta. Estão aí  a melancolia que é traço de personalidade dos portugueses, vê-se uma maneira pouco prática de se lidar com os problemas etc Mas a diretora equaliza demais esses fatores e não consegue expressar um tom genuíno, de veracidade no sofrimento dos personagens. Fica mais preocupada em ordenar planos, formalizar as tomadas, numa estética que descasca os sentimentos.

Um pouco no polo oposto está o filme do veterano alemão, de carreira internacional, Volker Schlöndorff. Mas aqui o problema parece ser a confiança total na força de atração dos protagonistas e o embate romântico pelo qual passam. Stellan Skarsgard é o escritor alemão respeitado que vai a Nova York para lançar seu novo livro e reencontra ali antiga paixão que não foi adiante. A personagem da bela Nina Ross, estrela local, não aceita de pronto a reaproximação mas cede. Tem dignidade a atração entre ambos, a discussão do passado legitima boa parte do filme, mas nada vai muito além do já visto no roteiro que tem colaboração do autor irlandês Colm Toibin. Em uma palavra, é um filme clássico, de um diretor que já ousou e hoje me parece acomodado. Estaria assim na cota alemã, como todo festival faz com sua prata da casa, obrigatória mas nada animadora. É em parte a situação de “Beuys'”, documentário do artista conceitual alemão e nome internacional das artes, que merecia um retrato mais radical,como ele foi nos anos 70 e 80. Tem o valor, contudo, de trazer o artista por ele mesmo, com diversas entrevistas e ótimo material de arquivo.

Por fim, como no cinema de Kaurismaki, no do coreano Hong Sangsoo, já sabemos o que esperar quanto a temática e narrativa. E não deu outra em On the Beach at Night Alone, título que de certo modo orienta a virada final. A maneira de certa Nouvelle Vague, de Rohmer mais especificamente, seus personagens giram em torno de amores mal resolvidos, questões de identidade, de mudança de território. É o caso da jovem que vai visitar amiga em Hamburgo, enquanto espera a chegada de um rapaz cujo namoro foi interrompido. Esta é uma primeira parte. Na segunda, a mesma jovem volta a Coréia e se vê um tanto fora de lugar com os velhos amigos. Como sempre, conversa-se, come-se e bebe-se muito mas são as discussões de sentimentos e certa desilusão que valem. É quase mais do mesmo, mas um pouco melhor na levada de humor que os filmes anteriores. Amanhã dou os últimos detalhes para a chegada final aos Ursos,

 

 

 

 

Berlim (7º/8º dias): na reta final, Tiradentes como boi de piranha

Em certo momento da longa busca por ouro no interior de Minas, Tiradentes e seus parceiros de viagem precisam atravessar um rio cheio de piranhas. O personagem de Rômulo Braga lamenta não ter um boi para sangrar e jogar na água. Assim não atrairiam os peixes. Mais tarde, na cena final glauberiana, o “Joaquim” que Marcelo Gomes apresentou nesta manhã na competição da Berlinale, reverbera a mesma condição. Aos olhos da classe superior que o cerca na mesa do almoço, poetas, intelectuais etc, o alferes do ótimo Júlio Machado é o boi de piranha da revolta da inconfidência que está para ser deflagrada. O filme de Gomes termina aí, pois não interessa a ele a figura história dos livros escolares mais tarde adotada pela ditadura como herói e mártir.

Por isso também o título traz apenas o primeiro nome de Joaquim José da Silva Xavier. Gomes desconstrói, como disse hoje na coletiva de imprensa, dessacraliza o mito. Logo na abertura, o diretor já propõe a revisão a maneira de Machado de Assis, ou mesmo Nelson Rodrigues. Quem fala ao público é a cabeça decapitada do Tiradentes. Todos os inconfidentes foram mortos pela rebeldia,mas apenas ele perdeu a cabeça.

Essa desconstrução talvez tenha provocado certo desapontamento por aqui quanto ao tratamento de gênero dado por Gomes a um fato que poderia se abrir a grandiloquência, ao recurso dramático das grandes utopias. Mas ele faz sua aposta na busca do homem por trás da mitologia e imagina, em verbo usado por Gomes na conversa de hoje, um ser de complexidades e caráter também suscetível. Joaquim quer, como os demais servidores do reino de Portugal, encontrar ouro, enriquecer o suficiente para comprar a sua amante “preta’.

Mas será a escrava que mata, foge e então lembra a ele que tem um nome a responsável por despertar a consciência social do soldado. Tiradentes quase enlouquece, delira ao descobrir a opção por liberdade que pode existir ao reencontrar a agora quilombola. Sua viagem atrás do ouro que ele e ninguém poderá usufruir, só a rainha de Portugal, também é de uma iniciação, uma maturidade. Gomes não atingiria a necessária profundidade desses personagens sem os atores, e Machado é por certo  mais uma aposta evidente para o prêmio de melhor ator. O páreo não é fácil, como já escrevi em post anterior. Assim como também a portuguesa de origem africana Isábel Zuaa, a “preta”, tem impressionante força.

A coletiva terminou com a leitura de carta de protesto assinada pelas equipes das doze produções presentes na Berlinale dando conta da crise democrática, retrocesso de conquistas sociais e desmantelamento da estrutura de políticas de financiamento estatal de filmes. Gomes se interessou pelo momento histórico da Inconfidência mineira a partir da comparação do momento atual e não o contrário. Esperemos que ele e sua equipe não sirvam de boi de piranha para uma classe média desinformada e agressiva, apoiada por mídias e redes sociais descontroladas, a exemplo do que sofreu Kleber Mendonça e seu time em Cannes do ano passado.

Berlim (5º/6º dias): a mais valia dos atores

O festival chega a sua metade e cada vez mais me parece que esta edição da Berlinale é dos intérpretes, atores e atrizes que conferem força e dignidade a vontade de seus diretores. Não queria estar na pele do júri, em especial das juradas, para ter de escolher entre até agora ótimas interpretações, como a da protagonista de Félicité. Há ,claro, algumas que surgem ainda mais iluminadas, e a transsexual chilena Daniela Vega tem esse brilho maior em Uma Mulher Fantástica. A Berlinale, sempre atenta as questões de gênero, talvez leve isso em consideração. Mas não faltam fortissimas concorrentes. O quarteto de The Party faz estragos em cena, mas Patricia Clarkson ganha por um dedo de suas colegas Kristy Scott Thomas, Cherry Jones e Emily Mortmer. Mas aqui o caso de premiação para ser mais do roteiro original da diretora Sally Potter, um hui clos daqueles do melhor instinto teatral em que amigos chegam para uma celebração e acabam por se destruir uns aos outros.

Se estas sustentam um ótimo enredo, há caso em que o filme não sobreviveria sem o talento em cena. A polonesa Agnieszska Mandat Grabka faz o que pode para tentar dar algum interesse a Spoor, de outra Agnieszka, a Holland, e vai ao limite de matar caçadores que estão aniquilando os animais no interior do país, onde mora. Ainda que alguns tons acima, sua presença não pode contornar de todo um filme destrambelhado, que se arrisca em vários gêneros e não se afirma em nenhum. Há tempos que a realizadora mostra que perdeu a mão. Para finalizar com as mulheres, desta vez fora de competição, outro par homônimo, as Catherines Deneuve e Frot, esta que vimos em Os Sabores do Palácio, fazem um duelo de alta classe em Sage Femme. O título diz respeito a profissão de parteira, ofício de C. Frot, que tem seu cotidiano alterado com a volta da segunda mulher de seu pai, agora vítima de câncer. Experiente no retrato da alma feminina, o diretor Martin Provost, de Violette, concede outra fina escrita para as duas deitarem e rolarem.

E os homens não deixam por menos. Timothy Spall, Bruno Ganz e Cillian Murphy são antagonistas de mesmo calibre em The Party. Mas o Mr. Long do diretor Sabu, o chinês Chen Chang, altera o registro do contido ao violento como o matador profissional que, em fuga, tem a chance de nova vida. O melodrama pesa muitas vezes em história recorrente e o elenco ajuda a segurar um pouco a narrativa irregular. A surpresa maior masculina, no entanto, veio hoje no filme do finlandês Aki Kaurismaki, que pude recuperar apenas de tarde, na gala. Abro um parentêses. Nessa sessão, a equipe é a última a entrar sob caloroso aplauso. Poderia jurar que Kaurismaki, ao lado do diretor do festival Dieter Kosslich, abusou dos copos em provável almoço antes do filme e chegou a titubear nos passos.

Mais ainda, o tipo franzino do seu protagonista me fez pensar como ele poderia se sobressair ao físico sempre grandalhão dos atores de Kaurismaki. Pois Sherwan Haji, no papel de refugiado sírio que busca exílio na Finlândia, faz todos se dobrarem com seu comportamento focado e sério, com simples olhares. Em certo momento, quando um nerd que frauda documentos pede que defina seu gênero, ele tasca, “não gosto de humor”. O filme fez furor hoje por aqui, mas fui com tal expectativa que não consegui achar melhor que Le Havre, O Porto, e mesmo Um Homem Sem Passado. De todo modo, é belo filme, que não deve passar em branco na premiação, já que toca na questão da imigração forçada da guerra, na intolerância da ultradireita e na solidariedade que em parte salva o destino do protagonista.

Não só me parece que o filme de Raoul Peck, O Jovem Karl Marx, traz por fim a melhor dupla de atores do que vi por aqui até agora, como chega a ser aberração não estar na competição. Um filme não sobre qualquer alemão, mas Marx! Cheguei a conversar isso com um colega espanhol e só se explica se Peck não quis entrar na corrida. O diretor haitiano tem lá suas exigências e foi taxativo em não querer misturar nas entrevistas este e outro título presente na Berlinale e em cartaz em São Paulo, I Am Not Your Negro, fundamental documentário baseado em escritos inéditos deixados pelo militante e escritor James Baldwin. Espero ouvi lo numa tradicional palestra que acontece em paralelo ao festival, na próxima quinta.

De volta ao Jovem Marx. Não me lembro de ter visto, ou mesmo conhecer, uma ficção que repasse a trajetória inicial do pensador, nos ofícios de escrita em jornais e em livros, e muito mais importante, nas reuniões agitadas com o colegas futuros comunistas. Peck não só faz essa revisão, ajudado pelo roteiro elegante de Pascal Bonitzer, como a coloca no prisma da amizade com Engels, que não sabia ser herdeiro milionário de indústria na Inglaterra, onde assiste a primeira eclosão da revolta dos operários. Marx é August Diehl e Engels, Stefan Konarske. A mulher do primeiro, Jenny, tem papel relevante na vida do autor de O Capital, mas surge em dado momento com uma tirada que me passou pela cabeça em boa parte do filme. A amizade de ambos chega a ser erótica e seria mais razoável que os dois tivessem um romance do que se dedicassem as suas mulheres e a ter filhos. Mas isso é, claro, um bom chiste. Pois quando não estão na luta militante, buscam o prazer da cama, da bebida, enfim, de prazeres burgueses como qualquer outro burguês. Impressiona a reconstituição, e o de menos aqui é a época, e sim do pensamento e das ideias do que parecia ser uma utopia. Peck mostra em detalhes como chegaram lá e ele mesmo parece realizar a sua utopia de fazer um painel rigoroso de tantos pontos de vista em jogo. A Berlinale não quis, mas o filme já se sobressai como um dos melhores dessa edição, com a ajuda da mais valia da interpretação.

 

 

Berlim 3º/4º dias: os brasileiros e a memória de passado distante e nem tão distante

Começou ontem para mim a maratona brasileira em Berlim. São 12 filmes, oito deles longas=metragens, um presença que há muito não se via na Berlinale. Há quem justifique tamanha atenção a nossa cinematografia pelo momento político penoso que vivemos. Como tradicional evento que se marca pelo engajamento, o festival daria dessa forma sua contribuição para refletir sobre o nosso estado de coisas. Nem todos os selecionados, todos exceto um em mostras paralelas, trazem evidente essa condição. Mas bastou ver dois deles na sequência ontem para já fechar um arco temporal que vai dar o que falar e/ou debater aí no Brasil. Em especial quando assistirmos na próxima quinta a sessão de Joaquim, o filme em competição de Marcelo Gomes sobre, ao que parece, uma passagem curta da trajetória do alferes, dentista e libertador. Qualquer que seja o momento, estaremos nas duas últimas décadas do 1700.

Fecharia se, assim, um interessante registro de memória histórica, mas não só. O filme de Daniela Thomas, Vazante, crava 1821 e também a região do ouro de Minas Gerais para construir sua novela de época. Não almeja um quadro de análise profunda dos tempos ainda de colônia, na iminência de deixar de sê la. Um dono de terras é obrigado a entregar a fazenda, dote de casamento, a um tropeiro português depois que a jovem mulher deste morre. Junto, ele exige se casar com a filha de 13 anos do negociante. Naquele mundo desolado, a convivência próxima com os escravos leva os sentimentos para além da ingenuidade natural da idade.

Os conflitos vão surgir, e Daniela parte da memória ancestral da família e dos romances de folhetim para tocar nesta chaga da escravidão, da diferença de classes e outros desníveis que ainda permeiam nossas relações. É produção ambiciosa, a mais refinada no cinema que a diretora e cenógrafa já realizou, com apuro técnico e detalhamento, num preto-e-branco que torna o ambiente ainda mais brutal. Há tropeços na narrativa, mas a questão crucial está lá, bem clara a quem quiser compararar com os dias atuais.

Se não é sobre o Brasil diretamente, No Intenso Agora também fala muito do País quando João Moreira Salles (e Daniela é parceira frequente do irmão deste, Walter Salles) retoma o mote familiar para dar conta da rebeldia de 68. Em especial o Maio francês, mas também aquele que não terminou para nós, relembrando o título do livro obrigatória de Zuenir Ventura. Como em Santiago, que lançava mão da figura peculiar do mordomo da família Moreira Salles para delinear a presença forte do pai Walter, João revive agora a mãe. Parte de um registro amador da viagem dela a China, em companhia de amigos, onde também o realizador buscou inspiração anterior para um documentário. Ao mesmo tempo, naqueles anos 60, a família estava em Paris quando eclodiram os protestos estudantis. A rebeldia, para ele, logo se tornaria mercadoria em tempos de consumismo.É uma espécie de pedra de toque do filme.

Não é a única reflexão proposta por João. Muitos daqueles jovens não aguentaram a barra de tão cedo se desiludirem com a volta a um marasmo, a um comodismo, e nem todos tinham a maturidade para seguir. Optaram pelo suicídio, contraponto aqueles mortos ao lutarem pela causa, caso do estudante Edson Luis, nas passeatas no Rio de Janeiro. João vai e vem das ruas de Paris para a temporada da mãe na China, nos poucos momentos, ele diz, em que viu sua mãe feliz. Fazer a junção dos fatos narrados obriga a um espectador mais atento pensar por que o realizador insiste na morte dos jovens de 68 e deixa o luto mais próximo dele em aberto. Caberá a cada um aceitar ou não esse distanciamento da tragédia familiar e fluir de uma pungente revisão pessoal e coletiva. É filme para ver, rever, e mudar impressões.

É ao que os críticos são obrigados quando colocados frente a diversidade que há numa competição. E ela começa a melhorar, e muito. A mancha da escravidão pensada por Daniela em Vazante reverbera no filme do Congo, Félicité, nome da protagonista que chega a ser irônico tamanha a triste realidade que ela tem de enfrentar. Cantora local de bares, ela tem de buscar dinheiro urgente para a operação do filho que está no hospital depois de suposto acidente de moto. De cara ela é roubada por uma mulher que se passa por parente de outra vítima. A mãe coragem congolesa parte então para o ataque. Vai cobrar dívidas, subornar a polícia, invadir a casa de um empresário rico, apanhar de seguranças… Este é um primeiro ato. Depois virá a necessidade de reconquistar o amor e a confiança do filho e, por fim, ser mulher e tentar ser feliz com um dedicado amante. Sobretudo, um filme desses não se faz sem uma grande atriz, e Véronique Beya Mputu não é menos que maravilhosa.

Também brilha a estrela de Daniela Vega em Una Mujer Fantastica. Com a particularidade que Daniela é transexual e interpreta a condição no novo filme do chileno Sébastian Lelio. O diretor provocou frisson aqui na Berlinale quando apresentou outra mulher fantástica, Glória, há alguns anos. Há muito da estrutura desse filme anterior na nova produção, a partir da personalidade forte que vai se aprimorando, se revolta e se impõe da protagonista, em meio a uma situação de pressão. Como Marina, ela vive com um homem mais velho separado. Quando este tem um súbito mal estar e morre, Marina tem que se haver com a humilhação da família do morto. Tiram tudo dela, o carro, o apartamento, a cachorra que ganhou. Quando é a ver da dignidade, ela sobe nos saltos. Lelio já mostro uque entende muito bem da alma feminina, seja natural, por assim dizer, seja adotada como opção. Esse estado se marca também pelo uso da música original e de sucessos pop. Parece uma proposta de pouca ambição, mas que no fundo tem muito a dizer da nossa sociedade em tempos de conservadorismo.

 

 

Berlim, 2º dia: Renton, Spud, Sick Boy e outros de volta em T2 nostálgico

Quem tem hoje mais de 40 anos viveu o acontecimento Trainspotting e viu seu diretor Danny Boyle ascender ao patamar de nome badalado da indústria. Mais que isso, ganhou respeito com uma produção pequena sobre amigos drogados da periferia de Edimburgo que bolavam expedientes para pagar a heroína. Boyle fez em seguida filmes mais ambiciosos  e um tem nome simbólico, Quem Quer Ser um Milionário?, pelo qual levou um Oscar de melhor direção. Duas décadas depois ele revive o projeto que lhe deu fama numa sequência com boa parte dos mesmo atores que, se não chega a impactar, tem gosto de divertida nostalgia e alguma frustração.

Não toda por culpa dele, mas porque Boyle abriu uma trilha para novos realizadores rezarem na mesma cartilha, com levada pop e retrato de geração. A fórmula, assim, já não surpreende mais. Pode-se dizer que como Boyle, no caso bem-sucedido, seus personagens também buscam entrar no sistema. Ou seja, querem ganhar o dinheiro que antes era substituído com muito prazer pela droga. A inclinação maior para tanto é sugerida por Renton, o personagem de Ewan McGregor que fugiu com o dinheiro da turma no primeiro filme. É ele, em retorno a cidade, que nos apresenta o cenário de fracasso em que encontra os amigos e, veremos, também vive uma ilusão, uma mentira. Spud é mais dependente do vício e busca o suicídio. Sick boy agora tenta ser tipo apresentável como Simon, mas gere bar decadente e chantageia homens ricos com a ajuda da namorada. E Begbie, o mais violento de todos, foge da prisão para um acerto de contas. Amizade e traição estão de novo no caminho desse reencontro.

Na coletiva de imprensa, Boyle disse que era mais importante tratar de valores sempre importantes a luz de novas condutas atuais, sob a pressão social e econômica de quem hoje tem que pesar a chegada aos 50 anos. O filme porém se torna mais cativante quando flerta com seu passado, talvez porque a platéia mais habilitada a encontrar esse elo também tenha envelhecido.  No Brasil, T2 terá o subtítulo de Sem Limites, algo irônico, pois parece limitado a uma revisão para os nostálgicos.

Na competição

O segundo dia da seção competitiva trouxe propostas tão opostas que me pareceu mais estimulante por ter essa diversidade do que pelos filmes em si. Nenhum dos dois me arrebatou especialmente, embora tenho de reconhecer que o cinema húngaro faz um dos esforços mais interessantes atualmente para nos desestabilizar. Lembram de O Filho de Saul e Deus Branco, exibidos no Brasil, só para ficar em dois casos recentes? Sem falar no mestre Bela Tarr e o magnífico Cavalo de Turim. Curioso que os dois últimos estabelecem poderosas metáforas a partir de animais.

On Body and Soul, no título internacional, abre com uma bela paisagem nevada e dois veados, um macho e uma fêmea. Em seguida, surgem bois sendo transportados. A primeira cena bucólica se repetirá até que se estabeleça a conexão com o par de protagonistas, um responsável na administração por um matadouro e a jovem inspetora por ele contratada. Há aí a justificativa dos bois no abate e  a diretora Ildikó Enyedi não nos poupa dos detalhes da carnificina. Essa opção por detalhismos e excentricidades de situações e personagens dá caráter formal excessivo ao filme, e o que se poderia chamar de gráfico, não de violência como se usa hoje, mas de planos e atmosfera. Mas há o envolvimento entre os protagonistas a partir de um recurso do sonho, bastante original, que servirá como ligação entre os dois. O conceito mecânico moderno do abate, não mais aquele manual, também é explorado como mecanismo do amor entre os dois, ele homem experiente, ela jovem ingênua e infantilizada.

Desse prisma formal e elaborado de cinema, passou_se na sessão seguinte ao contexto autocentrado e costumeiro do cinema americano que ambiciona tratar das mazelas da nação comandada agora por Trump. The Dinner é a versão, mais uma, do romance homônimo do holandês Herman Koch, que já teve adaptações para as telas na Holanda e Itália. Vi a italiana e não me empolgou muito, até menos do que esta de Oren Moverman, que fez O Mensageiro, sobre oficial especializado em noticiar a famílias a morte de combatentes no Iraque. O que me pareceu bastante forte é o trabalho de Steve Coogan, que nunca decepciona mas aqui tem performance especialmente marcante.

Dois irmãos, Coogan e Richard Gere, e suas respectivas mulheres se reúnem para um jantar que sugere ser encontro amistoso. Os casais vão discutir, na verdade, o envolvimento de seus filhos adolescentes em assassinato de uma moradora de rua. Gere vive um político prester a disputar eleição e Coogan é um professor de História desiludido com a geração de alunos pouco interessada. É quando o filtro dessa atualidade que talvez explique em muito os rumos do conservadorismo político reinante, o cada um por si etc, passa pelos monólogos do pai e marido Coogan que o filme se faz mais interessante. De resto, há a percepção sempre recorrente de que dilemas se tornam uma discussão a moda americana do dinheiro e valores burgueses, pouco ou nada interessada no além da fronteira que Trump quer cerrar cada vez mais.

 

Na abertura da Berlinale, um artista maior que o filme

Não se pode dizer que tenha sido uma grande abertura de festival, nem mesmo de competição. Mas Django tem outra e mais importante credencial além de cinema. É filme que traz uma reflexão clara para o momento político e social que vive a Europa, os Estados Unidos, enfim, o mundo. Ao retratar um curto período da vida do guitarrista de jazz Django Reinhardt, quando o músico franco=belga de origem cigana se equilibra na corda bamba do domínio nazista entre os anos 1943 e 1945, o diretor Etienne Comar desenha, claro, um contexto atual.

Naquele momento os alemães perseguiam e matavam também os ciganos. Django vê seu povo ser dizimado e não tem muito mais do que sua maravilhosa música para resistir. E é o que faz com brilho. Ele já é um talento, uma estrela reconhecida e os nazistas querem vê=lo tocar, desde que reze por uma cartilha restrita de ritmos. Nada de swingues ou blues, música degenerada. Na tela, mimetizando Django, está Reda Kateb em boa performance e que poderá em breve ser visto no Brasil no novo Wim Wenders, Os Belos Dias de Aranjuez.

É projeto digno, bem realizado e com bons atores (Cecile de France como a francesa que simboliza a França colaboracionista, chaga na história do país), mas que se mostra tímido para dar conta da grande figura que almeja. Há um tom monocórdio, nivelado no início ao fim, em que se sobe o tom quando há música ou em passagens mais dramáticas, como a que o músico escava a neve com sua guitarra para se esconder. Talvez seja personagem e período ambiciosos para a estréia de Comar na direção, ele que tem boa folha corrida como produtor e roteirista, em Meu Rei ou Timbuktu, por exemplo.

Explica=se mais sua escolha para abrir o festival pelas palavras do presidente do júri, Paul Verhoeven, e de alguns integrantes de seu time nesta manhã, pouco antes da exibição. O realizador de Elle compreende, diz, a vocação política que marca sempre a Berlinale, mas que nenhum filme deve esquecer de apresentar antes de tudo bom cinema. Mesmo ao lembrar a já conhecida condição para realizar Elle, o holandês aponta o conservadorismo atual no mundo, e em Hollywood, afinal. Ele queria rodar o filme lá e o estúdio lhe ofereceu dez estrelas para o papel principal. Nenhuma aceitou. Precisou levar a produção para a Europa e aqui o produtor Said Ben Said, o mesmo de Aquarius, a viabilizou. Isabelle Huppert, como fã do livro que inspira o filme, pediu então o papel. Isso também é comprometimento, engajamento, afirmou ele.

O tom político seguiu na coletiva do colegiado. O ator mexicano Diego Luna foi instado a se posicionar sobre a atual administração Donald Trump e sua maluquice de construir um muro separando as duas nações. Luna lembrou que está no lugar certo, afinal, para falar de muros, e que sempre lutará para demoli_los. Não será surpresa se ainda tivermos mais concorrentes com esse viés politizado. Ainda faltam dezoito pela frente, inclusive o de um vencedor do Urso de Ouro, o romeno Calin Peter Netzer, pelo ótimo Child’s Pose, que traz agora Ana, Mon Amour. Em tempos de Romênia agitada pelos protestos contra a corrupção, será interessante conferir o que o diretor nos traz. Mais perto de nós, em contexto similar mas talvez menos conturbado nas ruas do que deveria ser, Joaquim, de Marcelo Gomes, propõe o nosso Tiradentes. Posso apostar que longe de um tom histórico quadrado, o filme vem somar algo a uma reflexão dessa estranha atualidade brasileira.

 

 

 

Retomando, de Berlim

Depois de longa ausência deste espaço, retomo a lida no blog, prática que atualmente parece ser a mais indicada para compartilhar com vocês algumas ideias de cinema. Rato da imprensa escrita e impressa que sou, chegou o momento de repensar como renovar o ofício e ME renovar. Aquela imprensa definha, perde espaço, perde (e não parece se ressentir) profissionais… e nos resta o universo web, com suas vantagens e desvantagens. Parece estranho imaginar desvantagens, mas tudo aqui me soa apressado e pontual demais, como se a não existência de um suporte palpável desse menos peso a palavra. Por certo me engano e o mundo digital da demonstrações de vigor quando utilizado para a boa e saudável troca de opiniões, pontos de vista. Firmemo-nos nessa tese.

E chega de divagações. A 67a edição da Berlinale abre oficialmente amanhã com a cinebiografia de Django Reinhardt, que Woody Allen já havia contornado em seu Poucas e Boas, no final dos anos 90. Mas ali Sean Penn fazia uma figura inspirada no jazzista, e agora o guitarrista francês ganha retrato mais elaborado por diretor compatriota e Reda Kateb no papel do músico. Aberta a seleção competitiva, de pronto há de se destacar a grande representação brasileira este ano. Não é de hoje que Berlim nos recebe bem, mas doze filmes (!) entre nove longas e três curtas tem gosto de vingança por Cannes e Veneza, em especial a mostra italiana, que tem nos recusado. O melhor é que temos um filme em competição, Joaquim, do pernambucano Marcelo Gomes, que já apresentou em paralela por aqui o seu Homem das Multidões, em parceria com Cao Guimarães. Cao é mineiro, e é de Tiradentes de que trata Gomes, no filme que integra uma série internacional de produções voltada a retratos de libertadores. Companheiro de rota também de Karim Ainouz, ele chega depois que o realizador radicado em Berlim exibiu há alguns anos seu Praia do Futuro. Pode;se imaginar aí uma porta aberta, mas Gomes tem credencial de sobra para emplacar seu painel histórico, que não se pode imaginar em modo clássico.

Os demais títulos se espalham pelas paralelas. Alguns já fizeram boa carreira em festivais nacionais, caso do gaúcho Rifle, de Davi Pretto, de passagem respeitável por aqui com seu Castanha. Também Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira, premiada no Festival do Rio como melhor diretora. Felipe Bragança traz o novo Não Devore meu Coração, com recente exibição em Sundance e Cauã Reymond no elenco. No mais, há os novos de Laís Bodansky (Como Nossos Pais), Julia Murat (Pendular), Daniela Thomas (Vazante) e João Moreira Salles (No Intenso Agora), que não filme desde o definidor documentário Santiago. Há ainda a estréia de Fabio Meira, ex-assistente de Ruy Guerra, no longa=metragem com As Duas Irenes. Oferta não falta, o difícil é conciliar com a programação oficial que trato com mais calma amanhã!

Leão de Ouro para Lav Diaz!

Leão de Ouro melhor filme – The Woman Who Left, de Lav Diaz

Grande Prêmio do Júri – The Nocturnal Animals, de Tom Ford

Prêmio de melhor diretor ex-aequo – Amat Escalante, por La Región Salvaje, e Andrei Konchalovsky, por Paradise

Prêmio de melhor roteiro – Noah Oppenheim, por Jackie

Prêmio de melhor ator – Oscar Martínez, por El Ciudadano Ilustre

Prêmio de melhor atriz – Emma Stone, por La La Land

Prêmio Especial do Júri – The Bad Batch, de Ana Lily Amirpour

Prêmio de revelação intérprete Marcelo Mastroianni – Paula Beer, por Frantz