Berlinale (5): Las Herederas larga na frente com prêmio da Fipresci

Em cerimônia realizada na Cinemateca alemã, bem ao lado do complexo da Berlinale, o júri da crítica internacional anunciou os prêmios das três seções principais do festival. Na competição venceu o paraguaio Las Herederas, estréia no longa-metragem do diretor Marcelo Martinessi. Foi o segundo filme exibido em uma seleção que me pareceu a mais fraca desde que cubro a Berlinale. Já houve filmes piores, é verdade, nesta quase uma década, mas a questão é que houve títulos muito bons também. Não defenderia nenhum caso este ano entre uma média regular. Mas falo disso mais para frente. Voltemos as herdeiras de Martinessi, que é uma co-produção com o Brasil. Depois do discurso exultante, brinquei com ele se poderíamos considerar um tiquinho desse reconhecimento como brasileiro. “Por supuesto! Fizemos o som do filme no Brasil,  somos tão próximos na fronteira e tão distantes no conhecimento de nossos cinemas”, respondeu. “Espero que esses projetos nos aproximem”.

Berlim costuma marcar uma tradição. Os filmes da crítica, aliás em júri liderado pelo carioca Mario Abade, muitas vezes já replicaram a festa com o Urso de Ouro. E os latino-americanos são muito bem vindos por aqui. Basta lembrar do uruguaio Gigante e do peruano La Teta Assustada, este vencedor maior. Las Herederas trabalha em registro contido temas indigestos a cultura latina, o preconceito de classe, o racismo, a homossexualidade, a decadencia de uma sociedade e política patriarcais. Faz isso praticamente apenas com mulheres em cena. E com ótimas atrizes. Difícil que não saia com algum prêmio na entrega amanhã á noite dos Ursos, 19h no horário local.

Imaginar o que o alemão Tom Tykwer, diretor de linguagem mais pop, e seu time farão requer uma habilidade quase premonitória. Por certo teremos prêmio importante para uma prata da casa. Hoje foi exibido o terceiro representante local e último título competitivo, In the Aisles, nos corredores. Boa surpresa, e talvez se o cansaço já não tomasse conta, mereceria maior atenção. Os corredores no caso são de um grande supermercado, do tipo daqueles atacadões, onde chega para trabalhar como repositor o calado Christian. Seguindo um excentrico e divertido plano de treinamento, ele é tutelado por um antigo funcionário para aprender a lidar com a empilhadeira. Em meio a rotina repetitiva do turno da noite, ele conhece uma moça atraente que corresponde a seu interesse. Apenas que os colegas o avisam ser casada e que o marido não parece ser boa coisa. O rapaz também tem sua vida misteriosa. Esteve preso por um embate com um chefe anterior. Esses pequenos dramas se refugiam em um maior, numa aparente nostalgia da Alemanha não unificada que seria melhor na visão, por exemplo, do ex-caminhoneiro responsável por treinar o novato. Já vimos muitos filmes assim, de registro dos anônimos, das vidas comuns de trabalhadores, sem glamour ou grandes ambições. Não é fácil e o diretor Thomas Stuber dá boa fruição a narrativa, um pouco excessiva na duração de mais de duas horas, com sensibilidade e humor. Sobretudo conta com Franz Rogowsky, um ator que marca essa edição também em outro concorrente alemão, Transit, embora agora em trama mais exigente. Comentei anteriormente sobre ele, um rosto expressivo e um pequeno defeito no lábio superior, que ao mesmo tempo confere ar problemático e ausente. Fui pesquisar e eis que o moço interpretou o filho rebelde de Isabelle Huppert no Happy End de Michael Haneke. Duvido que com essa dose dupla de talento não leve o Urso de Cristal de melhor intérprete.

Um Cristo, mas sem redenção

A última manhã da competição foi proveitosa também pelo novo filme da diretora polonesa Małgorzata Szumowska, que há três anos dividiu o prêmio de melhor direção aqui com seu Body, exibido no Brasil. Ela parece gostar de um toque de estranheza, de uma crítica a certa excentricidade do seu povo. No filme anterior, um investigador envia a filha a uma psiquiatra preocupado com a reação doentia dela a morte da mãe, chegando ao estado de anorexia por exemplo. A profissional adota métodos pouco ortodoxos no tratamento. O novo filme abre com uma cena deslocada da trama, quando um grupo de consumidores avança de modo animalesco sobre uma liquidação de televisores. Detalhe: todos precisam ficar de roupas íntimas para levar o produto. Mas a situação permite refletir sobre o quão esquisitos somos nós, os seres humanos, ou ao menos os polacos, como quer a diretora. O jovem Jacek que o diga. Tipo simpático, fã de heavy metal e operário num vilarejo onde a família trabalha na terra, sua vida vira de ponta cabeça quando sofre grave acidente na peculiar obra em andamento no local, uma estátua do Cristo Redentor. É para ser maior que a do Rio de Janeiro, como se planeja na comunidade muito católica, e Jacek cai de altura considerável. A tragédia só vitima seu rosto, mas o desfigura. Um transplante inédito é feito e Jacek, antes boa pinta, volta outro para desgosto de alguns dos familiares e da namorada, com quem iria se casar, que se afasta. Não só ela na cidade. Ele sofre com o desprezo, também porque virou celebridade em função da cirurgia. Há evidente crítica a intolerância, a postura religiosa que pouco vale quando é testada, o que não se deve descartar como tema delicado em se tratando da Polônia, país dos mais católicos. Se não vai muito a fundo nas questões, gostando de jogar mais com um humor negro e a observação social, a diretora fornece um retrato que dá o que pensar para muitas sociedades além da sua.

 

 

 

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Berlinale (4): La La…Lav Diaz! E um tabu chamado Romy Schneider

Já foi mais desafiador incluir um filme de Lav Diaz na rotina corrida da Berlinale. Há dois anos, o diretor filipino trouxe para a competição A Lullaby to The sorrowful Mystery, com nada menos que oito horas. A longa duração dos filmes é uma das suas marcas, como a fotografia em preto e branco. Vale a pena? Sempre. Diaz faz do seu cinema mergulho reflexivo e poético na conturbada história de seu país. Neste anterior tratava da colonização espanhola e do herói rebelde maior. Agora fala da era Ferdinando Marcos, o controverso presidente das Filipinas que impôs a força militar contra os rebeldes ao seu governo nos anos 70. Lav foi sucinto: Season of The Devil tem “apenas” quatro horas, mas um recurso inusitado. Os diálogos são como canções tradicionais e poemas entoados pelos atores. Uma rock ópera, explicou o diretor. Pode-se imaginar quem seja o demônio do título. O filme começa numa clínica onde uma médica que se dedica aos pobres e seu namorado, um poeta, comentam, cantam, o que seria necessário para combater a opressão. A ajuda de uma bruxa, de uma figura do folclore local, de uma coruja e sua sabedoria… também um poeta. A médica desaparece e este vai em busca dela. Chegará no vilarejo onde a milícia de Marcos oprime os moradores. O texto cantado se repete, um la-la-la as vezes cansativo, mas revelador do sentimento de revolta e humilhação de um país. Nem todos sintonizaram a proposta de Diaz, mas esta tem uma força e um valor genuíno de reflexão raros sempre, e muito mais nessa seleção fraquíssima da Berlinale.

Para sempre Sissy

Dificil tocar num mito, ainda mais quando esse queria tudo menos se tornar um mito. Até pelo risco, e o resultado bem digno, 3 Dias em Quiberon se mostrou vencedor em seu objetivo de tratar no registro de ficção não de uma vida toda mas apenas do breve período em que Romy Schneider passou em um hotel spa na praia francesa do título. Um ano antes da morte trágica do filho adolescente e do suicídio aos 42 anos, Romy mergulha na bebida e nos medicamentos ao mesmo tempo que dá uma entrevista reveladora a revista alemã Sterne. O fotógrafo é um antigo amigo e amante que a convenceu. O repórter é um tipo dúbio que não facilita. De cara, ataca: uma parte a vê como uma princesa, bela e sofrida; a outra, como uma puta. Afinal quem é Romy, uma das mulheres mais bonitas do mundo, que viveu tórrido romance com Alain Delon, e quando se falou de sua gravidez na imprensa, perguntava-se quem era o pai? O filme busca a mulher comum atrás do mito, problemática, instável, deprimida e em busca da felicidade. Não teria êxito sem a presença convincente em cena de Marie Baumer, de semelhança circunstancial com a bela mas de talento à medida. Arriscaria um prêmio de interpretação, até por ser prata da casa.

Berlinale (3): a “geração perdida” russa, falsas identidades e faces novas e velhas do terrorismo

YYMuito material acumulado nesses três dias da competição,  o que já permite um balanço da metade desta Berlinale. A princípio nenhum grande filme, mas propostas interessantes. Vamos a elas, em tópicos:

Dovlatov – O título indica o nome do personagem do novo filme do russo Aleksey German Jr, que talvez nos diga menos que seu amigo, e antagonista nesta ficção, Joseph Brodsky, cujo exílio parece ter beneficiado o reconhecimento de sua literatura. Ambos os escritores de São Petersburgo, então Leningrado,  tem muito em comum, no talento, n a perseguição do governo soviético nos anos 70, na morte precoce. Mas Sergei Dovlatov (1941-1990) amargou, ao que parece, maior descaso e frustração ao ser reconhecido em seu país apenas depois de morto, numa tardia publicação de seus escritos. Antes, no entanto, quando emigrou para Nova York, teve a merecida fama internacional. Na república soviética,  os censores não viam com bons olhos seu estilo sarcástico, irônico, irreverente, e inevitavelmente barravam seus livros. Atuou como jornalista e aproveitou para realizar pesquisas entre os trabalhadores do porto ou sobre a construção do metro, quando em certo momento se encontram os restos de trinta crianças mortas nos bombardeios da Segunda Guerra. German, filho de proeminente cineasta crítico da sociedade soviética, tem estofo e potência para nos dar um belo retrato não só do  internacional mas persona non grata na Rússia Dovlatov, mas principalmente nos apresenta uma espécie de lost generation local, de artistas de várias expressões. Faz isso com uma assumida influência de Tarkovsky e uma narrativa não realista de Sokurov.

Transit – A trama se concentra em um militante da resistência francesa durante a ocupação alemã na Segunda Guerra, mas o recurso do diretor Christian Petzold, prata da casa aqui na Berlinale, de coligir passado e presente permite supor as questões similares dos refugiados ontem e hoje. Georg é esse fugitivo, que no caminho da Paris prestes a ser ocupada para Marselha assiste um escritor em sua morte e descobre seus escritos. Assume a identidade do outro, em especial para obter um visto para o México, mas ao se aproximar da mulher e do filho do autor seus planos se alteram. Petzold já havia trabalhado a questão da falsa identidade em Phoenix e Barbara, seus filmes anteriores, mas agora soma a questão também do terrorismo, evidente na cena contemporânea da polícia em ação contra os ilegais. Filme correto, com bons atores, em especial o protagonista Franz Rogowski, tipo anti-galã de lábio leporino que confere realismo ao drama.

Eva — É de ordem semelhante, mas em outro registro, a logro de identidade em Eva, de Benoit Jacquot. Gaspard Ulliel é o garoto de programa que atende um velho escritor e dramaturgo inglês de fama radicado em Paris. Este tem uma morte súbita e Ullliel rouba da mesa uma nova peça do autor e a apresenta como sua. O sucesso da montagem o torna célebre e rico, mas logo vem a cobrança de uma segunda peça do produtor. O rapaz é protegido pela assistente deste, sua namorada. Entra em cena para tumultuar a coisa a figura despachada interpretada por Isabelle Huppert, personagem que faz lembrar Elle, de Paul Verhoeven, mas em grau bem menos corrosivo. Casada com um antiquário que está preso, ela paga suas dívidas como garota de programa.  Madame o atrai, Ulliel entra no jogo e os fatos se precipitam para um desfecho dramático.  Ainda que a trama possa parecer um tanto forçada, é possível aceitar as coincidências e reviravoltas. O  mais complicado é defender um arriscado conceito de engano e falseamento que move o filme em todas as suas camadas. Jacquot parece se interessar pelo tema que não deixa de ser significativo na sociedade contemporânea, como fez nos recentes Até Nunca Mais e Três Corações. Mas como nesses, tatear o falso pode fazer o filme sucumbir a ele.

Figlia Mia — Há três anos, a italiana Laura Bispuri fez sua estréia no longa-metragem ao apresentar na Berlinale o bom drama Vergine Giurata. Volta agora com a mesma atriz protagonista, Alba Rhorwacher, em drama levado na Sardenha sobre uma garota de dez anos que no verão descobre segredo sobre sua verdadeira mãe. Aquela que a cria oculta da menina um passado ligado a personagem de Alba, mulher bastante instável, dedicada a bebida e noitadas no bar local onde passa de um homem para outro. Quando mãe verdadeira e filha se conhecem, um antigo acordo começa a ruir. O filme tem  força, é bem conduzido e o que se comentou aqui no festival diz respeito a uma conjunção de duas tendências fortes do cinema italiano, o neorrealismo e o melodrama. Este me parece plenamente trabalhado, mas não reconheci tanto uma acepção neorrealista. O fato de buscar um realismo entre uma paisagem bruta, ainda que bela da costa sarda, e a brutalidade de vidas, não significa necessariamente atrelar-se a um movimento que partiu da realidade dura para, no sentido inverso aqui, chegar a uma poética da miséria. Ainda sim, um trabalho digno que depende também dos bons atores em cena.

La Priere — Se a ideia do júri liderado pelo alemão Tom Tykwer for reconhecer um ator jovem e revelação, Anthony Bajon já tem o prêmio. Ele faz muito, na verdade quase tudo, neste drama de Cedric Kahn, diretor irregular que lembramos por O Tédio ou o recente Vida Selvagem. Há um clima de Deuses e Homens, de Xavier Beauvois, na propriedade de campo dirigida pela Igreja que recebe jovens viciados em drogas em busca de recuperação. Ali vai parar Thomas, papel de Bajon, contrariado e rebelde até conhecer a filha de sitiantes próximos. Entre a decisão de escapar da pressão e da rotina rígida ou ficar perto da moça, o rapaz titubiará bastante, inclusive decidido a seguir carreira religiosa. Esse vai e vem tira muito da fluência do filme, enfraquece o drama e abusa da repetição de situações. Uma maior concentração em algum ponto da narrativa, como por exemplo a personalidade instável de Thomas ou a postura religiosa para essa função de tratamento, teria feito bem ao projeto.

7 Days in Entebbe e Utoya – 22 July — O primeiro, vocês já devem saber, é o novo projeto de Padilha, de caráter internacional e fora de competição. Trata-se da recriação do famoso sequestro do avião da Air France em julho de 1976 por revolucionários palestinos e setores de movimentos guerrilheiros da Alemanha. Na rota Paris-Tel Aviv, o voo levava muitos israelenses, daí a escolha para pressionar o governo de Israel. O avião foi desviado para Uganda, onde o ditador Idiamin Dada apoiou o plano. Militares israelenses elaboraram uma bem-sucedida estratégia de resgate, tirando vivos dali os 102 passageiros que foram separados dos não judeus e permaneceram sob a ameaça de morte. O cinema se encarregou muitas vezes de adaptar o acontecimento, sendo a versão mais popular a feita para TV, Vitória em Entebbe. Revê-lo agora tem por certo caráter político dada as muitas mudanças no tabuleiro de negociações entre Israel e Palestina.

Talvez por esse aspecto, há menos ação do que se poderia supor na versão de Padilha. Ao contrário, privilegia-se o fundamento das razões dos revolucionários e suas inquietações quanto as diferentes intenções em jogo, isso por um lado, e a difícil equação do quadro político e das decisões a serem tomadas por Israel, por outro. O problema é que muito dos personagens surgem caricatos, em especial do lado judeu, embora o astro local Daniel Bruhl e Rosamund Pike deem bom sustentação como o par principal de guerrilheiros. A opinião geral por aqui foi ruim, inclusive por condenar o recurso aparentemente estranho de utilizar uma coreografia da reconhecida companhia de dança israelense Batsheva, em meio ao drama, justificada pela ligação de uma bailarina com um jovem militar. Apesar dos diálogos muitas vezes capengas, para mim funcionou e segui o drama interessado nos meandros das negociações que pouco sabemos, entre figuras emblemáticas como Ythzak Rabin e Shimon Peres. Padilha faz sua escolha por uma noção européia do conflito, é certo, mal dá voz aos palestinos e os israelenses são vistos como inábeis para uma situação de emergência. Na coletiva, disse que procurou assinalar a figura humana dos ditos terroristas, aos olhos do presente de que todos são seres execráveis. Bem, basta ver o concorrente norueguês Utoya para ter ideia de certa inocência e falta de experiência do sequestro em 1976.

O título diz respeito a pequena ilha onde em 2011, seguido aos ataques a prédios do governo em Oslo, o mesmo terrorista saiu a esmo atirando em adolescentes em férias. O diretor Erik Poppe adotou aqui uma suspeita e torcida estratégia para reviver o fato ao basear-se em depoimentos de garotos sobreviventes mas mudar seus nomes e histórias. Ou seja, o que se vê na tela não é propriamente o ocorrido, com a desculpa de proteger as vítimas. Ora, se um projeto como este já de arrisca na questão ética e mesmo do limite do cinema em captar a tragédia, mais complexo ainda é materializa-lo como ficção falseada — outro caso de falseamento? — e ainda com resultado ruim. Foi um dos piores concorrentes vistos até agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Berlinale (2): Esse Obscuro objeto…Barroco!

Abro um grande parentêses no comentário da competição para falar do filme que até agora mais me tirou do eixo. Não sabia, e talvez ainda tenha alguma reticência, o que pensar quando saí do Imax em que Obscuro Barroco foi exibido dentro da  paralela Panorama. No mínimo parecia curioso na programação um documentário sobre travesti do Rio de Janeiro dirigido por uma realizadora grega. Chamava a atenção também a escolha para uma sala de exibição tão específica, afinal do que sugeria ser apenas um retrato de  figura, digamos, de apelo. Cheguei a brincar com colegas que talvez quisessem nos confrontar em grande dimensão com as genitálias da protagonista. Bem, calei minha boca. Primeiro: o filme de Evangelia Kranioti justificou plenamente sua presença na enorme tela, talvez até pelos motivos que possam deixar vocês de pé atrás. Há o Carnaval, dos blocos de rua e do sambódromo, e quando a Beija Flor ou Portela explodem com a bateria na evolução dos passistas, carros alegóricos e público, difícil não se empolgar. São momentos breves, porque não é (só) esse o objeto da diretora de 38 anos. É muito mais e aí reside a força reveladora de um filme que me parece essencial para o momento trágico que o país vive.

Começa com uma paisagem definidora da beleza do Rio, mas a sugestão de cartão postal é quebrada pelo clima cinza e chuvoso. A entrada de Luana, a travesti, se dá aos poucos, primeiro por perfis e pela narração em off de texto que parece um tanto forçado, embora sofisticado. Pudera, é Água Viva, de Clarice Lispector. A narrativa avança, vê-se rapidamente uma sessão de candomblé, um Rio histórico, da metrópole, d a boemia, o que parece ser o apartamento de Luana Muniz, as ruas… Sempre em noturnos, vemos a cidade dos grandes eventos, os fogos do Ano Novo, a festa maior de fevereiro, os bailes funk. Parece clichê? Até pode ser, e a intenção é não evitá-los mas ir além.

Alguns recursos mostram uma criadora atenta ao objeto escolhido: uma fotografia não realista mas ensaística, barroca por expressão, que lembra a de profissionais do still como Claudio Edinger ou Cravo Neto; também a introdução de um pierrô que olha tudo ao redor com misto de maravilhamento e melancolia; a passagem quase imperceptível da manifestação máxima popular para a política que se dá do mesmo modo nas ruas. Sendo grega, com sensível captação da realidade e conhecimento de uma crise, Evangelia não deixou de perceber que algo estava acontecendo na cidade, no país, em que permaneceu quase dois anos para esse projeto. Filma os protestos contra o governo Temer, ouve os manifestantes cantando Chico Buarque, e sua intenção é a mesma de buscar na ação dos corpos e da voz o nosso, o jeito brasileiro de se expressar.

Isso não veio do nada. Baseada em Paris, ela ganhou uma bolsa de estudos francesa para realizar um projeto sobre marinheiros em diversos portos do mundo. ‘Exótica, Erótica, Etc” chegou a ser exibido numa pequena mostra anual de filmes gregos na Cinemateca Brasileira. O documentário abrange portos brasileiros e ela ficou fascinada pelo Rio de Janeiro, ‘sua beleza contraditória’. Voltou para filmar mais, a gente, os corpos e durante a pesquisa conheceu Luana, ativa militante pelos direitos de seus pares e famosa nesse universo. O filme cresce ainda mais quando ela deixa o texto de Lispector e, na segunda metade, constrói o seu, com uma percepção atinada e bem humorada de sua vida, as dificuldades e desejos de uma travesti. Se o Rio fosse uma pessoa, diz ela, seria uma travesti. E por aí vai.

A impressionante ligação da diretora com as matrizes da cultura nacional faz o restante. Fluente em português, ela se deu conta, por exemplo, do nosso barroco muito diverso e específico se comparado a outras expressões. O ato de tudo deglutir e renovar, reinventar, lhe surgiu ao ler o Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. Foi o detonador da ligação para ela com a cultura clássica antiga da Grécia. O corpo como identificação, simbolismo, maior do ser, e a visão da topografia carioca não está no filme por acaso, com suas montanhas, projeção de um corpo humano. Quando já pensava em finalizar o projeto, seu companheiro, francês, indicou o livro de Lispector. Ela já conhecia a escritora, mas não Agua Viva. Achou que Luana deveria lê-lo, e a partir disso o texto se incorporou ao off. Sintomático que venha de olhos estrangeiros uma busca do que há de mais genuíno e motivador em nossa cultura e um dos trunfos do filme e nos devolver isso em tal momento de perda de crença, de valor da ideia de nação. Mesmo sendo casual a realização agora, não vi nos ultimo tempos tal impacto emotivo na tela.

 

Berlinale (1): soltando os cachorros, faroestes a gosto e Paraguai invisível mas genuíno

Mal começou a 68a edição do Festival de Berlim e a correria já tomou conta da programação do dia, a ponto de só agora dar notícias no blog. Então pelo início. Wes Anderson abriu oficialmente a competição ontem com seu Isle of Dogs, Ilha de Cachorros. O diretor americano é queridinho da casa, mas não me empolga muito, como falei anteriormente aqui mesmo. Tem estilo, todo particular é verdade, mas seu cinema me parece ter aquela pátina de excentricidade e não vai muito além disso. A cara de garoto de Anderson me parece resumir tudo, um cinema um tanto infantil. Diverte, é simpático, mas… Há quatro anos ele abriu Berlim com Grande Hotel Budapeste. Agora traz uma animação que tem óbvio a marca de qualidade de suas produções. Cativa de início com a ideia extravagante de um futuro próximo no Japão onde os cães de estimação súbito se tornam inimigos mortais por contagiarem os humanos com uma febre mortal. Não adianta inventarem uma vacina, pois o ditador do país está determinado a se livrar dos animais, mandando todos para uma ilha que serve de aterro sanitário.

Febre e governos impositivos lembram uma situação próxima? Pois não há indício desta vez que Anderson tenha se influenciado pelo Brasil como fez no filme anterior, quando a passagem de Stefan Zweig pela serra fluminense originou um livro no qual o diretor se baseou. Ilha de Cachorros tem muito mais a ver com tragédias mundiais e do próprio Japão, tanto no que diz respeito a coerção por ditaduras como dos perigos ambientais, em citação evidente de Fukushima. Trata-se de querer falar de muita coisa e não querer se aprofundar em nada, recurso palatável para uma platéia que o segue com entusiasmo.

Em seguida, um drama de luta pela liberdade sugeriu que teríamos um bom filme político irlandês, como é do feitio dessa cinematografia, semelhante a 71, que foi exibido logo na sequencia de Grande Hotel Budapeste há alguns anos. Se foi proposta pensada, até deve se louvar, mas Black 47, fora de competição,  não corresponde na qualidade ao similar anterior. Ambos carrregam no título o ano em que se passam as histórias. Em 1971, quando o IRA já está atuante e um jovem soldado inglês esquecido em Belfast busca sobreviver. Volta-se um século antes, e 1847 traz a peste e uma fome devastadora a população do país enquanto a Inglaterra só confisca propriedades e mata os revoltosos. Ali, ou se morre, ou se emigra para a América.  Um desertor irlandês volta para casa e encontra apenas a família do irmão,  mulher e filhos, no momento em que estão sendo expulsos pelos ingleses. Busca vingança, matando cada opressor que liquidou os seus. O filme é levado em pique de western, com o cavaleiro solitário invencível e deixando a “metrópole “de cabelo em pé. Há de início uma força e honra a comandar a câmera, mas situações facilitadoras e inverossímeis põem a proposta a perder. Vale, se tanto, para formar mais peça do quebra-cabeça complexo da dominação da Irlanda.

Vale a pena inverter a ordem das sessões para tratar de outro filme que segue as pegadas do faroeste, mas as trai ainda mais que Black 47. Isso porque Damsel trabalha, por assim dizer, no universo clássico do gênero, na época e território em que se consolidou.  O filme traz uma outra dupla de diretores irmãos, David e Nathan Zellner, que em projeto anterior, Kumiko, homenagearam o Fargo dos Coen. Agora estão melhores de elenco, com Robert Pattinson e Mia Wasikowska, além deles mesmo em papéis chave. Pattinson busca recuperar o amor de sua vida, papel de Mia, das mãos de outro. Leva na empreitada um padre para já celebrar o casamento depois de matar o rival. As coisas não saem como previstas e o plano degringola. Desde o início, com uma espirituosa conversa numa parada erma da diligência, o filme se coloca no registro entre o absurdo e o humor negro. Mas não se sustenta em nenhum deles e ainda perde o timing da resolução.

Sem falsificação

Por fim, a melhor atração desses dois dias na competitiva vem do  “ìnvisível“ Paraguai. Foi assim que o diretor Marcelo Martinessi e seu maravilhoso elenco feminino qualificaram na coletiva o pouco destaque, a pouca atenção, que o país tem entre seus pares latinos. Isso repercute, sabemos, no cinema. Em uma década, pode-se lembrar dos filmes de Paz Encina, como Hamaca Paraguaya, ou o sucesso, para os padrões locais, de 7 Caixas, espécie de Cidade de Deus na versão guarani. Las Herederas é uma soma muito digna a esse lote restrito. Filme de sensibilidade feminina, diriam os mais apressados, apenas que temos um homem na direção que soube se cercar do talento de suas colaboradoras. Ele buscou atrizes que tivessem alguma relação de história pessoal com as personagens. Ana Brun chegou a chorar ao tentar responder uma pergunta e depois foi sintética ao dizer que aquela é sua história, sua vida, e que não diriam mais nada. E que vida é essa? Chela, sua personagem, é uma das herdeiras do título que vive com uma companheira numa casa outrora elegante. Agora, na faixa dos sessenta anos, a decadência e a falta de dinheiro obrigam a se desfazer dos objetos de família. Não basta para cobrir a dívida e sua parceira vai para a cadeia, num processo movido pelo Estado. Enquanto aguarda sua soltura, Chela serve de motorista informal as antigas amigas, na verdade demais herdeiras que vivem da aparência de um tempo já exaurido. Esse tempo era o da ditadura, do governo do  general Stroessner que os brasileiros conhecem tão bem, pois veio se exilar aqui depois que seu governo caiu. Essas mulheres como Chela foram de uma geração reprimida, que ficaram desestruturadas, a deriva, depois do fim de uma época. Chela é depressiva e ao conhecer uma jovem liberada tenta reaver um tico de felicidade. Martinessi trabalha temas difíceis, como a noção de classe, representada no antagonismo da empregada de origem indígena, a politica e a sexualidade. Tudo com uma delicadeza rara e em sintonia com colegas, aí sim muito visível, dos vizinhos Chile, Peru e Argentina, como Sebastian Lélio, Joana Lombardi e Lucrecia Martel.

 

41ªMostraSP/De Ruiz a Callado, mais dicas

Bons filmes, aqueles obrigatórios e outras dicas:

A Telenovela Errante — Viúva do mestre Raoul Ruiz (1941-2011) e parceira em muitas das produções do diretor chileno, Valeria Sarmiento se encarregou de terminar esse longa iniciado por ele em 1990. O pressuposto é tratar a realidade, ou melhor, a ficção como Ruiz entende seu país, a partir do modelo das telenovelas. Ou seja, jogo que permite imediata referência e reconhecimento a nós brasileiros. Os esquetes se sucedem como uma espécie de relatos fantásticos, surreais, para quem acredita que só nestes registros é possível interpretar as proezas amorais e a desfaçatez de uma nação em transe. Sofisticado, cínico, de humor negro exemplar, ainda que por vezes enigmático aos não chilenos, trata-se de retrato no geral aplicável a toda a América Latina. Ruiz, ao lado de Patrício Guzmán e Alejandro Jodorowsky, forma a tríade dos realizadores chilenos exilados que se beneficiaram da distância para um olhar implacável.

Ana, Meu Amor — A princípio, o novo filme do romeno Calin Peter Netzer parece não trazer o mesmo impacto de leitura política e social do ótimo longa anterior Instinto Materno. Mas na relação amorosa tumultuada de Toma e Ana se expõem aqui e ali sintomas atuais de uma sociedade que fez a passagem abrupta do comunismo para o capitalismo sob complexa revisão de valores e com os problemas consequentes, incluso corrupção e falta de ética. Exemplos da complexidade dos valores são as atitudes do jovem casal, de perfil liberal, intelectual em suas discussões de Nietsch, mas que para aplacar a crise conjugal e suas tragédias pessoais buscam simultaneamente a Igreja e o psicanalista. Toma carrega a sombra do suicídio do pai, Ana sofre de forte instabilidade mental e também chora o sumiço da figura paterna quando criança. Vivem seus traumas em meio a um amor também instável, em meio a cenas de sexo (ousadas, com nu frontal e ejaculação) que levariam o MBL a novos surtos coletivos.

Antes do Fim — Antes de tudo, um filme para celebrar dois ícones (de universos distintos) do cinema brasileiro, juntos em cena. O teórico e crítico Jean Claude Bernardet desvinculou-se da figura que  aprofundou nosso entendimento do cinema nacional para dar início, aos 80 anos, a carreira de ator. No passado, dialogou com muitos filmes estrelados por Helena Ignez e a convivência nem sempre foi das mais cordiais, como é contumaz no jeito brasileiro de acertar as contas. Por isso vê-los agora como improvável  casal torna tudo mais estimulante e delicioso nessa proposta de Cristiano Burlan, um dos diretores a reconstruir a persona Bernardet. Um tanto como ensaio, delírio brechtiano (afinal, o predileto de Helena) e irreverência à moda nouvelle vague, os atores representam a si mesmos no desejo de Jean de cometer suicídio e pedir ajuda a Helena,  inconformado com a longevidade prometida pela medicina.

Callado — Essencial sempre, mas na atualidade de um Brasil desfigurado é ainda mais obrigatório recuperar a figura do intelectual múltiplo e dedicado a uma resistência pela pena da escrita. Antônio Callado (1917-1987) escreveu em jornais, publicou romances e peças e se não foi ao front na luta contra a ditadura, nunca se esquivou de combatê-la de modo como podia, com a palavra. Difícil fazer caber tamanha personalidade em um único documentário e Emília Silveira, diretora de um cinema político (Setenta e Galeria F), nem tenta. Fez o seu recorte junto com Miguel Paiva no roteiro e nos dá um homem dividido entre opções ousadas na vida pessoal, tragédias familiares e o ofício amplo que não raro lhe acarretou problemas. A prisão em 1965, no chamado protesto dos Oito do Glória, foi quase acidental, momento inesperado que só enrijeceu suas convicções. Seu legado segue válido, como comprova o grupo de estudiosos, alguns bem jovens, que debatem as ideias de Callado. Contorna-se, ainda, a ingrata representação da literatura no cinema com o uso de expedientes de sobreposição de textos e imagens, ótima pesquisa de arquivo e depoimentos em off.

 

 

 

41ªMostraSP/ Em The Square, cada um em seu quadrado

O sueco Ruben Ostlund fez leitura contundente das relações contemporâneas, do individualismo e da chamada civilidade em seu grau mais elevado em Força Maior. A princípio se refere a sua sociedade, ao homem escandinavo que representa a quintessência da conquista no mundo capitalista e (na aparência) liberal nos costumes.  Mas sabemos que a representação cabe também além fronteiras. Assisti a The Square, seu novo filme que levou a Palma de Ouro em Cannes, sem lembrar da referência ao longa anterior, também exibido na Mostra e lançado em circuito. Melhor assim. Se lembrasse, The Square me pareceria ainda mais titubeante. Diferente de Força Maior, deixa-se embalar por certa pretensão com conteúdo de crítica social que não convence

Há, como no longa anterior, o fato que dispara a trama. Lá, era o pai de família que foge para se proteger deixando mulher e filhos à mercê de uma avalanche. Agora, o protagonista é roubado quando se envolve num incidente na rua. Levam sua carteira, celular, abotoaduras de estimação… Ele consegue rastrear o ladrão e planeja artimanha para resgatar os pertences. Christian é homem requintado, curador de importante museu da cidade onde ocorrerá a mostra de arte que explica o título. A proposta do projeto sinaliza o que o personagem passa a viver. A realidade lá fora é diferente e ao colocar o plano em marcha toda a civilidade de fachada começa a desmoronar.

O problema que a reflexão de Ostlund ressoa um tanto óbvia, na relação entre uma das obras do museu que desinteressa tanto os visitantes quanto os moradores de rua aos pedestres, na performance do artista que se passa por macaco na noite de jantar da vernissage, ou na ideia de que tudo se desarticula quando diferentes mundos se cruzam. O jogo de aparências desta vez surge menos elaborado e a alternativa pela redenção o torna ainda menos eficaz.

41aMostraSP: Kiarostami, Martel, Peck, Varda…e outros filmes de montão

Não posso dizer que os filmes de Abbas Kiarostami e de Lucrecia Martel tenham me tirado do eixo, naquele sentido de impacto que as grandes obras produzem. Mas como são belos e elaborados em seu conceito formal! 24 Frames é o projeto póstumo do diretor iraniano, morto em julho de 2016. Difícil não crer em possível sintonia entre o homem, o artista doente, e seu testamento. Pode-se ressaltar certa melancolia mas também um humor suave dividido com o espectador nos 24 segmentos que se sucedem na tela. Kiarostami elegeu pinturas e fotografias que o marcaram para a partir daí criar e interferir nessas imagens, sempre em preto-e-branco. Há elementos comuns, a paisagem nevada, corvos e gaivotas, cavalos e animais selvagens como leões e cervos, vistos em exteriores ou através de janelas que lembram retábulos. Rara presença humana, em pessoas fixas numa foto enquanto outras caminham na calçada.

E basta. Sem narrativa, apreciamos as imagens como numa exposição de arte, somados a efeitos digitais imperceptíveis. Uma das poucas referências de pintura notórias é uma tela do flamengo Brueghel, Caçadores na Neve, que abre o filme, com pequenas interferências digitais. Outras, talvez, de Ansel Adams ou Thomas Struth. É um ensaio, que de certa maneira lembra Five, de mesmo expediente, mas sem igual elaboração. A repetição tem seu preço, não nos cativa sempre, mas fica na memória o deslumbramento das imagens. Que herança melhor um mestre como Kiarostami poderia nos legar? Seu filme é pura imagética.

Diversa da narrativa de Zama, que se não carrega uma marca da distinção do cinema da argentina Martel, também deve ser visto pelo apuro visual. Não que o drama de época não tenha sua força, uma resposta para o presente buscada no passado. Mas suspeito que poucos realizadores conseguem imprimir uma marca autoral  quando se voltam a revisões históricas de seus países. Por coincidência, o também argentino Lisandro Alonso se saiu melhor com Jauja, e isso, creio, tem muito a ver com o personagem estrangeiro que leva seu olhar e cultura a uma nova nação e ali se perde numa crise existencial. O protagonista de Martel, Diego de la Zama, é um funcionário da coroa espanhola metido em vilarejo na região do Rio da Prata. Quer retornar a Europa, a uma cidade qualquer ao menos, mais civilizada. A autoridade local maior o enrola, nega constantemente a transferência. Zama sai em busca de um revolucionário que luta contra os dominadores, não sabemos ao certo se real ou um mito, de nome brasileiro ou espanhol, interpretado no filme pelo nosso Matheus Nachtergaele. Martel não se preocupa com a veracidade dos fatos extraídos do livro de Antonio Di Benedetto. Está mais preocupada com a formação da América Latina, e esse é  um painel histórico, acredita, inerente a todos da região. Houve, ou não, um Zama, mas por certo existiram muitos iguais a ele. Se teve liberdade para trabalhar a história, poderia talvez ter inserido mais dramaticidade e conflitos em momento, que também sabemos, foi pleno deles.

É o que se pode refletir igualmente em O Jovem Karl Marx, em especial porque quem dirige é Raoul Peck, o haitiano que apresentou este e Eu Não Sou Seu Negro no Festival de Berlim em fevereiro. Neste documentário, toda a força e inventividade para falar da problemática do negro nos Estados Unidos, centrado no escritor e ativista James Baldwin. Já havia visto em Berlim a comportada biografia ficcional de juventude do autor do Manifesto Comunista. Entre interessado e frustrado, não conseguia entender como poderiam ser filmes do mesmo realizador. No entanto, uma boa aproximação é como Peck, negro, conduz o retrato da formação de Marx como quisesse desmistificar o homem que passou a história e apresentá-lo em seu cotidiano de limites, tanto financeiros como de possível ascensão numa sociedade de castas. Afinal, como é para os operários de fábrica a quem bradava as primeiras chamadas a uma consciência, a um levante. Talvez fosse mesmo inadequado tratar o período de que poucos sabemos, e vimos no cinema, com expedientes originais. Peck conta a história, e bem, enquadrada em elegante encenação. Dá o recado, portanto, de maneira elegante, o que já é muito para os dias atuais.

São conceitos de valoração que parecem perder um tanto do sentido quando se  tem uma diretora prestes a comemorar 90 anos como Agnès Varda, que nos traz, enfim, a originalidade e em formas e narrativas deliciosas. Visages, Villages nos leva a uma viagem com o objetivo que sempre marcou o cinema da franco-belga, coletar fatos, imagens, enfim, memória. Dessa vez, ela é acompanhada de jovem diretor e fotógrafo em projeto que escolhe personagens a esmo pelo interior da França para registrá-los e transformá-los em enormes cartazes em fachadas de locais públicos ou privados. Gente comum, fazendeiros, garçonetes, estivadores… como Varda sempre gostou. Faz com isso um painel da importância dos anônimos, da vida real, batalhada e batalhadora. Humor, cinismo brincalhão, marcam os diálogos entre os dois parceiros. Mas também uma genuína tristeza e decepção, quando Varda decide visitar na Suíça o amigo de nouvelle vague Jean-Luc Godard. O ermitão foi avisado da chegada, mas Varda dá com a cara na porta, e um bilhete escrito no vidro um tanto rude nas lembranças que nela evocam. Varda chora. O amigo foi além do limite, diz. Por que fazer essa crueldade? Tudo faz parte da memória, afinal, as alegrias e os desapontamentos. Grande Varda!

 

41ªMostra SP/ Weiwei, Redgrave e as viagens na terceira classe

A Mostra começou e mais uma vez a rotina se estabelece com a precariedade de sempre para nós, cinéfilos, críticos e quem mais quiser tentar dar conta do enorme cardápio. Todo ele seria impossível (ou talvez não, diriam alguns persistentes), mais certamente para aqueles que precisam parar, “refletir” vá lá, escrever um pouco. É o ofício. São mais de 400 filmes. Se o desafio é descobrir alguma pérola, também há a atração pelo que de certa forma já está estabelecido e por isso mesmo merece atenção. Como não querer assistir ao engajado e perseguido Ai Weiwei, o artista plástico e diretor chinês que como pouco faz jus atualmente ao Prêmio Humanidade que Renata Almeida, a dona da Mostra, lhe oferece? De cara, um imprevisto irônico para aquele que afronta a autoridade de seu país e vai de encontro ao que não deve, não pode, ser visto pelo mundo. Exilado em Berlim, ele foi proibido de embarcar por uma companhia americana, que alegou estar o visto brasileiro vencido. Houve garantias consulares de que não, tudo em ordem, e impasse desfeito, ele embarcou. Perdeu a abertura do evento, quando receberia o prêmio, mas na quinta de manhã, cansado, dava uma coletiva de imprensa como prometido.

Seu novo filme Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há para Onde Ir é um projeto de vida, diz o diretor. Em mais de duas horas, ele roda 23 países para registrar o fluxo de refugiados de fronteiras a outras, entre Europa, Ásia, no Oriente Médio e na América do México e dos Estados Unidos. Como a desses despojados, a sua viagem está longe de ser a da primeira classe de um cruzeiro, como sonha a jovem palestina que diz se sentir enjaulada entre os muros e arames farpados impostos por Israel. A pequena equipe, a câmera portátil permite a Weiwei estabelecer contatos, conversas, imagens mais diretas e íntimas do desespero da gente relegada, esquecida, em trânsito ou em campos improvisados. Sua fama de contestador de um regime é diferente daquela da atriz inglesa Vanessa Redgrave, mas seus objetivos nos respectivos filmes os mesmos. Diz muito dela querer, aos 80 anos, dirigir seu primeiro filme com foco nos expatriados.

Não todos de maneira geral, como faz Weiwei, mas com particular atenção às crianças que mal sobrevivem num  acampamento apelidado de “selva”, em Calais, costa da França. Seu olhar é atual junto com voluntários e representantes de órgão independentes de ajuda, mas ela também mira o passado ao lembrar como e quando se formatou a declaração universal de direitos humanos, apresentada por Eleanor Roosevelt durante assembléia da ONU em 1948. E como se caminhou depois até a garantia às crianças. Em paralelo, a atriz conta sua percepção dos acontecimentos pós-guerra, de menina ao choque de visitar “the jungle”. Como Weiwei, ela quis ver. E nós seguimos juntos nessa viagem da terceira classe.

A comodidade do olhar no CineCeará: um balanço da premiação

Ao ofício de júri nos festivais de cinema cabe proceder da maneira menos injusta possível, pois sob algum ponto de vista o será. É trabalho coletivo, afinal, sujeito a preceitos subjetivos, tanto de cada integrante como aos olhos da preferência de quem também assistiu aos filmes, o público. Estar ou não de acordo com o resultado aqui e ali faz parte do jogo. Mas o colegiado escalado para julgar os seis filmes da competição do 27a CineCeará parece ter incorrido num daqueles equívocos de difícil compreensão e que põe senão tudo, quase tudo a perder. Direto ao ponto: deixou-se, de uma só vez, de ressaltar a qualidade superior dos dois melhores projetos exibidos em função de outros problemáticos ou apenas dignos e de sintonizar esse reconhecimento com um debate muitíssimo atual. Verdade que o segundo aspecto não precisa, ou talvez nem deva, concorrer em páreo com a qualidade. Mas quando ambos se somam parece ser pouco razoável não defendê-los. Foi o que fez o grupo ao desvalorizar o concorrente chileno Uma Mulher Fantástica, relegando-o a categorias técnicas, e conceder o prêmio de fotografia e um outro Troféu Mucuripe pró-forma, ainda que indiscutível, a direção do cubano Fernando Pérez por Últimos Dias em Havana.

Começando por este “maestro” do cinema da ilha de Fidel, contexto que determina seus filmes. Pérez é um veterano e hoje grande nome da cinematografia cubana. Desde sempre traz a marca da análise crítica social e política sobre seu paradoxal país, complexo para entender, e que em verdade pouco entendemos. O realizador se esforça para tanto e vimos no Brasil alguns de seus filmes encantadores, tristes ou simbólicos da alegria irreverente daquele povo, como Suíte Havana e La Vida Es Silbar. Últimos Dias em Havana se encaixa no mesmo conceito crítico e registro de humor, ainda que trate de temas dramáticos como a aids e a determinação de um habanero sombrio e misterioso em querer ir-se, como se diz dos que não aceitam o regime comunista e a penúria na ilha.

Há, primeiramente, a capacidade de opor situações dolorosas de uma geração mais velha ao saber lidar e se virar do povo cubano. São eixos representados por Diego (Jorge Martínez), que padece dos males do HIV entrevado numa cama, e de seu amigo de longa data Miguel (Patrício Wood), dedicado a cuidar do dono da casa enquanto aguarda o visto para partir aos Estados Unidos. A esse núcleo de diferentes personalidades e destinos se contrapõe um terceiro, de intuito atual, moldado a partir dos jovens em torno de Diego, como um garoto de programa e de sua sobrinha, personagens determinados a ficar em Cuba e mudar sua realidade. Ou seja, o sintoma político também se estabelece pelas conotações geracionais e de pontos de vista opostos. Construída a narrativa, Pérez passa a costurar os conflitos ocorridos no interior do grande casarão em que habitam muitas famílias, saindo dele apenas para captar o necessário do que é a rua, microcosmo de um cotidiano tanto quanto rico de significados.

Parece operação simples, dado que o material humano e social do peculiar país está ali disponível em seus costumes tão irreverentes, notadamente mesmo folclóricos, de alegria contagiante, como se sabe. Mas Pérez sabe o quanto é perigoso atravessar a linha para a mera representação novelesca, estereotipada, e caminha nos limites do gênero, da comédia empática a um travo dramático, de que é exemplar a cena do táxi na chuva. Não enxergar essa poética que depende de vários fatores em sintonia, de ótimo elenco a roteiro e detalhes em cena mais expressivas do que os diálogos, é não se dar conta da conformação de um filme em sua totalidade para que resulte excepcional. Últimos dias em Havana é um desses casos e a quem queira comprovar o longa estréia no próximo dia 24.

Assim como revi o filme de Pérez, em projeção melhor que a do Festival de Berlim e comprovadora da bela fotografia de Raul Pérez Ureta, também fiz a revisão de Uma Mulher Fantástica. Já comentei em post anterior o quanto gosto do filme de Sebastián Lélio, o mesmo do ótimo Glória. Se na Berlinale fiquei desapontado que Daniela Vega, alma do filme, não levou o prêmio de melhor atriz, em Fortaleza a derrota parece ainda menos justificável. Diga-se da mostra alemã que o nível dos competidores tinha equilíbrio de qualidade e se pode compreender melhor as decisões do júri. Mas o que teria feito os jurados do CineCeará preterir a ”a atriz fantástica” a apenas correta Lola Amores, do também cubano Santa y Andrés?

São ambos primeiros trabalhos, mas a potência de Vega se sobressai muito além do apelo de ser ela mesma transexual que no filme enfrenta resistência e desrespeito da família do companheiro morto. Pode-se imaginar um dilema real no cotidiano da também cantora lírica e talvez a percepção de ser este um papel único, uma incógnita a princípio, tenha pesado na preferência. Bastidores após a premiação, no entanto, davam conta da resistência de alguns integrantes quanto a dificuldade de conceituar o talento de Vega nos parâmetros de gênero. Seria ela um ator ou uma atriz em cena? Ora, não é justamente esse o tema atualíssimo com que a sociedade, digamos, tradicional se embate?

O que Lélio nos oferece é a personalidade pronta e acabada na definição de gênero que Marina, a personagem, almeja ser, uma mulher. Em contraponto curioso, a Santa de Lola Amores se confirma titubeante na esfera da opção política, uma revolucionária que se deixa convencer depressa demais pelos argumentos do dissidente inimigo. O que no mínimo já serve para questionar o roteiro do diretor Carlos Lechuga, eleito pelo júri, em narrativa dedutível, sem sobressaltos ou camadas mais aprofundadas.

Houve quem entre críticos e público enxergasse em Ninguém Está Olhando propósitos além de um drama interessante, bem contado, com ambição a análise social e geracional. Independente do filme de Julia Solomonoff confirmar ou não tais predicados, em muito amenizados por uma acepção de telenovela, a escolha do júri parece se dever a uma habitual saída de consenso. Diante de dois fortes concorrentes suscetíveis a controvérsias, um de esfera política e outro quanto a sexualidade, preferiu-se uma terceira via mais cômoda. Mas júris, espera-se, não existem para acomodar o que já está em conformidade, aceito. Sobretudo os de crítica, de quem se espera um tom acima do olhar de convenção. Se tanto, uma escolha justa, embora dependente da valorização em outras categorias dos melhores filmes em competição, se refere a atuação do argentino Guillermo Pfening. Mas é pouco, muito pouco, para um colegiado que deixou a pulsão de seu tempo passar ao largo.