É de se esperar que os filmes selecionados para um festival, em dado momento, passem a dialogar nos temas, nas situações, enfim, em muitos aspectos. Na seção competitiva, mas também fora dela. Isso me veio de imediato ontem à noite enquanto assistia a Krux, concorrente alemão às Conchas – os prêmios oficiais, batismo derivado da praia de mesmo nome no centro de San Sebastián. Em dado momento da trama levada ao final da Segunda Guerra, em povoado alemão prestes a ser tomado pelas forças inimigas do nazismo, uma personagem liga o rádio e ouve o discurso de Thomas Mann, então exilado nos Estados Unidos. O prêmio Nobel é figura central em outro filme, Fatherland, do polonês Paweł Pawlikowski, este exibido em paralela depois de ganhar o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes. No período retratado, o escritor retorna pela primeira vez à Alemanha em 1949 para receber Prêmio Goethe. É um ajuste de contas com a nação que produziu o horror.
Mas falarei de Fatherland e outros filmes exibidos em Cannes mais tarde. Sobre Krux, algo como cerne, ponto central em alemão, se pode dizer que, sim, é mais um filme sobre nazismo, mas tem seu valor pelo rigor e outros atributos como o bom elenco. Há pontos de contato com Uma Infância Alemã, que comentei ontem ao citar o novo filme de Fatih Akin, por se passar nos últimos instantes do regime de Hitler. Não apenas. Como lá, neste drama de Tony Vahl baseado em um acontecimento real, a princípio os moradores da pequena comunidade recusam aceitar a derrota e a eminente chegada dos aliados. Sobretudo, alguns não querem seguir a ordem do comando de não deixar nada vivo para os inimigos, o que inclui os animais, mas também a si mesmos. Entre os poucos homens não idosos que não foram para o front está o professor e o líder do local, pronto a cumprir a exigência e faze la valer aos demais. As crianças inclusas, como as filhas de uma jovem que se casou tardiamente na igreja sem o marido presente, mas sim representado por seu capacete, item representativo da morte em ação. Se já vimos esse painel antes, não parece ser demais lembrar que os delírios patrióticos sempre estão a rondar o mundo.
Mais horror, em chave novelesca cômica
Quem gostou de “Puan” talvez entre também no novo filme do argentino Benjamin Naishtat, “Glaxo”, outro concorrente exibido hoje. Tem o mesmo protagonista Marcelo Subiotto e aquele apelo simpático de novela bem contada, com bonita reconstituição de época que leva o carimbo na produção do midas Rodrigo Teixeira, da RT Filmes. É mais uma co-produção brasileira, aparentada em certa medida com Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis, recém visto em Veneza. Se neste a abordagem é sombria, bem mais sombria, o filme de Naishtat tem a pegada de cinismo e o tom quase nonsense para falar do mesmo contexto do fascismo das ditaduras latino-americanas. Lembra seu melhor longa, Vermelho Sol, mas sem o mesmo impacto. Passa-se em dois períodos, em 1957, depois da queda de Perón e quando os militares tomaram o poder, e em 1984, às vésperas dos processos que levaram os mesmos para a cadeia. Nesse contexto, numa pequena cidade da província de Buenos Aires, vemos a ascensão de um jovem ainda com espinhas na cara cooptado por um sargento mandatário no local que já nos anos 50 havia prestado muitos serviços ao regime.
A princípio, o rapaz só precisa ajudar a sedutora (e mais jovem) mulher do militar a domar os cavalos na estância em que vivem. Mas logo ela o seduz, e ao saber que a bela o trai, o chefão manda o garoto investigar. Pede o nome do amante. O garoto não titubeia e arma para um amigo de infância. Este vai preso. É o reencontro de ambos que marcará o período dos anos 80. Para o diretor, a passagem dos militares pelo poder pós-Perón foi uma espécie de treinamento, um “esquenta”, para o terror da ditadura na década seguinte. De novo, sempre vale lembrar esse passado, mas soa um tanto ingênuo e repetitivo o formato de iniciação masculina, inclusive o sexual, escolhido aqui.