A comodidade do olhar no CineCeará: um balanço da premiação

Ao ofício de júri nos festivais de cinema cabe proceder da maneira menos injusta possível, pois sob algum ponto de vista o será. É trabalho coletivo, afinal, sujeito a preceitos subjetivos, tanto de cada integrante como aos olhos da preferência de quem também assistiu aos filmes, o público. Estar ou não de acordo com o resultado aqui e ali faz parte do jogo. Mas o colegiado escalado para julgar os seis filmes da competição do 27a CineCeará parece ter incorrido num daqueles equívocos de difícil compreensão e que põe senão tudo, quase tudo a perder. Direto ao ponto: deixou-se, de uma só vez, de ressaltar a qualidade superior dos dois melhores projetos exibidos em função de outros problemáticos ou apenas dignos e de sintonizar esse reconhecimento com um debate muitíssimo atual. Verdade que o segundo aspecto não precisa, ou talvez nem deva, concorrer em páreo com a qualidade. Mas quando ambos se somam parece ser pouco razoável não defendê-los. Foi o que fez o grupo ao desvalorizar o concorrente chileno Uma Mulher Fantástica, relegando-o a categorias técnicas, e conceder o prêmio de fotografia e um outro Troféu Mucuripe pró-forma, ainda que indiscutível, a direção do cubano Fernando Pérez por Últimos Dias em Havana.

Começando por este “maestro” do cinema da ilha de Fidel, contexto que determina seus filmes. Pérez é um veterano e hoje grande nome da cinematografia cubana. Desde sempre traz a marca da análise crítica social e política sobre seu paradoxal país, complexo para entender, e que em verdade pouco entendemos. O realizador se esforça para tanto e vimos no Brasil alguns de seus filmes encantadores, tristes ou simbólicos da alegria irreverente daquele povo, como Suíte Havana e La Vida Es Silbar. Últimos Dias em Havana se encaixa no mesmo conceito crítico e registro de humor, ainda que trate de temas dramáticos como a aids e a determinação de um habanero sombrio e misterioso em querer ir-se, como se diz dos que não aceitam o regime comunista e a penúria na ilha.

Há, primeiramente, a capacidade de opor situações dolorosas de uma geração mais velha ao saber lidar e se virar do povo cubano. São eixos representados por Diego (Jorge Martínez), que padece dos males do HIV entrevado numa cama, e de seu amigo de longa data Miguel (Patrício Wood), dedicado a cuidar do dono da casa enquanto aguarda o visto para partir aos Estados Unidos. A esse núcleo de diferentes personalidades e destinos se contrapõe um terceiro, de intuito atual, moldado a partir dos jovens em torno de Diego, como um garoto de programa e de sua sobrinha, personagens determinados a ficar em Cuba e mudar sua realidade. Ou seja, o sintoma político também se estabelece pelas conotações geracionais e de pontos de vista opostos. Construída a narrativa, Pérez passa a costurar os conflitos ocorridos no interior do grande casarão em que habitam muitas famílias, saindo dele apenas para captar o necessário do que é a rua, microcosmo de um cotidiano tanto quanto rico de significados.

Parece operação simples, dado que o material humano e social do peculiar país está ali disponível em seus costumes tão irreverentes, notadamente mesmo folclóricos, de alegria contagiante, como se sabe. Mas Pérez sabe o quanto é perigoso atravessar a linha para a mera representação novelesca, estereotipada, e caminha nos limites do gênero, da comédia empática a um travo dramático, de que é exemplar a cena do táxi na chuva. Não enxergar essa poética que depende de vários fatores em sintonia, de ótimo elenco a roteiro e detalhes em cena mais expressivas do que os diálogos, é não se dar conta da conformação de um filme em sua totalidade para que resulte excepcional. Últimos dias em Havana é um desses casos e a quem queira comprovar o longa estréia no próximo dia 24.

Assim como revi o filme de Pérez, em projeção melhor que a do Festival de Berlim e comprovadora da bela fotografia de Raul Pérez Ureta, também fiz a revisão de Uma Mulher Fantástica. Já comentei em post anterior o quanto gosto do filme de Sebastián Lélio, o mesmo do ótimo Glória. Se na Berlinale fiquei desapontado que Daniela Vega, alma do filme, não levou o prêmio de melhor atriz, em Fortaleza a derrota parece ainda menos justificável. Diga-se da mostra alemã que o nível dos competidores tinha equilíbrio de qualidade e se pode compreender melhor as decisões do júri. Mas o que teria feito os jurados do CineCeará preterir a ”a atriz fantástica” a apenas correta Lola Amores, do também cubano Santa y Andrés?

São ambos primeiros trabalhos, mas a potência de Vega se sobressai muito além do apelo de ser ela mesma transexual que no filme enfrenta resistência e desrespeito da família do companheiro morto. Pode-se imaginar um dilema real no cotidiano da também cantora lírica e talvez a percepção de ser este um papel único, uma incógnita a princípio, tenha pesado na preferência. Bastidores após a premiação, no entanto, davam conta da resistência de alguns integrantes quanto a dificuldade de conceituar o talento de Vega nos parâmetros de gênero. Seria ela um ator ou uma atriz em cena? Ora, não é justamente esse o tema atualíssimo com que a sociedade, digamos, tradicional se embate?

O que Lélio nos oferece é a personalidade pronta e acabada na definição de gênero que Marina, a personagem, almeja ser, uma mulher. Em contraponto curioso, a Santa de Lola Amores se confirma titubeante na esfera da opção política, uma revolucionária que se deixa convencer depressa demais pelos argumentos do dissidente inimigo. O que no mínimo já serve para questionar o roteiro do diretor Carlos Lechuga, eleito pelo júri, em narrativa dedutível, sem sobressaltos ou camadas mais aprofundadas.

Houve quem entre críticos e público enxergasse em Ninguém Está Olhando propósitos além de um drama interessante, bem contado, com ambição a análise social e geracional. Independente do filme de Julia Solomonoff confirmar ou não tais predicados, em muito amenizados por uma acepção de telenovela, a escolha do júri parece se dever a uma habitual saída de consenso. Diante de dois fortes concorrentes suscetíveis a controvérsias, um de esfera política e outro quanto a sexualidade, preferiu-se uma terceira via mais cômoda. Mas júris, espera-se, não existem para acomodar o que já está em conformidade, aceito. Sobretudo os de crítica, de quem se espera um tom acima do olhar de convenção. Se tanto, uma escolha justa, embora dependente da valorização em outras categorias dos melhores filmes em competição, se refere a atuação do argentino Guillermo Pfening. Mas é pouco, muito pouco, para um colegiado que deixou a pulsão de seu tempo passar ao largo.

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“Ninguém Está Olhando” vence CineCeará

Longa argentino, co-produção com Brasil e outros países, também rendeu Troféu Mucuripe de melhor ator a Guillermo Pfening, além de prêmio da crítica/Abraccine. Veja os premiados abaixo:

Troféu Mucuripe
Melhor Longa-metragem – Ninguém está olhando, de Julia Solomonoff
Melhor Direção – Últimos dias em Havana – Fernando Pérez
Melhor Fotografia – Últimos dias em Havana – Raúl Pérez Ureta
Melhor Montagem – Ninguém está olhando – Andrés Tamborino, Karen Sztanjberg e Pablo Barbieri.
Melhor Roteiro – Santa e Andrés – Carlos Lechuga
Melhor Som – Uma mulher fantástica – Isaac Moreno
Melhor Trilha Sonora – Uma mulher fantástica – Matthew Herbert
Melhor Direção de Arte – Malasartes e o Duelo com a Morte – Tulé Peake
Melhor Ator – Ninguém está olhando – Guillermo Pfening
Melhor Atriz – Santa e Andrés – Lola Amores
Prêmio da Crítica (Abraccine) – Ninguém está olhando, de Julia Solomonoff

Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem:
Troféu Mucuripe
Melhor Curta-metragem – Festejo Muito Pessoal, de Carlos Adriano
Melhor Direção – Valentina – Estevão Meneguzzo e André Félix.
Melhor Roteiro – Memórias do subsolo ou o homem que cavou até encontrar uma redoma, de Felipe Camilo.
Melhor Produção Cearense – Caleidoscópio, de Natal Portela
Prêmio da crítica (Abraccine) – Filó a fadinha Lésbica, de Sávio Leite

CineCeará: a competição segue com os “deslocados”

Há um sentido diverso mas complementar na sensação de deslocamento que une as personagens de três dos filmes da competição vistos até agora. A mulher fantástica de Sebastián Lélio é o transexual tratado como aberração pela família dita convencional de seu companheiro, que morre subitamente. Ali é um pária e só se encontra quando retorna ao meio mais liberal da noite. São outros os deslocamentos, sociais e políticos de maneira geral,  dos protagonistas de Ninguém Está Olhando e Santa e Andrés.

O primeiro é uma co-produção Brasil e Argentina, dirigida pela cineasta argentina Julia Solomonoff. Sua proposta é a de um drama de eventuais toques de humor simpático. O suficiente para não carregar demais nas tintas da vida de Nico (Guillermo Pfening), ator de sucesso nas telenovelas portenhas que migra para Nova York em função de uma crise amorosa com o parceiro, produtor de seu projeto atual. Mas Nico busca também a sorte no cinema americano e mesmo internacional, o que sua estampa mais européia do que latina se mostra apenas um dos obstáculos. Entre um teste e outro, ou um projeto cancelado, ele é obrigado a trabalhar de baby sitter para uma amiga argentina, de garçon e mesmo viver de expedientes menos legais.

A essa altura pode-se imaginar um contexto de algum estereótipo, do melodrama que afinal está presente no pano de fundo da trama, e a diretora não o nega. Pelo contrário, opta assumidamente pelo recurso de folhetim de TV, para em contraponto desconstruí-lo pelo próprio ambiente em que Nico sobrevive. Assim, a conversa com as babás latinas na praça que frequenta com o bebê tem seu reverso na mãe americana que o aborda pedindo que cuide de seu filho pequeno, criado apenas entre mulheres. Ou ainda quando uma poderosa produtora local pede que abandone seu tipo loiro e pinte os cabelos de preto. Bem verdade que nem sempre esse entorno de  clichês naturais a experiência de um imigrante, e fiquemos nos latinos aqui, que aspira a conquista no dito primeiro mundo é plenamente justificado.

Mas a diretora assume e defende seu ponto de vista ao esclarecer que gosta do melodrama e isso justamente integra o universo dos que partem a uma nação nem sempre solidária e generosa aos estrangeiros. Melhor que o dilema e as angústias de Nico são bem trabalhadas no plano dramático pessoal, adicionando contrastes entre o medo do fracasso, o limite para a submissão a um projeto de vida e por fim o desejo de retornar ao que já conhece. É deslocamento social, geográfico e sobretudo afetivo e de raízes, fardo nada fácil.

Se Nico de alguma maneira escolheu o desterro como saída a novos desafios, é de outra ordem o deslocamento forçado de Andrés (Eduardo Martínez) no filme do cubano Carlos Lechuga, Santa e Andrés. Escritor homossexual preso e perseguido pela revolução de Fidel, ele vive penosamente num casebre em povoado no centro do país. Traidor, dissidente portanto aos olhos dos apoiadores do comandante en jefe nos anos 80, momento de grande radicalismo. Precisa ser vigiado porque não querem que escreva e, principalmente, fale contra o regime, como já fez. Nos dias em que ocorre um fórum mundial, a encarregada do ofício é Santa (Lola Amores), que leva sua cadeira diariamente para a porta de Andrés e o vigia. Conhece seus hábitos, inclusive os favores sexuais de um jovem local, e passa a mudar a percepção a ponto de questionar sua crença. Esta é a narrativa no geral, e talvez um dos aspectos pouco estimulantes é que o drama não ousa além das expectativas logo confirmadas. Um ou outro recurso simbólico quebra o registro realista, como o ser fantasiado que surge em certo momento, retirado das lendas locais, e representante da esperança. Ou ainda a conotação de estabilidade dada pela cadeira de Santa e com reflexo em outras, significativo de um fardo que se carrega.

Há uma sensação de constância que não desorienta mas também não beneficia o filme, que por vezes se detém demais ou se entrega rápido a mudanças, como no questionamento de Santa de seu credo. Ainda sim, o filme provocou celeuma. Foi censurado e não poderá ser visto pelos cubanos. Como aqui, faz carreira em festivais e ganhou o prêmio principal em Guadalajara.

Por certo um sintoma nessa edição do CineCeará não passou despercebido. A temática gay predomina e já há piadas de um Mix Ceará e a necessidade de cotas para heterossexuais. Brincadeiras à parte, o evento se mostra vitrine diversificada e sintonizado com seu tempo.

 

As velhas artes (agora digitais) de Pedro Malasartes

Fiquei de desenvolver um pouco mais a discussão sobre o filme de Paulo Morelli a que me referi brevemente no post anterior. O filme é Malasartes  e o Duelo com a Morte. A personagem de tradição da cultura caipira brasileira anda fora de moda mas quem tiver mais de 40 anos por certo tem referências de ouvir falar, ou de ouvir contar, já que no interior do Brasil era figura presente nos causos e histórias passadas de pai para filho. Todos sabem que Malasartes vive de expedientes e  de sua esperteza em enganar os outros, nem sempre conseguindo manter os benefícios para si. Conquista, mas em seguida perde o ganho, num ciclo interminável. Dito assim, poderia se pensar em um retrato hoje ingênuo demais para ser trabalhado pelo cinema.

Em parte é verdade. Morelli, talvez consciente disso em um projeto sobre o qual se debruçou por mais de uma década, fez da passagem do tempo e por outros projetos um aliado e investiu num atrativo que é quase recurso obrigatório em filmes que reinventam personagens e temas do passado. Buscou nos efeitos digitais um instrumento a mais de linguagem para atrair novos públicos. E aqui chegamos as duas vertentes que quero discutir no filme e que parece sintonizar com os colegas presentes no debate matinal no CineCeará. Se os recursos digitais, e eles claro são notáveis por se tratar de produção da O2, acrescentam diferenciais significativos ao contexto e podem interessar a novas gerações, e quem seria esse público atual? Ou se talvez tornam-se um espetáculo em si, de demonstração pura de tecnologia, sem fundamentar mais a trama, colaborar com ela.

Morelli garante que não tem fetiche pelos recursos da computação gráfica e pensou sempre que a trama antes deve se servir dela e não o contrário. Um equilíbrio complexo, talvez, delicado, que me pareceu resumido a grosso modo entre as duas angulações da história. No ambiente real da trama, ou seja o rural, quase nada de efeito. Uma ou outra aparição da morte, encarnada por Julio Andrade. Ali se vale do velho ofício dos atores, todos em sintonia, como Isis Valverde,  Augusto Madeira e Milhem Cortaz, para fazer valer o tom de fantasia romäntica e ingênua. Em outro, digamos, submundo,  a representação se dá  graficamente em vale sombrio permeado de velas separando o dono das mortes das parcas, ou moiras, as três entidades femininas tecelãs que determinam os destinos humanos pelos fios que tecem. Aqui a tecnologia corre solta, possibilitando um fundo de fantasia para os atores e atrizes (Vera Holtz entre elas) trabalharem.

Pelo contraste entre ambos os cenários, a ambientação em digital me pareceu excessiva, um tanto carregada, o que acaba por contaminar o filme como um todo. Saudosismo talvez de certa tendência de recuperação pelo cinema de um mundo ingênuo do Brasil que se esboça modesta, mas valente, como na recente adaptação de Meu Pé de Laranja Lima. Neste se vale apenas da atuação e do universo realista de obra de referência da literatura infantil e se prova que dá certo. Malasartes, o filme, tem mais fatores positivos do que equívocos, se é que se pode chamar assim uma aposta maior na tecnologia do que no fator humano. Não se conhece ainda que  público comprará e como  reagirá a aposta nas salas a partir desta quinta, quando o filme estrear. Mas na sessão em Fortaleza, nem a tecnologia nem a presença em carne e osso de ótima performance como protagonista de Jesuíta Barbosa segurou jovens na faixa dos 20 anos que abandonaram a projeção. Ou preferiram se dedicar na sala outra tecnologia, esta incômoda, do chat nos celulares.

CineCeará: entre a questão de gênero e o cinema de tradição

 

Começou muito bem, e promete repetir a qualidade das duas últimas edições, o 27o Cine Ceará – Festival Ibero Americano de Cinema. Como estratégia para honrar seu modelo que congrega os países de língua hispânica, o evento costuma todo ano homenagear um país amigo. Desta vez é o Chile, e de certo modo a abertura no sábado reiterou a do ano passado, quando Pablo Larraín apresentou seu impactante O Clube. Dessa vez é outro tipo de impacto e os irmãos Larraín, Juan de Díos como o produtor habitual de seus filmes, assinam a produção. Já havia visto Uma Mulher Fantástica na Berlinale, de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro, e gostado muito. Rever o filme de Sebastian Lélio sobre transexual que perde o companheiro subitamente e enfrenta a raiva da família dele trouxe boas e novas perspectivas. O filme não seria o que é sem Daniela Vega, trans na vida real e dona de visual e voz (lírica!) potente.

Vocês conhecem Lélio do também ótimo Glória. A mulher madura um dia reprimida que reconstrói sua vida pela via profissional e amorosa como amante de um homem casado é um reflexo direto da mãe do diretor. Ele reflete sobre a geração que teve seu destino suspenso pela truculenta ditadura de Pinochet. Sabe escolher suas atrizes, e Paulina García levou prêmio na categoria no Festival de Berlim há quatro anos. Agora, com a personagem Marina Vidal, antes Daniel, Lélio fala de questão da hora de seu tempo, de sua geração, seja no Chile, Brasil seja em qualquer outra nação latina conservadora, talvez católica, de valores arraigados de família. Lélio não veio a Fortaleza. Está terminando sua primeira produção americana que não desmente a obsessão pelas personagens femininas, com Rachel McAdams e Rachel Weisz como protagonistas.

Em seu lugar veio a montadora Maria Soledad, que falou com extrema afinidade sobre a parceria com Lélio. “Mais do que uma recente trilogia da sociedade chilena, creio que é a mulher que interessa a Lélio”, me respondeu sobre seus recentes filmes. E essas mulheres surgem frágeis e inseguras na aparência mas adquirem controle da situação. Como Glória, que munida de um pin ball vai a forra, Marina usa sua porção masculina para exigir uma última recordação de Orlando. Mais do que as cenas de catarse, o realizador exibe sensibilidade para cenas delicadas, como aquela em que Marina encobre o sexo (ambas, atriz e personagem não optaram pela operação) com um espelho e se mira nele. Um belo filme que poderá ser visto a partir do dia 17 em circuito.

Corpo Elétrico

Não foi por acaso que a Associação Cearense de Críticos de Cinema, Accecine, organizou uma sessão paralela ao festival do longa de estréia de Marcelo Caetano. Corpo Elétrico é o do jovem gay Elias (Kêlner Macedo), mas também o de todos a sua volta, entre colegas de trabalho e do universo gay em que transita. Na verdade, podemos entender a eletricidade no caso como simbólica e inerente a pulsão sexual natural e em boa parte oposta ao um imaginário de romantismo. Elias é um estilista que em seus 20 e poucos anos dá os primeiros passos no ofício como assistente em pequena confecção no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. É volátil com parceiros, enquanto mantém uma relação para o sexo com antigo namorado e flerta com um segurança e quem mais vier.
E quem vem um dia na oficina é um imigrante africano por quem se apaixona e de quem tenta se aproximar. Há esse quadro, digamos, intimista, pessoal, mas o que conta para Caetano, com curtas-metragens ligados ao universo homoerótico, é mais o quadro ampliado de seres em busca de seus desejos, sejam o físico ou mais aprofundados sejam os profissionais, em crítica bastante reconhecível da exploração capitalista, no caso do pequeno capital.

É nessa vertente que o jovem diretor se sai melhor. Impressiona que este mineiro baseado na capital paulista nos dê o esboço de uma metrópole especifica a um estrato social que a classe média e a alta desprezam e não mais enxergam e convivem. Tanto o de homens e mulheres heteros que são vistos na região central ou periférica da cidade, como dos gays, que tocam suas vidas de transformistas em um mundo próprio, independentes da aceitação ou rejeição do entorno. Poucas vezes esse universo surge com tanta naturalidade e expressão como aqui, e por isso mesmo me ressenti de diálogos mais elaborados, em especial porque há ótimos parceiros com Caetano no roteiro, como Hilton Lacerda.

Ainda queria dar conta neste post de outra vertente que nos chegou aqui ontem à noite com o novo filme de Paulo Morelli, Malasartes e o Duelo com a Morte. Filme de grande produção para os padrões nacionais, com direito a uso, em alguns momentos excessivos mas não totalmente incômodo, para dar conta desse esquecido herói cômico da esperteza caipira. A quem se destina o filme é uma questão, a ser desvendada logo mais quinta-feira, quando chega a 250 salas. Mas uma coisa é certa: o cearense-pernambucano Jesuíta Barbosa encanta no tipo de tradição circense, de João Grilo ou Jeca Tatu, e merece ser visto por qualquer público. Tenho que sair para a sessão noturna agora e depois conto mais da conversa durante debate sobre o filme.

Agora, o olhar da preservação

Parti de Curitiba, onde acompanhei a sexta edição do Olhar de Cinema, e já estou em outra mostra, a Cine OP, ou Mostra de Cinema de Ouro Preto. Uma viagem no tempo e no espaço, não apenas geográfico. Mas só em termos. Da sempre estimulante vitrine curitibana dirigida por Aly Muritiba e Antonio Júnior mal tive tempo de postar alguma coisa. Destaco, de cara, a ótima retrospectiva de Murnau (não completa, pois há filmes perdidos e outros de difícil recuperação para o DCP) sob curadoria do simpático Aaron Cutler, com os títulos consagrados como A Última Gargalhada e Aurora, mas também menos conhecidos, para mim nunca vistos mesmo, como Fantasma e Tartufo. Essa breve informação para introduzir o tema da memória, de um passado que por vezes pode ser tão mais vigoroso que a produção atual, ao qual  afinal se dedica o Cine OP. Se a Mostra de Tiradentes é voltada ao novíssimo  e o Cine BH ao mercado,  co-produções e laboratórios, o terceiro braço da iniciativa das irmãs Hallak alcança a seríssima questão da preservação de nosso cinema.

É o assunto dia e noite aqui, com seminários e encontros sucessivos e exibições de curtas e longas raros, restaurados ou não, no charmoso Cine Vila Rica. Também há a produção recente exibida ao ar livre na Praça Tiradentes, que a noite volta a ser do povo, local e de fora, para prestigiar muitas vezes sob frio de 10 graus. A abertura na sala fechada e lotada anteontem não poderia contar com figura mais emblemática do assunto. Na tela, o documentário Desarquivando Alice Gonzaga procurava dar conta da filha do pioneiro Adhemar Gonzaga, cineasta, produtor e idealizador da Cinédia, fundada por ele nos anos 30. Falo em tentativa, porque essa personagem parece quase indomável por um único retrato, ainda que a diretora Betse de Paula faça um trabalho mais que competente. Com sua mão para comédias, Betse sabe da força e pulsão de sua protagonista e a deixa a vontade, realçando justamente o humor e a fala desenfreada, no contar de piadas e casos de tudo que Alice viu e ouviu no cinema brasileiro.

E não foi pouco. Alice tem um pique e tanto para seus 82 anos e diz que com 6 já estava remexendo nas coisas “de papai ” . Tornou-se uma arquivista obsessiva e nos galpões da Cinédia figura até hoje boa parte da memória do cinema nacional e algo de Hollywood e cinema europeu. Nas conversas muito informais, não poupa a própria família nas questões mais complicadas que os clãs costumam ter. Sua mãe, por exemplo, era uma beldade que queria ser atriz e foi lançada por Gonzaga. Logo se casaram, sob os protestos da mãe do diretor, que acabou por podar a carreira da nora. Sobre o cinema, fala de muitos, Humberto Mauro, Grande Otello, as irmãs Aurora e Carmen Miranda… Sobre Mário Peixoto, revela que o pai acreditava ser o fotógrafo Edgard Brasil a alma e o autor de Limite. Alice, figura carimbada nos círculos de festivais e meio cinematográfico tem fama de controversa, mandona. Até isso assume, pois nasceu e cresceu com bom lastro financeiro, e afinal, podendo mandar.

 

 

Body, soul e bigode na Berlinale

Começou no início da tarde, ao meio-dia, a trajetória do filme húngaro On Body and Soul rumo ao Urso de Ouro que acabou por se efetivar agora a pouco, na cerimônia de entrega dos prêmios principais. Antes, foram anunciados os troféus paralelos na sala de coletivas do festival. E o Brasil levou um deles, o único, com a escolha do filme de Júlia Murat, Pendular, na seção Panorama pelo júri da crítica internacional da Fipresci. Júlia discursou emocionada e lembrou um velho amigo de sua família (ela é filha de Lúcia Murat) que conversava sobre cinema à mesa em sua casa, o crítico José Carlos Avellar, morto no ano passado. Dedicou a ele o prêmio. Outra mulher, a húngara Ildikó Enyedi subiria ao palco duas vezes, uma também para o prêmio da Fipresci na competição principal, outra para a preferência dos leitores de um jornal local. Ao agradar crítica, público e finalmente o júri oficial de Paul Verhoeven, On Body and Soul fez barba, cabelo e bigode, como se diz.

Ao anunciar o Urso de Ouro, Verhoeven justificou usando uma palavra definidora, compaixão. Teria despertado esse sentimento a todos do júri a história de uma relação amorosa peculiar, ela uma jovem infantilizada, metódica e fechada para a paixão, ele homem mais experiente que tenta vencer a barreira. Tem uma deficiência física, a falta de um dos braços. São pessoas, em algum ponto, marcados por um traço incomum e isso parece tornar-los vulneráveis perante a sociedade. Preferem se corresponder pelos sonhos, num toque fantástico. Em tempos de intolerância, ódio, as sutilezas com que a diretora trata o drama é tocante. Não sou grande entusiasta do filme, mas me parece que foi a escolha de concordância. Curioso que foi o segundo competidor a ser exibido e vieram outros talvez ate´mais potentes. Mas faltou o grande filme nesta edição e a saída pode ser a conciliação.

Gostei no geral das escolhas, ainda que surpreendentes por desbancar expectativas dadas como certas. Talvez a maior tenha sido a atriz de Hong Sangsoo, Kim Minhee, derrotar a preferida Daniela Vega, a transexual (na realidade e na tela) de Una Mujer Fantastica. Mas esta teve seu quinhão na noite ao subir no palco sob grande aplauso quando Sebastián Lelio e Gonzalo Maza receberam o Urso de Prata de melhor roteiro. Foi surpresa, mas também foi bonito ouvir Kim Minhee agradecer emocionada. E ela faz um grande trabalho. Se Vega foi aclamada, papel antipático fez Aki Kaurismaki. De início, ele parecia apenas desconcertado e provocador. Ao se anunciado melhor diretor, demorou a se levantar, mas não seguiu para o palco. Resultado: o diretor do festival e a jurada incumbida de entregrar o prêmio foram até ele, que deu um muito obrigado sem convicção e despachou o troféu para os colegas. Obviamente, o finlandês esperava o ouro, não contentou com a prata.

A diferença de comportamento se evidenciou quando o congolês Alain Gomis subiu para receber o Grande Prêmio do Júri por Félicité, outro belo acerto. Falou das dificuldades de seu país e esperar que o prêmio ajudasse a melhorar a situação. Para uma edição de exemplares interpretações, a figura masculina também deve ter dado trabalho ao júri e a decisão ficou em casa, para Georg Friedrich em Bright Nights. Ele foi irreverente e antes de agradecer tirou um chiclete da boca e o colou no Urso. Se tínhamos, o Brasil, alguma chance, ela se perdeu aí, pois Júlio Machado faz grande atuação também em Joaquim. Assim como o ator de Ana, Mon Amour parecia insuperável. O filme romeno, por fim, ganhou por sua montagem, realmente valorosa, num prêmio de contribuição técnica. O mais estapafúrdio, porém, foi ver a veterana Agniezska Holland ser escolhida por seu filme Pokot-Spoor para um prêmio que abre novas perspectivas. Deus nos ajude se essa for alguma nova tendëncia, num filme antiquado e quase constrangedor para quem já fez belos trabalhos no passado.

Voltando ao prêmio brasileiro, não tive tempo de postar um comentário sobre Pendular, e na verdade fiquei conjecturando sobre o que gosto e o que não gosto no filme de Júlia. Achei corajosa a transição que ela faz de “Histórias que Só Existem Quando Lembradas”, que dá conta de uma pequena cidade e vidas paradas no tempo, para este agora retrato moderno de casal jovem, tendo talvez o ponto de contato da reclusão com o filme anterior. Mais uma vez, reforçando a tese da força de intepretação desta Berlinale, Rodrigo Bolzan e Raquel Karro vem do teatro e tem desempenho vigoroso, físico mesmo, ele como artista plástico e ela bailarina. Vivem num galpão onde tocam seus trabalhos e a paixão. Parece o sonho perfeito, mas quando vem a notícia da gravidez a crise se impõe. Ao final das sessões, Júlia contou que se inspirou em parte na sua verdadeira relação com o marido, o diretor e roteirista do filme Matias Mariani. A decisão de fechar num huis clos a relação do casal é arriscada, e o pouco que o filme se abre ao exterior parece revelar um ceticismo de que a vida lá fora só oferece dor e tristeza. Seria essa ambivalência, o pendular do filme também? Vou me dar o direito de por enquanto me manter num pêndulo quanto a apreciação da proposta de Júlia e dar nova chance ao filme.

 

Berlim (9º dia): E o romeno Calin Netzer conseguiu de novo

Antes de repassar a última manhã da competição, um reparo. Havia escrito que as doze produções brasileiras presentes na Berlinale assinaram a carta de protesto quanto aos rumos da política do governo voltada ao audiovisual, lida ontem por Marcelo Gomes na coletiva de imprensa e depois na gala de “Joaquim”. Na verdade, João Moreira Salles, de “No Intenso Agora”, optou por não assinar. Que não se julgue de modo incisivo o que pode ser uma postura diversa aos demais realizadores. Saí faz pouco de ótima entrevista com Gomes e ele disse esperar que seu filme ajude não a dividir ainda mais o já polarizado debate nacional mas sim somar cabeças e opiniões que amam o Brasil. “Se gostamos do nosso país, temos que achar um jeito de melhorá-lo. Todos juntos”. Ponto final.

E não é que há um ponto de contato entre “Joaquim” e “Ana, Mon Amour”, o filme do romeno Calin Peter Netzer que encerrou esta manhã a seção competitiva pelos Ursos? No Tiradentes humanizado de Gomes, o alferes precisa cortar seu longo cabelo não por uma contingência militar, mas porque a praga do piolho atormenta a todos. Gomes explicou a cena como um desafio, pois não haveria take 2. A escrava “Preta” pega uma tesoura e tosquia a cabeça de Joaquim-Júlio Machado. Chegou a machucar ambos, mas ótimos atores, seguiram com a tomada. É possível ver semelhança física entre o ator brasileiro e o protagonista de “Ana”. Mas para marcar a passagem do tempo, entre juventude e maturidade, Toma, o personagem, também perde o cabelo. Surge cabeludo para mais tarde deixar a vista uma calvície iniciante.

A questão é que o ator Mircea Postelnicu roubou as esperanças dos jornalistas brasileiros, ao menos de alguns deles, de ver Júlio Machado subir ao palco da Berlinale amanhã a noite para o prêmio de intérprete. E não deverá ser pelos atributos físicos que ambos expõem em entrega total, e o nu frontal masculino foi recorrente nesta Berlinale, a medição do júri. O talento, digamos, artístico deixa o romeno com poucos centímetros na dianteira como o homem que é o equilíbrio de Ana, de forte instabilidade mental. De volta ao esforço físico em cena, a cãmera capta a ejaculação de Toma na transa do casal, ele preocupado em gozar fora para não engravidá-la. Ambos se conhecem na faculdade e contra a vontade dos pais dominadores assumem sua relação. São filhos únicos e vivem cada um seu trauma familiar, o suicídio do pai de Toma, o sumiço do pai de Ana quando criança.

Film stills

Quem viu Instinto Materno, o filme anterior que deu a Netzer o Urso de Ouro há tres anos, reconhecerá certa temática similar, ainda que neste a questão social de uma Romênia saída do comunismo para o capitalismo desenfreado seja mais evidente. “Ana’ é baseado em romance de um autor romeno, mas do título “resnaisiano” a conexões com o Bergman de “Cenas de um Casamento”, como observou Rodrigo Fonseca hoje na coletiva, as relações cinematográficas também são fortes. Me lembrei de raro documentário recuperado pela Cinemateca de Bologna e exibido no Olhar de Cinema, em Curitiba, no ano passado. Ali a protagonista também se chama Anna, e a seu modo de sem teto na Roma dos anos 70, é acolhida por um dos diretores que passa a filma-la e a tentar resgatar sua dignidade.

Pode-se acompanhar o dilema romântico de Toma e Ana sobre a perspectiva mais habitual da paixão arrebatadora que não vinga. Toma não segura sempre a onda quanto a depressão da jovem. Entra a religião, no caso o catolicismo, e a cena da confissão e conselhos do padre é muito melhor do que os encontros do protagonista com o analista. Parecem vertentes contraditórias, jovens liberais, intelectuais que discutem Nietsch, mas que buscam a Igreja e o pscinalista ao mesmo tempo. Essa é a riqueza do filme, apresentarnos as peculiaridades dessa sociedade que vive neste intenso agora uma realidade semelhante ao Brasil de cobranças pelos desmandos e corrupção dos políticos. Ouvi de alguns colegas que o filme é demasiado discursivo, centrado na obsessão do protagonista. Me pareceu, contudo, muito atual e bem estruturado nas pressões da sociedade moderna. Um novo Urso de Ouro será difícil, mas um prêmio do júri ou ao diretor, mais ainda, ao ator, surge bem possível.

Talvez pela exigência do filme de Netzer, o programa anterior da manhã tenha sido escolhido a dedo para ser mais divertido. A animação chinesa Have a Nice Day usa técnica da rotoscopia, como Richard Linklater em Waking Life em que intérpretes atuam na forma animada, para trabalhar situações recorrentes do país no cinema. Máfia, embates entre gangues, o progresso galopante e construções que tomam a China são o enfoque embalado pela violência gráfica. O roubo de grande soma em dinheiro de um chefão põe a roda de personagens diversos em marcha, como o rapaz que quer usar a fortuna para uma nova cirurgia plástica da noiva. Sem grandes surpresas, o programa cumpriu a função de preparar a platéia para o que viria de maior reflexão em seguida. Amanhã, às 19h no horário local, começa a premiação. Mas um pouco antes, com os prêmios secundários como o da crítica internacional, já dá para antecipar um pouco da orientação do time de Paul Verhoeven.

 

Berlim (7º/8º dias): protesto brasileiro e os últimos da competição. O Urso, será?

Acabo de chegar da gala de “Joaquim” e como antecipavam os rumores, Marcelo Gomes e sua equipe subiram ao palco sob forte aplauso para a leitura de documento mais incisivo contra a perda de legitimidade e do status democrático em processo político de retrocesso. A Berlinale, como se sabe, é espaço de cinema e apelo político. Não poderia ser melhor local para dar conta de uma guinada e falta de rumo da atual gestão do Brasil. Mais ainda, após um filme que fala dos anos finais de 1700 para refletir sobre hoje. Foi uma noite bonita e emocionante.

Mas a Berlinale segue. Amanhã serão exibidos pela manhã os dois últimos concorrentes para os Ursos da Berlinale. Depois do chinês que não tenho referências, vem o novo filme de Câlin Peter Netzer. O romeno venceu o Urso de Ouro há alguns anos com seu ótimo Child’s Pose, retrato do capitalismo avassalador e corrupto que dominou o país depois da queda de Ceaucescu. Netzer não afronta esses temas políticos de forma direta. O atropelamento de uma criança pobre numa estrada por um herdeiro mimado de família abastada era o mote para o retrato de uma classe alta e seus expedientes e ética duvidosos. Agora, Ana, Mon Amour, tem em primeiro plano uma história de amor (e a referência ao filme de Alain Resnais não me parece à toa), mas a sinopse pincela um cenário de fundo agitado.

A Romênia está tomada pela corrupção, e de modo ainda mais evidente do que no Brasil, que usou a estratégia de combate aos corruptos para destituir partido e persona (s) non grata (s) eleitos democraticamente, a população vai as ruas, ao palácio do governo, exigir um basta. Não sei se o diretor realizou seu filme a tempo de refletir sobre o caos político, mas creio que isso estará ao menos nos contornos de sua história. Diz algo a direção do festival te-lo escolhido para encerrar a competição.

Foi uma 67º edição de cinco ou seis filmes de bom nível, alguns muito bons, mas não chegamos a ver aqui a grande descoberta. Os concorrentes húngaro, congolês, chileno e finlandês estão entre os meus favoritos. Além do nosso Joaquim, é claro. Há produções que nos deixam desconcertados, mas nem sempre pela via positiva. A portuguesa Teresa Villaverde, que confesso nunca me conquistou, foi para mim a que mais deixou essa trava. Procuro as qualidades de “Colo” e as encontro na temática de crise social e econômica que ela nunca, até onde conheço de seus filmes, utilizou para simbolizar uma desagregação.

Em Água e Sal, Villaverde ficcionalizou seu traumático divórcio. Desta vez, uma família sofre um abate com a perda de emprego do dono da casa. A mulher tenta equilibrar as dificuldades, enquanto a filha adolescente vive os dilemas da idade e se desorienta. Estão aí  a melancolia que é traço de personalidade dos portugueses, vê-se uma maneira pouco prática de se lidar com os problemas etc Mas a diretora equaliza demais esses fatores e não consegue expressar um tom genuíno, de veracidade no sofrimento dos personagens. Fica mais preocupada em ordenar planos, formalizar as tomadas, numa estética que descasca os sentimentos.

Um pouco no polo oposto está o filme do veterano alemão, de carreira internacional, Volker Schlöndorff. Mas aqui o problema parece ser a confiança total na força de atração dos protagonistas e o embate romântico pelo qual passam. Stellan Skarsgard é o escritor alemão respeitado que vai a Nova York para lançar seu novo livro e reencontra ali antiga paixão que não foi adiante. A personagem da bela Nina Ross, estrela local, não aceita de pronto a reaproximação mas cede. Tem dignidade a atração entre ambos, a discussão do passado legitima boa parte do filme, mas nada vai muito além do já visto no roteiro que tem colaboração do autor irlandês Colm Toibin. Em uma palavra, é um filme clássico, de um diretor que já ousou e hoje me parece acomodado. Estaria assim na cota alemã, como todo festival faz com sua prata da casa, obrigatória mas nada animadora. É em parte a situação de “Beuys'”, documentário do artista conceitual alemão e nome internacional das artes, que merecia um retrato mais radical,como ele foi nos anos 70 e 80. Tem o valor, contudo, de trazer o artista por ele mesmo, com diversas entrevistas e ótimo material de arquivo.

Por fim, como no cinema de Kaurismaki, no do coreano Hong Sangsoo, já sabemos o que esperar quanto a temática e narrativa. E não deu outra em On the Beach at Night Alone, título que de certo modo orienta a virada final. A maneira de certa Nouvelle Vague, de Rohmer mais especificamente, seus personagens giram em torno de amores mal resolvidos, questões de identidade, de mudança de território. É o caso da jovem que vai visitar amiga em Hamburgo, enquanto espera a chegada de um rapaz cujo namoro foi interrompido. Esta é uma primeira parte. Na segunda, a mesma jovem volta a Coréia e se vê um tanto fora de lugar com os velhos amigos. Como sempre, conversa-se, come-se e bebe-se muito mas são as discussões de sentimentos e certa desilusão que valem. É quase mais do mesmo, mas um pouco melhor na levada de humor que os filmes anteriores. Amanhã dou os últimos detalhes para a chegada final aos Ursos,

 

 

 

 

Berlim (7º/8º dias): na reta final, Tiradentes como boi de piranha

Em certo momento da longa busca por ouro no interior de Minas, Tiradentes e seus parceiros de viagem precisam atravessar um rio cheio de piranhas. O personagem de Rômulo Braga lamenta não ter um boi para sangrar e jogar na água. Assim não atrairiam os peixes. Mais tarde, na cena final glauberiana, o “Joaquim” que Marcelo Gomes apresentou nesta manhã na competição da Berlinale, reverbera a mesma condição. Aos olhos da classe superior que o cerca na mesa do almoço, poetas, intelectuais etc, o alferes do ótimo Júlio Machado é o boi de piranha da revolta da inconfidência que está para ser deflagrada. O filme de Gomes termina aí, pois não interessa a ele a figura história dos livros escolares mais tarde adotada pela ditadura como herói e mártir.

Por isso também o título traz apenas o primeiro nome de Joaquim José da Silva Xavier. Gomes desconstrói, como disse hoje na coletiva de imprensa, dessacraliza o mito. Logo na abertura, o diretor já propõe a revisão a maneira de Machado de Assis, ou mesmo Nelson Rodrigues. Quem fala ao público é a cabeça decapitada do Tiradentes. Todos os inconfidentes foram mortos pela rebeldia,mas apenas ele perdeu a cabeça.

Essa desconstrução talvez tenha provocado certo desapontamento por aqui quanto ao tratamento de gênero dado por Gomes a um fato que poderia se abrir a grandiloquência, ao recurso dramático das grandes utopias. Mas ele faz sua aposta na busca do homem por trás da mitologia e imagina, em verbo usado por Gomes na conversa de hoje, um ser de complexidades e caráter também suscetível. Joaquim quer, como os demais servidores do reino de Portugal, encontrar ouro, enriquecer o suficiente para comprar a sua amante “preta’.

Mas será a escrava que mata, foge e então lembra a ele que tem um nome a responsável por despertar a consciência social do soldado. Tiradentes quase enlouquece, delira ao descobrir a opção por liberdade que pode existir ao reencontrar a agora quilombola. Sua viagem atrás do ouro que ele e ninguém poderá usufruir, só a rainha de Portugal, também é de uma iniciação, uma maturidade. Gomes não atingiria a necessária profundidade desses personagens sem os atores, e Machado é por certo  mais uma aposta evidente para o prêmio de melhor ator. O páreo não é fácil, como já escrevi em post anterior. Assim como também a portuguesa de origem africana Isábel Zuaa, a “preta”, tem impressionante força.

A coletiva terminou com a leitura de carta de protesto assinada pelas equipes das doze produções presentes na Berlinale dando conta da crise democrática, retrocesso de conquistas sociais e desmantelamento da estrutura de políticas de financiamento estatal de filmes. Gomes se interessou pelo momento histórico da Inconfidência mineira a partir da comparação do momento atual e não o contrário. Esperemos que ele e sua equipe não sirvam de boi de piranha para uma classe média desinformada e agressiva, apoiada por mídias e redes sociais descontroladas, a exemplo do que sofreu Kleber Mendonça e seu time em Cannes do ano passado.