Menos é mais na mostra potiguar

Vá lá que seja por dificuldades financeiras, mas Eugenio Puppo e Matheus Sundfeld sempre optaram por um cardápio enxuto na curadoria da Mostra de Gostoso.  Não foi diferente na quinta edição finalizada anteontem na Praia de Maceió, onde o público põe o pé na areia para acompanhar as exibições dos filmes. Se o calendário encolheu um dia, compensou-se com um bom nível de competidores, alguns já com trajetória reconhecida em festivais nacionais e internacionais, caso do longa “Meu Nome É Daniel” e do curta “Guaxuma”, os vencedores eleitos pelo público — que ressalte-se é formado na maioria por locais, portanto espectadores em formação — que é quem determina a preferência na mostra. Num contraponto interessante e estimulante ao evento, foi criado este ano o Prêmio da Imprensa, outorgado pelos jornalistas e criticos presentes. “Catadora de Gente” e “Inferninho” foram os escolhidos como melhor curta e longa, respectivamente. Havia também a escolha entre os curtas do Coletivo Nos do Audiovisual, uma fornada de nada menos que cinco projetos da garotada local, e o preferido por “Filho de Peixe”. Um olhar documental sobre a tradição da pesca na vila de pai para filho, com seus encantos e atuais dificuldades.

Não comentei o longa de Guto Parente e Pedro Diógenes, último da competitiva a ser exibido e que já havia visto no Mix Brasil, em São Paulo. “Inferninho” seria um filme filiado a particular linguagem e estética do coletivo cearense Alumbramento, fundado pelos parceiros e primos com seus respectivos irmãos em Fortaleza, não fosse saber na conversa com os realizadores em Gostoso que a parceria acabou. Mais determinante talvez seja haver neste novo projeto a colaboração com um grupo teatral local que faz a diferença — ainda que a vertente cinematográfica ainda sugira uma marca da antiga sociedade. Isso se dá  sobretudo no universo da trama, um barzinho decadente que reúne nas noites uma pequena mas fiel clientela em torno da proprietária Deusimar, de identidade trans. A chegada ali de um marinheiro desconhecido que se interessa pela dona a faz redescobrir um sentido de vida, ao mesmo tempo que a especulação imobiliária bate a porta trazendo um dilema.

Ao explorar com afeto alguns temas que hoje parecem possíveis apenas num reduto tão perdido no tempo como este, a exemplo da amizade e solidariedade entre iguais, o filme alcança sua maior força. Mas não me parece ir além de uma proposta, em especial na construção frouxa dos diálogos, processo que o teatro poderia aprofundar. Há criativas exceções, como com o simpático  personagem fantasiado de Coelho, espécie de conselheiro de Deusimar que a chama para a realidade. Sempre foi a tônica do coletivo Alumbramento trabalhar referências cinematográficas, como no caso óbvio aqui do Querelle de Brest filmado por Fassbinder, e uma estética de exageros kitschs que com a maturidade de seus (ex-) integrantes poderia desembocar agora em novos caminhos.

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‘Meu Nome É Daniel’ vence 5a Mostra de Gostoso

Como se intuía, a empatia e força do relato de Daniel Gonçalves conquistou o público do festival, responsável por atribuir os principais prêmios; ‘Guaxuma’ foi o curta favorito. Seguem os premiados:

Melhor Longa-metragem – Júri Popular
“Meu Nome é Daniel”
Direção: Daniel Gonçalves
Melhor Curta-metragem – Júri Popular
“Guaxuma”
Direção: Nara Normande
Menção Honrosa
“Sócrates”
Direção: Alex Moratto
Prêmio Elo Company de distribuição
“Teoria Sobre um Planeta Estranho”
Direção: Marco Antônio Pereira
Prêmio Mistika de finalização
“P’s”
Direção: Lourival Andrade
Prêmio Imprensa – Melhor Filme do Coletivo Nós do Audiovisual
“Filho de Peixe”
Direção: Igor Ribeiro
Prêmio Imprensa – Melhor Curta-metragem
“Catadora de Gente”
Direção: Mirela Kruel
Prêmio Imprensa – Melhor Longa-metragem
“Inferninho”
Direção: Guto Parente e Pedro Diógenes

Daniel, Fabiana e Maria Tugira: da nobreza da ‘anormalidade’

Ao apresentar “Meu Nome É Daniel” na segunda noite competitiva da Mostra de Gostoso, o montador Vinicius Nascimento lembrou que o documentário põe em xeque o conceito da normatividade, ou seja, do que se considera normal. No caso, trata-se de uma deficiência congênita que a medicina não soube, pelo menos até agora, diagnosticar e faz do jovem Daniel de Castro Gonçalves ter limitações de movimento, de fala e de  expressão. Aos 34 anos, nascido na classe média fluminense, com poder aquisitivo suficiente para se tratar, apoio e dedicação incondicional da mãe, ele não aceita o olhar piedoso e preconceituoso da sociedade. É o primeiro a reverter essa visão com auto-ironia, articulação, inteligência e até algum humor cinico que transfere a direção do filme. Logo no inicio, com o uso de imagens familiares de vídeo, ele relembra quando, criança, numa apresentação infantil fantasiado de minhoca, rebateu um comentário de `tadinho’ ouvido de um espectador com um malcriado ‘tadinho ‘é o caralho!`

O filme é esse relato em primeira pessoa que busca rever uma trajetória muito particular mas também apontar que o conceito de normal/anormal é  bastante relativo. Como se testemunha em situações das mais diversas, Daniel vive uma rotina normal, ou quase. Na primeira tomada, sob protestos da mãe, ele insiste em pela primeira vez sair com o carro da garagem onde mora. Garante estar seguro, mas súbito, bate. Bem, quem de nós, certos da habilidade motora, já não fez o mesmo. Nesse sentido, o rapaz parece ter muito mais autocrítica e conhecimento de sua condição do que quem se vê como a norma social. O filme, muito cativante e estruturado sem nenhum apelo de indulgência, trabalha nesses polos entre o olhar do outro e aquele que o recusa,  a todo momento nos tirando do espaço de conforto. Estreou ao encerrar o mais recente Olhar de Cinema de Curitiba com uma platéia que respondeu com entusiasmo a proposta, e em especial por conhecer o protagonista, que neste momento defende sua cria no festival de documentários de Amsterdã. Se o filme e seu protagonista são especiais, é somente no sentido de uma superioridade na análise de um tema sobre o qual ainda se tem muito a refletir.

Em outra vertente, a identitária quanto a sexualidade mas não apenas ela, pode-se incluir a protagonista que Bruna Laboissiere nos traz em seu documentário na mesma questão do que é norma social. Fabiana, a personagem-título, ‘é uma motorista de caminhão de perfil distinto do que se pressupõe na categoria. Transexual, relaciona-se com mulheres, embora aqui e ali deixa soltar que exerce sua sexualidade de acordo com situações inesperadas. Inesperado é essa maravilhosa figura conceder a câmera da diretora uma franqueza e honestidade possivel talvez apenas ‘aqueles que não temem nem devem nada a sociedade os condenam. Fala de seus amores, suas dúvidas, inclusive a profissão e ao futuro, entre a cabine do caminhão e em poucas paradas da viagem pelas estradas. Há de se insistir um pouco nessa toada por vezes de quebras narrativas, conversas entrecortadas, um registro que demora a criar empatia, mas que resulta a serviço de bem maior que ‘e conhecer Fabiana.

Bem mais enxuto e direto ‘é o curta ”Catadora de Gente”. A gaúcha Mirela Kruel “fecha” sua câmera em Maria Tugira Cardoso, catadora de lixo em Uruguaiana que mais uma vez desmonta conceitos do que se possa imaginar sobre esses sobreviventes dos resíduos da sociedade. Articulada, culta, narra como ao ler Machado de Assis e Jorge Amado em livros encontrados no aterro sanitário construiu seu sabe que agora compartilha com colegas numa iniciativa voluntária. Com Daniel e Fabiana, forma o trio de um Brasil que não parece enxergar neles uma resistência ao exílio social.

Perdas e ganhos na mostra mais gostosa do Brasil

Começou ontem à noite literalmente na areia da Praia de Maceió mais uma edição da Mostra de Cinema de Gostoso, que deve seu curioso nome a vila de São Miguel do Gostoso, ao norte de Natal/RN. É o quinto ano não consecutivo do evento idealizado pelos paulistas Eugenio Puppo e seu parceiro Matheus Sundfeld. Em 2016, a dupla não conseguiu apoio financeiro e a mostra teve de ser cancelada. No ano passado recuperou seu fôlego e agora de novo está  lá , encravada na areia, a tela gigante com projeções de excelente qualidade, cadeiras confortáveis tipo praianas e bons filmes nacionais, curtas e longas-metragens, com curadoria dos organizadores. Além do céu estrelado e a brisa de sempre, com uma lua crescente em particular marcando a abertura. No mais, o resultado de um projeto raro no panorama de festivais brasileiros com a inclusão desde o inicio de jovens da comunidade a partir de oficinas de audiovisual. Ou seja, só ganhos. E ao que se referem as perdas do título?

Nesta manhã, durante os debates dos quatro filmes exibidos ontem, um participante notou, com razão, que os quatro selecionados tratavam da noção  de perda. Perda de um ente querido, de um sentido de vida, até mesmo da dignidade. Como acontece todos os anos, um dos curtas exibidos tem produção local dessa garotada que Puppo e Matheus tem formado por aqui, o Coletivo Nos do Audiovisual. Quem acompanha o projeto desde o início, nota a maturidade  de Derradeiro, dirigido por Renata Alves, uma dessas crias locais. Um velho morador, Seu Luiz, sofre com a perda de memória, cuidado pela filha, e com rotina de quem nao tem muito mais a fazer além de passear com o cão de estimação na praia, olhar o mar. Filme contemplativo, feito de silêncios, que denota certa influência , no caso ficcional, da produção vizinha paraibana comandado por Torquato Joel, professor de nomes presentes nos créditos. Aos poucos, a turma vai dialogando tambem com uma jovem geração nordestina.

Alem de Derradeiro, apenas Codinome Breno faz sua estréia nacional. Produção potiguar, outra das preocupações da mostra, trabalha uma tendencia documental de revisar questões pessoais a partir de um espectro político, aqui no senso estrito da expressão. O diretor Manoel Batista mexe num tabu familiar para lembrar o pai, o jornalista mineiro Jorge Batista Filho, que militou em Belo Horizonte na organização política Colina nos anos da ditadura civil e militar. Preso, corria risco de morte quando foi libertado e decidiu ir para Natal, onde tinha um irmão, e lá constituiu família. Essa memória permaneceu em sombras também  devido a uma tragédia. Em 1986, os pais de Manoel e seu irmão mais velho morreram num acidente de carro quando viajavam para passar o Natal com os parentes de Minas Gerais. O diretor tinha apenas 8 anos. O curta chega assim a uma terceira vertente ao lembrar o primogênito Breno, batizado em homenagem ao militante e amigo de seu pai, Carlos Alberto Soares de Freitas, de codinome Breno. Outra companheira de ambos na militância de esquerda era Dilma Rousseff. Como em Torre das Donzelas, o essencial documentário de Susanna Lira, a ex-presidenta também dá  um depoimento articulado aqui, ressaltando que prefere lembrar não apenas Jorge Batista, mas sua mulher, Ana Walderez, figura emblemática no grupo. Bonito filme e um relato a ser levado em conta num período de alucinação e falta de memória coletivas.

Por fim, o curta Guaxuma e o longa Sócrates são filmes que vem fazendo uma belíssima carreira nos festivais nacionais e internacionais. O primeiro é uma incomum, por aqui ao menos, junção de documentário e animação. Nara Normande relembra pela técnica com o uso de areia, originalíssima e de belo efeito, uma amizade de infância com fim igualmente trágico. Tara, essa amiga que a acompanhou nas descobertas tao caras a puberdade, morreu em acidente de trânsito aos 25 anos. Deixou desolação mas também recordações afetivas, em especial as temporadas com as famílias das duas na praia alagoana de Guaxuma, para onde Nara retorna com imagens e fotos dessa ligação. Homossexual assumida, Nara ainda dá contexto bem humorada as descobertas do período. A temática anunciou a condição e os dilemas do protagonista Sócrates, no longa de estréia de Alex Moratto, que levou vários prêmios no recente Festival Mix Brasil. Na verdade, o adolescente levado com impressionante rigor pelo novato Christian Malheiros não tem grandes questões com sua sexualidade, que o leva a se interessar (e ter a primeira decepção amorosa) com um colega de trabalho. Pena, sobretudo, como jovem pobre de periferia da Baixada Santista, morador de um bairro de palafitas, que ao ver morrer a mãe de forma súbita, tem que se virar para sobreviver, trabalhar com biscates e sofrer com o descaso do pai que abandonou a família. Ou seja, está prestes a perder também a dignidade. O filme tem suas imperfeições, talvez um certo exagero nos acontecimentos que beiram uma tragédia juvenil e dao sentido ao título mais da noção grega do que do futebol e seu ídolo que batizam Sócrates. Trata-se de produção pequena, baixo orçamento, mas com engenharia e criação artística ligada ao Instituo Querô, ONG de Santos que também promove a inclusão da moçada local por meio do cinema. Tudo a ver, portanto, com a proposta da Mostra de Gostoso.

‘Temporada’, de André Novais, vence Fest Brasília

Mostra Competitiva

Longa-metragem

Melhor filme (Prêmio Técnico Dot Cine): Temporada

Melhor direção: Beatriz Seigner (Los Silencios)

Melhor ator: Aldri Anunciação (Ilha)

Melhor atriz: Grace Passô (Temporada)

Melhor ator coadjuvante: Russão (Temporada)

Melhor atriz coadjuvante: Luciana Paes (A Sombra do Pai)

Melhor roteiro: Ilha, Ary Rosa e Glenda Nicácio

Melhor fotografia: Temporada, Wilsa Esser

Melhor direção de arte: Temporada, Diogo Hayashi

Melhor trilha sonora: Bixa Travesty

Melhor som: A Sombra do Pai, Gabriela Cunha

Melhor montagem: A Sombra do Pai, Karen Akerman

Júri Popular

Melhor longa-metragem (Prêmio Petrobras de Cinema e Prêmio Técnico Canal Curta!): Bixa Travesty

Prêmio Especial do Júri

Longa-metragem: Torre das Donzelas

Menção honrosa do Júri

Bixa Travesty, pelo posicionamento e impactante apresentação da dupla Linn da Quebrada e Jup do Bairro

Curta-metragem

Melhor filme (Prêmio Técnico Dot Cine): Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados

Melhor direção: Nara Normande (Guaxuma)

Melhor ator: Fábio Leal (Reforma)

Melhor atriz: Maria Leite (Mesmo com tanta agonia)

Melhor ator coadjuvante: Uirá dos Reis (Plano Controle)

Melhor atriz coadjuvante: Noemia Oliveira (Eu, minha mãe e Wallace)

Melhor roteiro: Reforma, Fábio Leal

Melhor fotografia: Mesmo com tanta agonia, Anna Santos

Melhor direção de arte: Guaxuma, Nara Normande

Melhor trilha sonora: Guaxuma, Normand Roger

Melhor som: Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, Nicolau Domingues

Melhor montagem: Plano Controle, Gabriel Martins e Luisa Lana

Menção honrosa de atriz coadjuvante: Mesmo com tanta agonia, Rillary Rihanna Guedes

Júri Popular

Melhor curta-metragem (Prêmio Técnico CiaRio/Naymar): Eu, minha mãe e Wallace

Prêmio Especial do Júri

Curta-metragem: Liberdade

Prêmio Abraccine

Melhor Filme Curta Metragem: Mesmo com tanta agonia

Melhor Filme Longa Metragem: Los Silencios

Prêmio Conterrâneos

O outro lado da memória, de André Luiz Oliveira

Prêmio Técnico DOT Cine – Longa-Metragem

Temporada

Prêmio Marco Antônio Guimarães

O outro lado da memória, de André Luiz Oliveira

Prêmio Saruê

Linn da Quebrada e Jup do Bairro, por Bixa Travesty

Prêmio Técnico Canal Curta!

Bixa Travesty

Prêmio Aquisição Canal Brasil – Melhor Filme Curta Metragem

Mesmo com tanta agonia

Prêmio Técnico CiaRio/Neymar

Eu, minha mãe e Wallace

Prêmio Técnico DOT Cine – Curta-Metragem

Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados

Prêmio Zózimo Bulbul

Prêmio Zózimo Bulbul – Fest Filme Fest Uni

Impermeável Pavio Curto

Prêmio Zózimo Bulbul – Melhor Filme Curta Metragem

Eu, Minha Mãe E Wallace

Prêmio Zózimo Bulbul – Melhor Filme Longa Metragem

Ilha

Mostra Brasília

Prêmios do Júri Oficial

Melhor longa-metragem (Prêmio CiaRio/Naymar): New Life S/A

Melhor curta-metragem (Prêmio Aquisição Prime Box Brasil): Entre Parentes

Melhor direção: André Luiz Oliveira (O outro lado da memória)

Melhor ator: Murilo Grossi (New Life S/A)

Melhor atriz: As presidiárias do filme Presos que Menstruam, representadas por Naiara Lira

Melhor roteiro: Para minha gata Mieze, Wesley Gondim

Melhor fotografia: Entre Parentes, Alan Schvarsberg

Melhor montagem: A Praga do Cinema Brasileiro, Zefel Coff

Melhor direção de arte: O Outro Lado da Memória, Moacyr Gramacho

Melhor edição de som: Riscados pela Memória, Olívia Hernandez

Melhor trilha sonora: O Outro Lado da Memória, Vinícius Jibhajan

Júri Popular

Melhor longa-metragem (Prêmio Petrobras de Cinema e Prêmio Estúdio Plug In): O outro lado da memória

Melhor curta-metragem (Prêmio Técnico CiaRio/Naymar): Terras Brasileiras

Prêmio Petrobras de Cinema

O outro lado da memória

Prêmio Técnico Estúdio Plug.in

O outro lado da memória

Prêmio Técnico CiaRio/Naymar

Curta-metragem: Terras Brasileiras

Longa-metragem: New Life S/A

Prêmio Aquisição Prime Box Brazil

Entre Parentes

Mostra Caleidoscópio

Prêmios Caleidoscópio, Técnico VOD Tamanduá e Aquisição Prime Box Brazil

Os Sonâmbulos

Fest Uni

Melhor Direção Fest Uni

Flores, de Vado Vergara e Henrique Bruch (PUC/RS)

Melhor Filme Juri Popular Fest Uni

A casa de Ana, de Clara Ferrer e Marcella C. De Finis, da Universidade Federal Fluminense

Melhor Filme Fest Uni

Capitais, de Kamilla Medeiros e Arthur Gadelha, da escola Porto Iracema das Artes, do Ceará

Menção Honrosa Fest Uni

Um lugar ao sul, de Gianluca Cozza (Universidade Federal de Pelotas) e De vez em quando, quando eu morro, eu choro, de R.B. Lima (Universidade Federal da Paraíba)

Futuro Brasil

Prêmio Técnico Mistika, Prêmio Técnico Cinemática Audiovisual e Prêmio Técnico Cinecolor

Ontem havia coisas estranhas no céu, de Bruno Risas

Prêmios Ambiente de Mercado

Prêmio CineBrasil TV [pré-licenciamento]

Selvagem – Diego da Costa – Pietà Filmes

Prêmio Rio2C [2 credenciais]

Carolina, Conceição e nós todas – Gabriele Pereira – Space4

Nosso Amor de Hoje – Daniel Calil – Pira Filmes

Prêmio MIPTV [2 credenciais]

O Criador de Tudo  – Tiago Tambelli – Lente Viva Filmes

Prêmio Rotterdam LAB [1 credencial]

Passagem Esperança – Fernando Segtowick – Marahu Filmes

Prêmio Imersão Criativa na Chapada dos Veadeiros/GO

Ecos do silêncio – André Luiz Oliveira – ASACINE Filmes

A sintonia e a emergência na tela do Cine Brasília

A primeira reação logo no início de Luna, longa do mineiro Cris Azzi, é comparativa. O fato dramático explorado nos remete de imediato a Ferrugem, recente filme de Aly Muritiba em cartaz. Uma imagem comprometedora, ao menos para os padrões sensacionalistas das redes sociais, vaza na internet e leva a adolescente Luana a um ato condoído, de desespero. Vítima como sua colega de mesma idade de Ferrugem, ela busca justamente a ferramenta virtual para tentar dar conta, refletir, sobre o bullying que sofre. Uma contradição, a princípio, pode-se dizer, mas trabalhar o antídoto ao mal doentio na esfera em que este foi gerado faz sentido. A trama então assume o flashback para mostrar o desenrolar da situação até  ali e ‘e nos diversos elementos do cotidiano de Luana que o filme se difere do outro, mais fechado na protagonista.

Como confirma Azzi, Luna (a aproximação de título e nome da personagem se justifica na trama) realiza no filme o seu rito de passagem de uma ingênua vida adolescente para o primeiro passo da vida a adulta. O bullying ‘é uma das descobertas das novas relações que comandam tal universo. Há outros. A mãe operária, embora presente e carinhosa, nem sempre poderá resolver os problemas que surgem. Luana passa a ter suas próprias experiencias fora da casa materna, onde o pai não existe, e dos muros da escola. Uma nova colega, aparentemente mais resolvida e ousada, a leva a novos conhecimentos. O sexo entre garotas ‘e um deles. Cabe na esfera da experimentação, assim como bebidas, festas e por ai vai…

Um ou outro exagero ao tentar dar conta de muitas questões, como a pedofilia, ainda que sugerida, não compromete o todo. Azzi revela ter bom domínio do formato leve e ágil que deseja, e por vezes um tom abrupto surge natural a uma idade em que se caminha aos solavancos. Em especial, buscou dar um conceito genuíno e sofisticado aos espaços com a ajuda do craque da fotografia Luis Abramo, em que a casa inacabada de Luna na periferia tem a mesma plasticidade que a mansão descolada de sua amiga, ou que um terreno baldio e as serras ao longe. Quase sempre o filme nos aproxima e nos faz simpatizar com os dramas da protagonista e talvez por isso o final um tanto celebratorio poderia sintonizar melhor com a contenção de Luana. Mas a julgar pela receptividade da platéia e da troca de ideias no debate no dia seguinte, a proposta pegou.

Na estrada — Já o documentário  Bloqueio é o filme urgente por excelência do festival. Assim são  caracterizados os projetos realizados na cola da realidade, sem tantas pretensões de linguagem, estéticas e, em especial, de reflexão. No caso, trata-se da greve dos caminhoneiros. A equipe se colocou em vários locais de bloqueio desses profissionais tão maltratados pela profissão ingrata e ainda por cima pelos governos. Na exigência do momento, transparece na tela todas as contradições da categoria, como o voto declarado naquele candidato a presidência iniciado pela letra B e a defesa da volta dos militares. Também transparecem as opções boas e nem tanto dos realizadores, mas o fato é que está tudo lá. É o que importa.

As mazelas sociais, políticas e individuais do País (e mundiais)

O Fest Brasília prossegue na chave curatorial em sintonia com uma pauta do momento, e por tabela do mundo, o que determina certa produção nacional. A dúvida é se a confluência de temas ligados à revisão politica, ao cenário social de radicalismos, racismo, a gênero etc, pode ser um limitador a qualidade de filmes que não comunguem com esse objetivo, ficando assim de fora da seleção. Ainda que nada desprezíveis,  os document’arios e as ficções exibidas até agora são projetos irregulares.

Los Silencios — O longa de Beatriz Seigner leva título hispânico porque se passa na tríplice fronteira Brasil, Colombia e Peru. Trata do “desplaziamento”, do deslocamento forçado de pessoas em função de alguma tragédia humanitária. No caso, uma colombiana busca asilo no Brasil com seus filhos, fugindo da guerra civil. Deixou para trás o corpo do marido, abatido no conflito, mas de quem não se encontra os restos. Se era difícil lá, numa comunidade de palafitas não é mais fácil. Há certa resistência da liderança local a receber imigrantes. Em paralelo a realidade a diretora cria uma aura fantástica em que os vivos convivem com os mortos, a maneira dos filmes de Apichatpong. Ela assume suas referências, como também a de Brillante Mendoza, mais especificamente do longa do filipino, Lola. Tem se tornado uma pecha negativa afirmar que tal filme é feito para festivais (leia-se na maioria aos internacionais) e seria injusto considerar este um caso, ao menos no todo. Pois Beatriz construiu um bom drama, talvez ainda distante de muitos brasileiros num país de dimensões continentais como o nosso, aos poucos “despertado” pelo drama dos venezuelanos. Apenas que me parece desnecessário trabalhar em registros tão marcantes de realizadores. Ainda sim, o filme tem sua força, bom elenco, em destaque o infantil.

New Life S/A — Não, não se trata desta vez de uma co-produção americana, nem o filme de Andre Cavalheira se passa no exterior. Se Brasília se mostra tao peculiar entre as cidades brasileiras, para o bem e para o mal, conforme capta muito bem os filmes de Adirley Queirós, a trama que o diretor nela articula é um padrão nacional. Começa pelo desprezo que certa elite financeira tem pela coisa pública e naqueles que tentam nela sobreviver. O novo empreendimento imobiliário de alto padrão que justifica o título ocupa um terreno em área protegida por lei, mas o que incomoda o construtor é a comunidade miserável e seus barracos logo ao lado. Por consequência aciona-se o dispositivo da corrupção e a engrenagem que dela depende, de candidatos à eleição a uma promotora. Nem tão natural, mas parece que hoje em dia razoável, ha também o gosto pelas armas que seduz a todos dessa roda, numa  introdução do tema que me parece um tanto abrupta e sem justificativa a não ser disparar (sem trocadilhos) o conflito final. Figura um tanto apática e minimamente reflexiva do entorno amoral, o genro do empreendedor, o arquiteto, será o aglutinador das questões em jogo, incluindo a condição insatisfeita dos operários com salários atrasados, o mal estar com uma encenação artificial de atores no estande de vendas, contraponto a sua própria família, em tese, perfeita. Tanto apoio na realidade paga seu preço e o filme tende a um realismo que lhe da aspecto justamente contrário. Talvez seja melhor, quando se trata de Brasil, de Brasilia, de São Paulo, do Rio… trabalhar na vertente fantástica que Adirley enxergou como a mais simbólica de um país que, como se citou na coletiva, é em sua essência surreal.

 

Todos de pé para aplaudir as “donzelas”em noite consagradora do Festival de Brasília

Dois dias apenas de festival, a primeira noite de competição, e dificilmente  Brasília terá nesta 51a edição e em outras antes e depois a consagração de publico testemunhada ontem com Torre das Donzelas. Recepção esta, diga-se, de forte tom — e contexto — emocional que marca o documentário, nossos dias, e sobretudo pela presença no palco e na tela das “donzelas”. E quem são elas, definidas por uma alcunha hoje percebida como tão machista? Entre os anos 1964 e 1972, portanto no período da ditadura militar, militantes presas em São Paulo eram encaminhadas ao presídio Tiradentes, na avenida central de mesmo nome. Algumas se tornariam famosas depois em seus ofícios. Uma foi presidenta, defenestrada em outro golpe. Dilma Rousseff passou perto de três anos no prédio, que somado a juventude das presas, em sua maioria na média de 20 anos, algumas mais novas, outras mais velhas , deu origem ao apelido. Outro era Paraíso. Nem é preciso dizer que são expressões retóricas para as jovens levadas aos porões da ditadura para as torturas de praxe e depois reencaminhados as celas. Mas a grande revelação do filme de Suzanna Lira, além de recuperar uma memória aos dias cinzentos de hoje, é saber como aquelas mulheres mantinham o equilíbrio, a saúde emocional na medida do possível, com uma rotina de atividades que amenizavam o sofrimento do cárcere. 

Não há um número certo de quantas mulheres passaram pela torre, um dado que só o exército, diz Susanna, poderia informar. De maneira genérica, se sabe que de todos os presos políticos do período, 16% eram do sexo feminino. A diretora fez seu recorte e ouve em torno de vinte ex-detentas, algumas com atividades públicas notórias, como a fotógrafa Nair Benedicto, a historiadora Janice Theodoro e a jornalistas Rose Nogueira. Mas se algumas seriam, por assim dizer, anônimas, todas dão seu relato em igual importância. Embora naturalmente o de Dilma ganhe mais ênfase pela trajetória, mas também por ser a única a dar depoimento fora do formato cênico escolhido por Susanna, uma reconstituição em estúdio do espaço de encarcermanento. 

Há mesmo marcações no chão como o método usado por Lars Von Trier em Dogville. Ali as convidadas vão chegando pouco a pouco até formarem um grupo informal de conversa. Este dispositivo de encenação me pareceu um tanto esquemático, em especial porque antecipado por uma iniciativa delicada e funcional de pedir a elas que desenhassem como era a torre, um dado rico de representação da memória. Não chega a quebrar a boa fluência e o valor dos depoimentos, diferente da encenação com figurantes mais jovens, isso sim reiterativo das falas, sem deixar abertura a imaginação do espectador. 

A justificativa é a de que se buscou dar o sentido de juventude daquelas mulheres marcadas pelo horror da opressão. São meros detalhes da exigência documental de buscar um formato que cative, prenda a platéia já tão pouco afeita ao gênero. Talvez nem precisasse com as confidências de como as presas se distraiam, realizando até desfiles de moda com vestidos que chegaram em malas de doação, com a leitura, os trabalhos manuais e os jogos de vôlei improvisados. Sobre estes dois últimos, numa das melhores falas, Dilma disse que preferia muitos jogos a qualquer possibilidade de fazer trabalhos manuais. Aos críticos da falta de articulação e discurso empolado da ex-presidenta, vê-la discorrer em pensamento límpido e perspicaz daquela experiência pode servir a uma reflexão do que é uma mulher jogada na pressão do poder em país que tem seu universo politico eminentemente masculino semelhante a um purgatório. E como a ex-presidente já havia vivido o inferno…. 

Apesar do tema, a alegria e o humor se impõem ao sentimento de dor inimaginável nessas mulheres. A ponto de se ficar sabendo que muitas delas nunca contaram sobre a experiencias aos seus companheiros e filhos. Com essa perspectiva, digamos, para cima, não houve como a platéia do Cine Brasília deixar de se levantar e aplaudir na apresentação e ao final do filme. Aí sim, fácil imaginar a alegria de algumas das donzelas que vieram ao festival e refizeram seu discurso por luta e tempos melhores. 

Tragédia, verdade poética e a vida comezinha no CineCeará

Acumulo aqui duas noites da competição ibero-americana do CineCeará. Ontem o dia correu também por conta da “charla”, o debate que mediei em iniciativa da Abraccine com os críticos hermanos presentes aqui em Fortaleza. O mote eram as associações de críticos nos países vizinhos, no caso Chile, Colômbia, Peru e Uruguai, em função de crises e situações de desgaste e mudanças que elas enfrentam. Mas volto a falar sobre isso depois. Na tela do Cine São Luiz, foram noites proveitosas, embora irregulares. Comecemos pelo ponto alto, mesmo em comparação a programação anterior.

“Petra” é um longa no mínimo provocador. O diretor catalão Jaime Rosales estrutura, ou melhor desestrutura, sua narrativa em forma de tragédia grega sem abrir mão de um tanto de melodrama, gêneros que como notou o colega Luiz Zanin, não poderiam ser mais díspares. Mas ao enfeixá-los acrescenta um formato e uma opção estética que tanto pode somar como trazer um incômodo ao espectador. Daí a desestruturação, sobretudo no que toca ao embaralhamento de capítulos anunciados em cartelas, na verdade apenas dois deles, fugindo a ordem dos fatos.

Nas cenas iniciais, Petra (a bela argentina do momento Barbara Lennie) é a artista plástica que se instala na idílica propriedade rural na Catalunha de um famoso escultor (Joan Botey, ator não profissional, engenheiro de formação) para uma residencia artística. Conhece a mulher do artista (Marisa Paredes), de quem ouve um alerta do que a espera, o filho do casal e fotógrafo que confessa a ela a difícil  e insustentável relação com o pai, empregados da casa etc.

Mas Petra tem bem mais a fazer ali. Acredita que Jaume, o escultor, é seu pai e quer definir as coisas. Ele, no entanto, é tipo irascível, manipulador, o mal em pessoa. Destrói a todos em sua volta. Tragédia montada com um jogo de cena em que a câmera desliza em longos planos-sequência, acompanhando as personagens ou deixando-os propositadamente fora do quadro. Artifício que soma estranhamento, funciona como um olho maior, um deus afinal na mesma medida em que parece Jaume em seu escárnio e sua superioridade, mas que tende a se tornar um pouco gratuito até o final. Não como exibicionismo e sim um modelo que é útil para representar o desalento e senso perdido das personagens e não se altera quando essas começam a encontrar saídas daquele destino, mesmo que trágicas. Um filme refinado, repleto de esgarçamentos que não facilitam uma adesão imediata. Curioso também, e não por certo casual da curadoria, ser um filme no feminino, de chave se se quiser feminista, como O Barco, em parte Cabros de Mierda, e o representante da Colombia visto ontem, “Amália, a Secretária”.

Antes desse, no entanto, foi exibido “Eduardo Galeano Vagamundo”. Trata-se de documentário sobre o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940 – 2015) realizado por Felipe Nepomuceno, filho do crítico e tradutor literário Eric Nepomuceno. Também por tal filiação, o jovem diretor conheceu Galeano (entre outros grandes mestres da produção literária latina, especialidade do pai), mas sobretudo havia o programa de TV apresentado por Eric e dedicado a literatura. Foi essa a fonte da entrevista realizada por Felipe em 2010 que é o centro do filme agora, acrescentado de material inédito e tocante. Diversos convidados, como o autor moçambicano Mia Couto, os atores João Miguel, Paulo José e Ricardo Darín e o artista plástico Francisco Brennand lêem passagens e pequenos contos dos livros do mestre uruguaio, que como se sabe escreveu muito, em variados formatos e gêneros. Há um tom de reflexão emotiva que permeia todo o filme, e em especial cenas captadas de situações banais como a chuva, uma exibição de tradicional dança no México, paisagens, ajudam ao espectador a pensar sobre as verdades nem tão evidentes que Galeano nos aponta.  Cinema e literatura é junção ingrata quando se tenta desvendar a primeira e o realizador, como apontou em conversa esta manhã, não teve a pretensão de encerrar o tema. Que venha mais Galeano.

Há uma citação por Galeano de um ocorrido quando foi certa vez entrevistado por um crítico. Este lhe disse que o escritor parecia ter um olho no microscópio e outro para o telescópio.  Pois o diretor colombiano André Burgos apostou no primeiro — ainda que de quebra amplie o tema ao universal e portanto telescópico — no seu misto de comédia e drama dedicado as pessoas comuns, aos anônimos, em suas vidas aparentemente sem grandes feitos, mas que se vistas na lente miúda podem gerar encantamento, graça. A protagonista Amália pertence a esse estrato aparentemente destituído de valor numa sociedade competitiva e baseada na conquista econômica como a nossa.

Ela é a secretária de uma pequena empresa onde vive cotidiano repetitivo, sempre atenta ao dono que tem apresentado comportamento estranho, quando a funcionária descobre uma arma em sua mesa. Solteira, em casa ela vive com a mãe já um tanto senil, sem fala, e a amiga que cuida desta. A mudança virá com um eletricista intrometido que aparece no escritório para consertar uma tomada e tirar Amália da apatia através da dança.

O filme demora a embalar, mas se desenvolve depois que a personagem começa a questionar sua vida. Interessante o trabalho de uma fotografia de aparente traço televisivo, quase cafona, mas que aos poucos se faz significativa com as cores que se alteram com o destino de Amália. A ver com atenção aos detalhes, mais uma vez no micro do que no macro. Filme simpático que depende muito da ótima atriz Marcela Benjumea, famosa em seu país por novelas também.

 

A emoção e o explícito no jogo duro da ditadura chilena

“Cabros de Mierda”, ou cabras de merda na tradução, trabalho com um expediente frequente no cinema quando se aborda um tema tão doído e sombrio como as ditaduras. Mais ainda porque o segundo competidor apresentado ontem no CineCeará vem do Chile, país que como a vizinha Argentina, viveu uma das perseguições e um dos massacres mais violentos da América Latina. Difícil essa medição, quase incorreta moralmente, pois também tivemos a nossa, embora uma ruidosa fatia da população demonstre sem nenhuma vergonha descrer do regime militar e suas atrocidades, e pior, mesmo apoiá-lo e requerer seu retorno. Mas essa é dicussão lateral aqui. O fato é que a grande diferença com os hermanos vizinhos é que esses promovem uma revisão do período, julgam seus algozes e mantém a memória sempre em alerta. É deste pressuposto que parte o chileno Gonzalo Justiniano em seu longa, tecido com humor sutil, alguma graça mesmo, quando esta é possível, personagens com empatia e tom emotivo. Mesma trilha de filmes como Machucca, lembrado hoje na conversa com o diretor, ou Kamchatka, para ficar em dois exemplos.

Não por acaso, os filmes tem crianças em papéis de protagonismo, com aquele apelo de inocência e esperteza que as tornam irresistíveis. No caso aqui é Vlad (Elias Collado), garoto ruivo de grandes óculos que tem a insistente mania de culpar Nixon pelo atentado a Allende. Seu pai é um militante fugitivo e ele vive com  Gladys (Natalia Aragonese) , sua tia, mais a avó, em uma casa só de mulheres. O momento é 1983, uma década portanto do golpe, e o cenário uma “poblacíon”, espécie de comunidade bastante pobre, chamada La Vitória. Nem por isso faltam contestadores combativos ali a política ditatorial de Pinochet. Gladys é um deles, jovem bastante impulsiva e liberada. Com sua potência sedutora, vira de ponta-cabeça as crenças, em especial as religiosas, do jovem missionário americano (Daniel Contesse) que se hospeda na casa para pregar aos moradores do vilarejo. Aos poucos, se dá conta do contexto político pesado e do quanto seu país contribue para ele.

Todo o painel tem origem em fonte real, com base no famoso Museu da Memória que se inaugurou em Santiago em homenagem as vitimas do regime. As personagens são acúmulo de vários testemunhos do período e o diretor dedica o filme a três padres franceses que morreram no Chile de Pinochet lutando contra o regime. A toda uma construção tocante, sútil, o diretor soma passagens de encenação de torturas, ainda que com procedimentos leves perto do que ocorria, e da conhecida forma de como os militares se livravam dos militantes, jogando seus corpos ao mar, isso se já estivessem mortos. Não é o caso de questionar a validade dessa opção, pois para ele persiste a necessidade de sempre lembrar as gerações dos horrores praticados, justificativa plenamente aceitável. Mas uma mudança de tom entre a narrativa até entao adotada e tais momentos quebra o tecido delicado de reflexão tão próprio do humor crítico e traz uma função quase didática desnecessária.