A Guerra do Vietnã ainda é um pesadelo para os norte-americanos. Não para todos, como sabemos, mas deveria ser. Os mandatários recentes, em especial o atual, dão de ombros e seguem invadindo o quintal alheio e matando quem se contrapõe ao imperialismo que não cessa. Faz cinquenta anos daquele fracasso retumbante e a lição não foi aprendida. Os soldados, aqueles que retornaram e ainda estão vivos, envelheceram com cicatrizes não só físicas. Passaram o resto da vida perturbados até o ponto da loucura. É o caso de Allen Nelson, um ex-mariner que após buscar a psicanálise para se livrar da insônia e dos ataques de fúria, dedicou-se a levar mensagens pelo mundo sobre o horror cometido contra os vietcongs e vietnamitas em geral. Especialmente no Japão, onde fez inúmeras palestras e está enterrado. Ele é a personagem do concorrente exibido na noite de ontem, ‘Mr. Nelson, Did You Kill People?’, dirigido pelo japonês Shinya Tsukamoto. A ligação de Nelson com a ilha do pacífico pode explicar o interesse do realizador pelo ativista, que deixou livros e foi objeto de projetos de TV.
O filme dramatiza a trajetória de Nelson (um ótimo Rodney Hicks, na fase adulta) em tres tempos e diversas situações. Em paralelo, acompanha-se sua atividade no Vietnã, onde não se poupa o espectador de vasta violência gráfica, e na volta ao seu país. O garoto que cresceu sob ambiente domestico de pobreza, abusos e mais violência torna-se morador de rua. Sofre de depressão, tem pesadelos e tenta o suicídio. Um caminho se abre um dia quando uma ex-amiga de escola, agora professora, o convida para falar sobre sua experiencia na guerra para pré-adolescentes. Uma garota faz a pergunta que dá título ao filme. Nelson trava. Percebe que tem de falar a verdade. O horror, o horror… Traumas que ele leva para o casamento, que assusta a mulher, o filho. Este pensa em se alistar e traz tudo á tona. Nelson vai parar no consultório de um psicanalista (Geoffrey Rush). O doutor reverbera a questão da menina, mas vai mais fundo. “Why, why you killed people?”. Mesmo com um registro que por vezes cede ao melodrama e ao apelo desnecessário a essa altura do morticínio no país asiático, o filme se equilibra na espinha dorsal de sua proposta, uma reflexão das chagas desta e de todas as guerras.
O horror começa em casa
O programa da competição não aproximou por acaso o drama do ex-soldado do Vietnã do concorrente francês “15|18 – A Place to Heal’, de Cédric Kahn, exibido hoje pela manhã. Mr. Nelson foi uma criança traumatizada pela violência do padrasto contra a mãe. Quis sair do inferno e mergulhou em outro, ao se alistar voluntariamente. O ato determinou seu futuro. No drama de Kahn, ainda que possa não ser um fato ou com personagens reais, é fácil imaginar que os adolescentes em questão estão por ai. Eles sofrem com todo tipo de transtorno em grande parte produzidos por famílias desestruturadas, violência doméstica, desinteresse dos pais que possam ter resultado em traumas no convívio social. Por isso vão parar numa instituição para menores sob guarda do Estado, “um lugar para curar” onde tem acompanhamento clinico e psiquiátrico, entre os 15 e 18 anos, quando devem deixar o local. O cotidiano não é fácil, com discussões intensas, brigas, revoltas mas também flertes da idade. Um bom drama, econômico e sóbrio, como costuma ser o cinema de Kahn. Apenas que talvez não some muita coisa a outros filmes da mesma temática.